25 de fevereiro de 2017

Manchester À Beira Mar

Manchester by the Sea, EUA, 2016. Direção: Kenneth Lonergan. Roteiro: Kenneth Lonergan. Elenco: Casey Affleck, Lucas Hedges, Michelle Williams, Gretchen Mol, Tate Donavan, Kara Hayward, Kyle Chandler. Duração: 2h16min. 

Há duas cenas que definem bem o espírito de Lee Chandler durante sua busca por redenção: após passar por novas situações constrangedoras, ele se embebeda no bar até a noite lhe permitir arrumar alguma confusão. Na primeira, depois de passar de um trabalho ao outro, vivendo com sua contumaz apatia, ele rejeita a aproximação de uma mulher para continuar isolado em seu mundo até que decide brigar com os homens de terno em sua frente que o “encaravam”. Na segunda, Lee está de volta à sua terra natal, onde encontra a mãe de seus filhos, o que faz com que o passado recaia sobre ele como uma tormenta. A única maneira dele encontrar a solução para acabar o seu sofrimento é mais dor.

E quando o filme de Kenneth Lonergan entende que Lee Chandler é seu verdadeiro horizonte e que suas atenções precisam sempre estar voltadas a ele, a obra consegue desenvolver um drama comovente sobre o quão doloroso pode ser continuar vivendo, mesmo que isso já não faça mais diferença quanto antes. Assim, Casey Affleck tem a atuação de sua carreira, ao se prender a um homem que representa a sua maior característica como ator: a apatia diante do caos. Se a luz que o acompanha quando está com seus filhos e a mulher em momentos é trocada pela amargura como passa a viver depois da tragédia, as nuances são sempre bem evidenciadas por Affleck – da empatia ao desprezo. Seu ponto de virada é exatamente na Delegacia, onde, ao perceber, que precisaria continuar vivendo como se nada tivesse acontecido, ele tenta dar um fim a sua própria existência.

O grande problema de Manchester, no entanto, gira em torno da trilha sonora de Lesley Barber, a qual sempre tenta pontuar cada momento mais sensível com composições que gritam tragédia (a pior delas sendo no funeral), e também na montagem de Jennifer Lame que nunca garante as idas e vindas do passado de maneira orgânica. E observe, por exemplo, que ela sempre tem que lembrar que aqueles flashbacks sobre momentos que Lee e Joe passaram juntos estava na cabeça dele, durante uma leitura de um testamento ou no reconhecimento de um cadáver.

Lonergan, igualmente, pretere a jornada de Lee em muitos momentos apenas para inchar a narrativa com mais cenas com o jovem Patrick, que também passa por novidades na sua vida. Mas quase nunca relativas ao pai. Fora a cena do freezer, o rapaz está mais preocupado com sua banda ou em transar com uma de suas amigas, numa tentativa nada sutil de Lonergan em afirmar que a vida continua para outras pessoas.

Assim, é na última conversa entre a personagem de Michelle Williams e Casey Affleck que o diretor nos oferece essa prova sobre como cada um lida com seu passado. “Eu quero que você seja feliz”, diz um Lee decidido a ser completamente miserável em sua vida.

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