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Sobre os trilhos de um trem, um garoto perdido mira
o horizonte à procura de seu irmão. Seu nome é Saroo, que, após dormir numa
estação, acabou se perdendo e pegando por engano um trem para uma
ameaçadora Calcutá. Com suas expressões de assombro e encantamento sobre o
mundo que percebe, num primeiro momento, a fragilidade do garoto se mostra sua
inimiga ao tentar se informar sobre seu destino ou comprar bilhetes para outra
cidade. Tudo é muito difícil para Saroo, que acaba sendo mandado para um
orfanato de jovens abandonados.
De certa forma, a narrativa do australiano Garth
Davis é sobre ritos de passagens: o nosso processo de amadurecimento e como
dialogamos com o futuro, após passados turbulentos. Não à toa, a chegada de
Mantosh na vida da família serve para demonstrar exatamente qual poderia ser o
caminho tomado por Saroo, mesmo que o roteiro não precise sublinhar com tanto
destaque. A questão levantada pelo roteiro de Luke Davies (Um Retrato de James
Dean), que foi baseado no livro do próprio Saroo Brierley, é conscientemente
essa: tudo gira em torno de nossa relação com o passado. E qual caminho
tomaremos ao lidar com ele.
São os pensamentos que permanecem, as lembranças
boas que levam o personagem de Dev Patel, ao atingir a maioridade, à procura de
sua família biológica. Não existe, para ele, a memória da fome, da dificuldade.
Não. É o carinho materno que o alimenta e, claro, que o guia. Portanto, é um
pouco frustrante que o percurso iniciado pelo incrível Sunny Pawar, o
verdadeiro talento de Lion, o qual interpreta o pequeno Saroo, nunca encontre
respaldo na fase adulta de Saroo. É curioso, por exemplo, que jamais saberíamos
quem era aquele homem se não tivéssemos contato com o menino num primeiro
momento.
Patel, sim, consegue criar um laço através da
expressividade de seu olhar, que nos lembra vagamente do garoto que encontramos
no primeiro ato. Com as mesmas dificuldades de se comunicar, mas com um coração
enorme. O roteiro não o acompanha, por outro lado, ao tentar saídas fáceis para
seus conflitos, sem nunca soar natural: "você merece mais". A
imaturidade do roteiro a partir do segundo ato não parece passar pelos
personagens, que acabam evoluindo como se não dependessem desse processo.
Assim, o diálogo que Saroo trava com sua mãe sobre maternidade parece de outro
filme. Com outros personagens. Vivendo outras situações.
Ainda assim, a memória afetiva do pequeno Saroo
criada conosco e sua disposição acaba sendo mais efusiva do que seu desfecho.
Paradoxalmente, no fim, era exatamente isso que Davis queria: um filme sobre
lembranças. E quando o protagonista volta aos mesmos trilhos, no último ato,
parece que o garoto que vimos crescer finalmente encontrou o caminho que
gostaria de ter tomado desde pequeno.
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