5 de março de 2018

A Trama Fantasma

Phantom Thread, Inglaterra/EUA, 2017. Direção: Paul Thomas Anderson. Roteiro: Paul Thomas Anderson. Elenco: Daniel Day-Lewis, Vicky Krieps, Lesley Manville, Sue Clark, Brian Gleeson. Duração: 2h10min.

"Em resumo, a pessoa amada deixou de ser apenas uma instância exterior, para viver também no interior de nós, como um objeto fantasiado que recentra nosso desejo, tornando-o insatisfeito no limite do tolerável. O ser que mais amamos continua sendo inevitavelmente o ser que mais nos insatisfaz."
J. D. Nasio, O Livro da Dor e do Amor


Tolstoi escreveu que nosso maior erro é confundir o belo com o que é realmente bom. O autor destacava em seu livro a dualidade entre a vida e a morte, além do nosso interesse por apegos momentâneos. Sobre fascínios bruscos. E como nossa percepção pode se tornar evidentemente cega num espaço curto de tempo.

O apreço pelo controle sempre foi um assunto que interessou muitos psicanalistas. O princípio do masoquismo, ou sado, foi visto por Nasio não como perversão, mas como pulsão, onde as duas partes se sentem vítima/autor. Orientados por um espalho de dor intimista, em que o autoinfligimento é uma maneira de contestar o que lhe reprime, de se sentir, de alguma forma, vivo.

Em A Trama Fantasma, a nova obra-prima de Paul Thomas Anderson, há uma adaptação cirúrgica sobre o paradoxo de amar quem nos faz mal. De amar quem lhe machuca. Anderson nos leva até o mundo do sadomasoquismo, mas releva a sexualidade e se interessa primordialmente pelo psicológico. Não é o glamour o êxtase, mas a falta dele.

Conhecemos, assim, Reynolds Woodcock (de sobrenome cínico), um renomado estilista, de acordo com seus caprichos e sua rotina. Sua intenção, embora seja explorar a felicidade do outro e por consequência sua própria, é "costurar" uma mulher perfeita. Suas amantes são caprichos e ostentações. Feitas conforme sua vontade. Quando Alma Elson lhe chama atenção, entretanto, com seu jeito desajeitado, a quebra das molduras pragmáticas do estilista se torna sintomática.

Se em um primeiro momento, observamos a paixão e admiração cegas despertadas pelo novo amor entre eles, logo, a devoção de Alma vira confrontadora, já que, como Anderson evidencia, o amor faz com que queiramos moldar a pessoa conforme nossa própria vontade, queiramos que a pessoa que amamos seja a melhor possível e o confronto sirva para mostrar para ela o caminho que ela pode tomar a partir daí. Nem sempre o mais sábio? Talvez, mas isso não importa, pois a humanidade é egoísta, na visão de PTA.

Quando Alma percebe uma oportunidade de ser importante na vida de Reynolds, ela agarra. Porque, assim como ele, ela quer estar no controle de tudo. Moldar seu relacionamento. Costurá-lo. Vicky Krieps é um assombro e desnuda completamente o tormento de Alma em sua obsessão por Reynolds. Ainda mais impactante que Rosamund Pike, em Garota Exemplar, o diálogo que a atriz tem com Lewis durante o clímax, expondo o que espera que seu marido seja para ela, um dependente contumaz, é de uma vitalidade ímpar. Da mesma forma, a confiança de Lesley Manville durante a narrativa jamais perde a intensidade. Mas é, claro, Daniel Day-Lewis, que projeta em Reynolds Woodcock um homem entre o absoluto e a renúncia do autocontrole, o nosso principal contato com o horror da narrativa pessimista de Paul Thomas Anderson.

O horror de sentir ao invés de pensar, o horror de ser vulnerável, de ser humano, o horror de só sentir prazer na dor, o horror de amar quem nos açoita. Tal qual mãe!, de Aronofsky, nos deixou perplexos e amargurados com o que acontecia dentro daquela representação da humanidade, Paul Thomas Anderson vai pelo mesmo caminho tortuoso e indica pessimistamente o que faz com que digamos sim ao amor e à dependência emocional. Uma patologia muito além do que poderíamos pressupor. 

2 de março de 2018

Os 25 Melhores Filmes Nacionais de Terror


Terror nacional? Sim. Embora nunca tenha sido um gênero tão popular no país (até José Mojica Marins era mais aclamado na Europa do que no Brasil), o horror começou a despontar como um dos favoritos de diretores iniciantes. Nos últimos anos, canais foram feitos para focar apenas no gênero e alguns dos nomes mais famosos do horror nacional provém de curtas-metragens, um canal ideal para uma aproximação inicial com um determinado público. Em 2013 e 2016, por exemplo, diretores como Dante Vescio, Rodrigo Gasparini e Dennisson Ramalho apareceram no cenário internacional com segmentos para a famosa franquia O ABC da Morte. O terror nunca esteve tão em alta no Brasil.

Ok, mas, então, existem filmes do gênero sem ser os de Zé do Caixão? Existem, e são muitos. Após as primeiras aventuras de Zanatas, o cinema marginal brasileiro também usou o horror de trampolim para suas críticas sociais/políticas.  

A seguir, eu listei as minhas 25 produções favoritas do gênero no país. Uma lista que, claro, poderá ter futuros acréscimos. 


25. Proezas de Satanás na Vila de Leva-e-Traz (Dirigido por Paulo Gil Soares, 1967)




Muitos dos filmes da década de 60 e 70 que se aventuraram pelo gênero vinham do cinema marginal brasileiro, onde serviam como plataforma para monólogos políticos. Proezas de Satanás caminha por esta ótica: a do caminho profano. Na história, o diabo para em uma cidadezinha do interior de Minas, quando o último padre da cidade anuncia que está indo embora. Uma das maiores proezas do filme (com o perdão do trocadilho) é a música de Caetano Veloso, que fornece romantismo a uma obra que deve muito a ela, principalmente nos dois primeiros atos, antes de encontrar a sua crítica mordaz, com o Satanás virando político.

24. Cianose (Dirigido por Matheus Strelow, 2014)


Um caso comum. Uma menina morta. Um dossiê policial acerca do caso. Com uma série de fotografias still, Strelow monta um curta suficientemente mórbido.


23. As Fábulas Negras (Segmentos de Rodrigo Aragão, José Mojica Marins, Joel Caetano, Petter Baiestorf e Marcelo Castanheira. 2014)




Antologia de quatro histórias, onde Aragão conseguiu chamar alguns dos maiores expoentes do horror nacional. A melhor história é de Petter Baiestorf, Pampa Feroz, que apresenta uma narrativa finíssima de lobisomem.

22. Kassandra (Dirigido por Ulisses da Motta. 2013)


Horror que se passa em porto-alegre, aborda uma menina com agorafobia e a sua completa ausência de comunicação. O maior destaque é a performance de Renata Stein, que eleva sua desordem até ela se tornar palpável ao público e formar sua fonte de defesa.

21. Mangue Negro (Dirigido por Rodrigo Aragão, 2008)



É o primeiro longa-metragem de Aragão. A primeira parte de sua trilogia pantanosa. Na narrativa, à la Sam Raimi, zumbis canibais começam a atacar uma pequena e isolada comunidade de pescadores.

20. O Membro Decaído (Dirigido por Lucas Sá. 2012)


Sá trabalha no campo das limitações. Ele que delimita o que o espectador pode ou não ver. Nesta simplicidade, a tensão reside nos detalhes.

19. O Anjo da Noite (Dirigido por Walter Hugo Khouri, 1974)


Tentando se distanciar tanto  do trabalho que Mojica havia feito até então quanto do que havia sido proposto no cinema marginal, O Anjo da Noite é um sopro de novidade nos anos 70 para o horror brasileiro, que cria sua própria versão de A Volta do Parafuso. 

18. O Duplo (Dirigido por Juliana Rojas. 2012)



Tal qual o curta-metragem Religare, o filme de Juliana Rojas explora o tormento de uma professora numa sala de aula, que certo dia percebe que há um duplo dela tomando seu lugar.

17. O Estranho Mundo de Zé do Caixão (Dirigido por José Mojica Marins. 1968)


Mais um capítulo da saga do Zé. Aqui, uma compilação de três histórias de horror, onde canibalismo e sadomasoquismo são alguns dos temas de Mojica, cada vez mais insano e interessado nos limites do audiovisual.

16. A Menina do Algodão (Dirigido por Kleber Mendonça Filho e Daniel Bandeira. 2003)


Uma história simples sobre assombração em banheiro de escola. Nas mãos de diretores que sabem absorver terror da simplicidade.

15. O Terno do Zé (Dirigido por Fabiano Soares. 2015)


Quando a tensão, o medo e a história superam a linguagem ainda amadora, o resultado é um filme como O Terno do Zé, que tive a oportunidade de assistir pela primeira vez em 2015, quando votava em um festival. O clímax de Fabiano Soares é assustador.

14. Um Ramo (Dirigido por Marco Dutra e Juliana Rojas. 2007)


Um dos aspectos mais interessantes de Dutra e Rojas sempre foram as tonalidades de traumas emocionais. Aqui, a visão é a de uma mulher que começa a observar algo nascendo em seu corpo.

13. Encosto (Dirigido por Joel Caetano. 2013)


Com montagem do grande Rodrigo Aragão, o filme de Joel Caetano capta o misticismo religioso com uma classe invejável. 

12. A Pata do Macaco (Dirigido por Ademar Guerra. 1983)


Um inesquecível Mario Lago é o companheiro de Nathalia Timberg, que formam um casal que mora em um cortiço ao lado de um cemitério. Eles veem na chegada de uma família com dificuldades financeiras a oportunidade de passar adiante um amuleto mágico, a pata de um macaco, que dá a chance de fazer três desejos. A história é um clássico da literatura gótica britânica, de W. W. Jacobs. 

11. O Segredo da Família Urso (Dirigido por Cintia Domit Bittar. 2014)


E se escondêssemos um dos períodos mais aterrorizantes de nossa história, como se ela fosse uma memória esquecida, empoeirada, coberta por falsos bonecos e brinquedos? Se tudo não passasse de uma grande metáfora para uma juventude curiosa e inquieta? E o nosso pai representasse o estado opressor? A mãe, a negligência? A talentosa Cíntia Domit Bittar nunca esconde o jogo em O Segredo da Família Urso. Sabe que seu terror e suspense não se faz de sustos, mas hipnotiza pela realidade.

10. Mate-me Por Favor (Dirigido por Anita Rocha da Silveira. 2015)


Bia é uma personagem fascinante. Dona de uma curiosidade mórbida e sempre dividida entre a inocência e a malícia (perceba o quarto da menina, após uma transa, por exemplo – de um lado ursos de pelúcia e no outro um crânio), a protagonista nos leva com naturalidade para caminhos comportamentais obcecados pela carne.  

9. Sinfonia da Necrópole (Dirigido por Juliana Rojas. 2014)


- Você vai morrer um dia.
- Mas quando, padre? Por favor, quando?!

Dono de uma irreverência já presente no argumento (estamos falando de um musical com coveiros), Sinfonia da Necrópole cresce a cada revisita.

8. Quando Eu Era Vivo (Dirigido por Marco Dutra. 2014)


Quando escrevi sobre o excepcional Trabalhar Cansa, em 2011, eu apontei que o mais impressionante da estrutura narrativa criada por Juliana Rojas e Marco Dutra era a vantagem de ser praticamente um drama travestido de horror. Afinal, os temores do público eram provenientes da dose dramática depositada na realidade que a protagonista vivia. O terror não era definido pelo gênero, mas pelos acontecimentos familiares no roteiro. No seu primeiro longa-metragem solo, Dutra não rompe a barreira entre o sobrenatural e o real, mostrando-nos desde o princípio qual a sua proposta: o caminho que percorreremos não é seguro ou convencional, mas nem por isso imprevisível ou inverossímil. Um dos melhores terrores brasileiros já produzidos.

7. Ninjas (Dirigido por Dennison Ramalho. 2011)


Algumas das melhores cenas da filmografia de Ramalho (talvez todas elas) estão aqui, em Ninjas. Um filme em que seu protagonista tem que lidar com o fato de ter se tornado um monstro.

6. As Filhas do Fogo (Dirigido por Walter Hugo Khouri. 1978)


O horror de As Filhas do Fogo, de Khouri, reverbera na solidão humana de sua trama. De sua ótica melancólica. Na história, Diana volta para casa de campo de sua família, após anos, e se vê diante de memórias tormentosas e também se vê diante do que se tornou, numa obra que passeia pelo terror gótico, por liberdade e sexualidade. É o melhor filme de seu diretor.

5. Vinil Verde (Dirigido por Kleber Mendonça Filho. 2004)


Possivelmente, uma das sequencias mais marcantes da filmografia de Kleber é a do canto angustiante das luvas verdes. Amante do gênero, todos seus filmes possuem cenas de medo, mas nenhum deles tem sequencias assustadoras como esta fábula infanto-juvenil.

4. A Meia Noite Levarei Sua Alma (Dirigido por José Mojica Marins. 1964)


O primeiro marco do cinema de terror brasileiro. Se o terror brasileiro formar uma espécie de Monte Rushmore algum dia, a face de Mojica deverá ser a primeira a ser esculpida. Na sua zombaria ao cristianismo e as tolices místicas, o cineasta se interessa em destacar as sandices populares brasileiras e como reagimos a elas.

3. Mar Negro (Dirigido por Rodrigo Aragão. 2013)


No seu passeio pelo trash, Aragão se inspira em Raimi e Romero para entregar o melhor filme da trilogia.

2. Trabalhar Cansa (Dirigido por Marco Dutra e Juliana Rojas. 2011)


Um filme que fala acima de tudo sobre o horror capitalista de jamais saber o futuro de sua saúde financeira. "Não toca nisso, isso é sujo", diz a mãe para a filha que mexe com o dinheiro do caixa. O terror familiar de Dutra e Rojas é puramente socioeconômico.

1. Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver (Dirigido por José Mojica Marins. 1967)


Para mim, a obra-prima do terror nacional. No segundo filme do personagem imortalizado por Mojica, o diretor se sente mais livre ao explorar o cinismo acerca de superstições e da natureza humana. Algumas das melhores sequências de sua filmografia estão aqui, inclusive, com direito a animais peçonhentos e o inferno na mente de Josefel Zanatas. Um clássico. 


Bons filmes. Até breve.

26 de fevereiro de 2018

Pantera Negra

Black Panther, EUA, 2018. Direção: Ryan Coogler. Roteiro: Ryan Coogler e Joe Robert Cole, baseado nos personagens de Stan Lee e Jack Kirby. Elenco: Chadwick Boseman, Michael B. Jordan, Lupita Nyong'o, Danai Gurira, Martin Freeman, Daniel Kaluuya, Letitia Wright, Winston Duke, Sterling K. Brown, Angela Bassett, Forest Whitaker e Andy Serkis . Duração: 2h14min.

"Talvez a proximidade da morte seja necessária para que se tenha a indispensável liberdade de abordar o assunto."

Carl Jung

"Diga-me, então: que poder teria a Morte, se depois que te fosses, a posteridade lhe deixasse viva?"

Shakespeare


"A mais perigosa criação no mundo, em qualquer sociedade, é um homem sem nada a perder,"

Malcom X


"Dê o primeiro passo. Não é necessário que você consiga visualizar toda a escada, apenas dê o primeiro passo."

Martin Luther King Jr.

Em tempos como o nosso, onde a era da informação nos permite compartilhar pensamentos em microssegundos sobre qualquer coisa, o absolutismo moral com que tudo é encarado nos rende instantes de pura demagogia sociológica. Afinal, enquanto se aplaude o óbvio em discursos feitos para angariar likes e reconhecimento de que, sim, quem escreveu o texto também é uma vítima e também precisa de atenção, o que incomoda não ganha o debate merecido. Por quê? Se fosse fácil debater o sistema que estamos inseridos, ele não seria mais o sistema que estaríamos, certo?

Um documentário poderoso lançado em 2016 chamado Hypernormalisation falava exatamente sobre esse nosso apego por tentar resolver sintomas para não ter que lidar com a doença elementar. Que se nos forçássemos a apontar para as sequelas pareceria de alguma forma que estávamos nos preocupando em solucionar o todo; quando, na verdade, o ciclo se mantinha intacto e, inclusive, ainda mais solidificado, já que o sistema precisa manter as mentes ocupadas. Com a raiva cada vez mais acentuada e sem um direcionamento pragmático, medido quanto a raiz do sistema, os discursos de mudança se enfraqueciam na mesma intensidade com que eram vociferados. Passeatas eram feitas, mas sem saber bem para onde ir. E como toda a estrutura sem líderes, os aproveitadores mudavam o tom do discurso bem intencionado por algo mais nocivo. O diretor Adam Curtis pegava principalmente o exemplo da Primavera Árabe para expor sua tese.  

Neste ano, inclusive, um dos maiores exemplos quanto ao maniqueísmo raso praticado pelo absolutismo moral que tomou conta do nosso debate social foi a recepção unilateral de um filme tão complexo quanto Três Anúncios Para um Crime, que ao abdicar de fazer uma história com heróis e vilões e expor uma realidade em que todos são falhos de caráter e tentam apenas ser o melhor que podem naquele mundo em que foram criados, na qual todos são vítimas de um sistema cultural racista e misógino, despertou um discurso fácil que apenas aponta o problema sem saber muito bem o que quer dizer com aquilo. "Aquilo é ruim, pois aquelas pessoas, ahn, são ruins. E você não pode dar um final feliz para pessoas ruins, certo?!". Novamente: é fácil aplaudir o óbvio. Mas e quanto a debater o que nos deixa incomodados? É tão fácil quanto?

Num filme como Pantera Negra, o discurso reducionista de vilões versus mocinhos não é algo buscado tampouco. Pelo contrário, Coogler se apoia num debate histórico que já foi o pivô entre dois grandes pensadores americanos modernos: Malcom X e Martin Luther King Jr. Como se confronta a violência social? Com mais sangue ou com discursos de união e paz? Não é uma batalha em que se vê por completo a visão que sairá vitoriosa, pois, de novo, não saem vencedores desse debate. O debate acerca do sistema é mais amplo e busca a erradicação completa de uma cultura separatista.

Tal como Malcom X e Luther King, a busca de  T'Challa e Killmonger talvez seja a mesma, os caminhos que se tornam opostos – a conciliação contra a guerra. Coogler age consciente sobre a natureza do seu discurso e não cai na armadilha de estabelecer vínculos completos com apenas uma das partes. Evidencia que há discursos coerentes com a natureza de vida daquelas pessoas. Independente de suas oposições. O prazer pela violência de Killmonger é visto nos detalhes, como um sorriso em um determinado momento de uma luta. E não à toa, o seu momento mais belo é quando forçado a encarar o fim, ele estabelece uma conexão final com o que lhe trouxe até ali: a memória de seu pai.

Ao mesmo tempo, é muito atraente a visão de Coogler em colocar o debate central na visão de primos. Não é preciso que Ulysses Klaue (Serkis, divertidíssimo) seja o antagonista para a questão racial ser um objeto de análise. O diretor deixa claro que o conceito é outro. Que estamos falando de indecisões na própria maneira de agir dentro de um espectro racial. Ele fala sobre raça sem que precise dizer que está falando sobre raça. Assim, a sutileza moral de Pantera Negra chega no auge quando, diante do caos, as pessoas têm que lidar com posicionamentos sociais premeditados: ajo pelo meu país ou por meu país?

Pantera Negra, afinal, é um filme sobre tradição e reverência (a cena em que T'Challa desce de sua nave para uma cerimônia é uma das mais bonitas que o mundo Marvel já nos proporcionou), mas também sobre conceitos racionais. Wakanda representa um sistema. T'Challa e Killmonger representam ideias. Sim, talvez algumas ideias acabem morrendo, por um bem maior, na percepção de Coogler. Mas não deixam de ser necessárias para o debate. 

28 de dezembro de 2017

RETROSPECTIVA: OS MELHORES FILMES DE 2017

 

O que houve de novo (ou de melhor) no cinema, em 2017? Não existe uma resposta categórica para isso. As afirmações para melhores filmes são máximas individuais. Não são exclamações, são reticências. Ou vírgulas, melhor. O cinema é isso, não é mesmo? Um despertar de inquietações – algumas delas, provém da razão; tantas outras, da emoção.

Aqui, eu listei alguns dos filmes que me acertaram em cheio em 2017. Espero que a vocês também.


Melhores Filmes Lançados em 2017:



  1. mãe! (mother!. EUA, 2017)

     
    Cinema não é só aquilo que se diz. Não é só o que é mostrado em tela. A arte não é evidência. É subjetiva, metafórica, aflitiva. A nova obra-prima de Aronofsky, mãe!, não fala sobre milhares de desconhecidos entrando numa casa com o aval de um homem controlador. Não. Ele utiliza essa metáfora para mergulharmos numa trama paranoica, antirreligião e, acima de tudo, ambientalista. Afinal, um título mais claro que mãe! seria possível apenas se ele viesse acompanhado por … natureza. É sobre ela que Aronofsky se debruça, julgando nosso caráter como civilização – já que somos forasteiros, que se sentem em casa, sem ligar se interferimos ou não no design imaginado para aquela casa, para aquele mundo. Assim, a figura de uma mulher para representar fisicamente a natureza é uma das melhores decisões possíveis que o diretor podia tomar, já que consegue evidenciar ainda mais a relação entre domínio/submissão e a misoginia presente nas mais diversas camadas sociais. Crítica completa.

  2. Dawson City: Frozen Time (Idem. EUA, 2016) 



    Há momentos raríssimos em que a fala é necessária em Dawson City. E um deles é logo no começo: "essa história é incrível". Era ali que o registro da voz era imprescindível para categorizar o que nós veríamos. E o assombro faz jus. DW é um filme que faz pulsar cada imagem cinematográfica como se fosse a primeira vez que assistíssemos a um filme e conhecêssemos a história do cinema.

  3. No Intenso Agora (Idem. Brasil, 2017) 

     
    João Moreira Salles consegue nos levar para uma viagem que não apenas reflete sobre o passado, como também o nosso presente e o que podemos esperar do futuro.

  4. Marjorie Prime (Idem. EUA, 2017)


    Se você pudesse enclausurar uma única memória sobre uma relação, qual seria? De que época? Quem seria? Há imagens que gostamos de individualizá-las, acredito. Uma foto ou uma recordação que guardamos só para nós. Não divulgamos aos quatro cantos cibernéticos, tampouco fazemos questão de notá-la todos os dias. É seguro o suficiente saber que essa memória só é nossa. Está lá e podemos vê-la, de vez em quando. Como se fosse a primeira vez. O filme de Michael Almereyda (do excelente O Experimento de Milgram), Marjorie Prime, traça uma intimidade que raros filmes conseguem ao suavizar a perda sem que o luto seja desafiador. São quatro personagens que dividem as memórias conosco: Jon, Tess, Walter e Marjorie. O fio da narrativa nos sugere um serviço que oferece recriações holográficas de parentes falecidos, mas a mensagem acumula o mais importante: o que realmente nos faz humanos. Crítica completa.

  5. Três Anúncios Para um Crime (Three Billboards Outside Ebbing, Missouri. Inglaterra/EUA, 2017)


    Nesta tragicômica cidade amaldiçoada em Missouri, Martin McDonagh cria personagens que transitam continuamente entre a estupidez, o cinismo, a empatia e a vulnerabilidade. Humanos, acima de tudo. As resoluções de personas como Dixon, Willoughby, James, Charlie e tantos outros, demonstram que não é uma realidade fácil; pelo contrário, o tormento daquelas pessoas é quase imutável. Dolorosíssimo, Three Billboards é mais uma obra pragmática sobre uma sociedade perdida, onde as jornadas podem ser distantes, mas as conclusões se assemelham.

  6. Colossal (Idem. Canadá/Espanha/EUA/Coréia do Sul, 2016)


    A sensação depois de Colossal é a de ficar paralisado, como se um robô gigante lhe arrastasse por 200 metros, com você a mercê, nas mãos dele. Nacho Vigalondo cria uma obra que manifesta cada particularidade de sua carreira: a adoração pela ficção científica, pelo macabro, além do amor e a sensibilidade de sua obra, complementando-se com a insanidade de seus personagens. Mas, acima de tudo, manifesta a si próprio. Em uma batalha que sugere ser bem pessoal (travada na mente do diretor), entre id e ego, Jason Sudeikis (na atuação de sua carreira) leva a pior e sucumbe. É uma forma de Vigalondo de se livrar do que de pior possui em algum lugar de sua mente. O cinema na forma mais intimista possível.

  7. Brawl in Cell Block 99 (Idem. EUA, 2017)


    Muito do apego cinematográfico de Scorsese girava em torno da moral dentro de uma vida de crime brutal. Como se manter íntegro dentro de um lugar que só respira o caos e a sobrevivência a qualquer custo? Vince Vaughn ilustra essa personalidade como nenhum outro conseguiu em 2017. Alguém violento, que beira ao insano, mas jamais perde o controle sobre suas ações.

  8. The Double Lover (L'Amant double. França/Bélgica, 2017)


    Ozon ridiculariza nossa noção de observação, inquieta nossa perspectiva e consegue criar um ritual de manifestação de desejos e repressões calculadíssimo. Ante nossos espelhos, a vaidade é só uma das camadas; o maior reflexo é sempre o interno. O que vamos enxergar quando nos observamos por completo? Ou como nos associamos um ao outro? É como se Verhoeven encontrasse Aronofsky.

  9. Thelma (Idem. Noruega/França/Dinamarca/Suécia, 2017) 


    Em uma das cenas mais lindas do filme, Thelma experimenta o prazer numa alucinação despertada não pela droga, mas pela manifestação involuntária de tesão. A serpente que adentra seu corpo, como se o pecado estivesse se estabelecendo ali, a afasta do que sempre a reprimiu, a religiosidade. A descoberta de sua verdadeira identidade proposta pelo cineasta vincula o sobrenatural, sim, mas os elementos de horror da obra são cúmplices da natureza humana. Jamais ilógicos. Se Carrie, do De Palma, fosse feito nos dias atuais, suspeito que ele seria algo similar a Thelma.

  10. Let It Fall: Los Angeles 1982 – 1992 (Idem. EUA, 2017)


    Existem múltiplas tentativas de reconhecer contextos. Alguns dos melhores trabalhos documentais percorrem exatamente este caminho. OJ Made In America não era apenas uma cinebiografia poderosa sobre uma figura tridimensional. Era um retrato sobre como o racismo fez com que a conclusão fosse aquela. Na história, a coadjuvância se mostra poderosa. Para compreender momentos, é necessário olhar sempre por uma esfera maior. Assim como LA 92, Let It Fall imerge na compreensão sobre os riots americanos e, principalmente, o chocante caso filmado de Rodney King. Mas é ainda mais profundo.
Outros filmes que merecem menção (na ordem):

  1. Forma da Água, A (The Shape of Water. EUA, 2017)
  2. Corra! (Get Out. EUA, 2017)
  3. Bingo – O Rei das Manhãs (Idem. Brasil, 2017)
  4. Super Dark Times (Idem. EUA, 2017)
  5. Cura, A (A Cure for Wellsess. Alemanha/EUA, 2016)
  6. Psiconautas (Psiconautas, los niños olvidados. Espanha, 2015)
  7. Tomcat (Kater. Austria, 2016)
  8. Band Aid (Idem. EUA, 2017)
  9. Era o Hotel Cambridge (Idem. Brasil, 2016)
  10. LA 92 (Idem. EUA, 2017)
  11. Filme da Minha Vida, O (Idem. Brasil, 2017) / Pendular (Idem. Brasil, 2017)
  12. Além das Palavras (A Quiet Passion. Inglaterra/Bélgica, 2016)
  13. Bom Comportamento (Good Time. EUA, 2017)
  14. Lady Macbeth (Idem. Inglaterra, 2016)
  15. Todas Essas Noites Sem Dormir (Wszystkie nieprzespane noce. Polônia, 2016) 


Melhores Filmes Lançados no Brasil em 2017:

  1. mãe! (mother!. EUA, 2017)
  2. No Intenso Agora (Idem. Brasil, 2017)
  3. Martírio (Idem. Brasil, 2016)
  4. Marjorie Prime (Idem. EUA, 2017)
  5. Criada, A (Ah-ga-ssi. Coréia do Sul, 2016)
  6. Christine – Uma História Verdadeira (Christine. EUA, 2017)
  7. Thelma (Idem. Noruega/França/Dinamarca/Suécia, 2017)
  8. Quase 18 (The Edge of Seventeen. EUA, 2016)
  9. Brilho Eterno (Always Shine. EUA, 2016)
  10. Colossal (Idem. Canadá/Espanha/EUA/Coréia do Sul, 2016)

    Lista Completa: https://letterboxd.com/clickfilmes/list/os-melhores-filmes-lancados-no-brasil-em/


    OUTRAS LISTAS: 
     
     
    Melhores Filmes Nacionais Lançados em 2017:



    Melhores Documentários Lançados em 2017:



    Melhores Terrores Lançados em 2017:


     

    DIÁRIO COMPLETO DE 2017, NO LETTERBOXD, COM OS 688 FILMES QUE ASSISTI NO ANO:

    https://letterboxd.com/clickfilmes/films/diary/


    Aproveitem as festas. Até o ano que vem.

4 de agosto de 2017

Em Ritmo de Fuga

Baby Driver, Inglaterra/EUA, 2017. Direção: Edgar Wright. Roteiro: Edgar Wright. Elenco: Ansel Elgort, Jon Hamm, Jamie Foxx, Lily James, Eiza González, Jon Bernthal e Kevin Spacey. Duração: 1h52min.

A maneira como reproduzimos contextos no cinema é fascinante. Quando precisávamos criar empatia com personagens violentos, por exemplo, tratávamos de humanizá-los o mínimo que fosse para que não precisássemos acompanhar um canalha completo em sua missão nos submundos do crime. Scarface é um exemplo claro e, inclusive, citado em cursos de cinema, pois atribui algum tipo de caráter ao protagonista na primeira cena do filme, quando ele se sente acuado e fala sobre a irmã. O que você vê depois, torna-se uma ilusão narrativa, porque você passa a achar que só você, o espectador, sabe quem é o verdadeiro Tony Montana. Aquele sujeito que gosta da irmã. Ele não é completamente desumano. Há um coração. Esse é o princípio da empatia no cinema. Quando pegávamos os assaltantes sendo caracterizados como mocinhos, a exemplo de Onze Homens e um Segredo, ainda assim tínhamos uma questão imprescindível para que torcêssemos para os anti-heróis: eles roubavam cassinos, que supostamente eram gerenciados por aproveitadores e criminosos, portanto eles só estavam roubando de quem rouba.

Essa é uma das falas do personagem de Jamie Foxx, em Baby Driver (Em Ritmo de Fuga), que atiça a curiosidade para o contexto do filme de Edgar Wright. "Nós viemos pegar o que é nosso. Ele nos roubaram. E agora queremos isso de volta", Bats expõe. O pensamento de que estamos a bordo de um veículo que transgride leis, foge de autoridades, mas assalta o próprio governo, passa a nos sugerir um novo contexto para nossa empatia, onde o transgressor passa a ter nosso carinho pois também gostaríamos de estar provocando o governo em atos rebeldes e pegando um dinheiro que é desviado para outros fins que não a nossa assistência social. Assim, Wright não só brinca com esse caráter paradoxal, como também se diverte ao introduzir esses personagens no mundo de Baby Driver – Buddy, Darling, Baby, Bats, Doc e Griff.

Mostrando que também é um diretor talentosíssimo, o inglês desenvolve o plano sequência inicial com uma habilidade invejável, ao nos apresentar o nome do personagem pela primeira vez – e perceba, desta forma, como o diretor vai e volta do prédio onde Baby está, como se estivéssemos na perspectiva de um volante. Mais belo, é como Baby é apresentado para nós, pouco a pouco, sem que as nuances sejam explicadas didaticamente. Ao nos apresentar a origem de sua história com carros, por exemplo, avaliamos que o seu perfeccionismo por música e pela técnica provém da morte da mãe ao volante de um carro, enquanto ele escutava música para não ouvir as brigas dos pais. Desde então, Baby fugia. Não ligando para a morte, já que a adrenalina vinha de estar sempre perto dela e, consequentemente, perto da mãe, o protagonista se esconde atrás de dance moves e piruetas para nunca se sentir parado. E os únicos momentos que Baby confraterniza a música com alguém é para dois dos personagens mais importantes do longa: a primeira vez, Buddy (Jon Hamm, fabuloso) pega um dos fones da orelha dele para participar do momento que ele vive; no outro, Baby dá para Debora um de seus fones para ela confraternizar com ele aquele instante.


Assim, quando se torna um coadjuvante da história, um carona, Baby para de fugir. Ele entrega o volante para Debora e se rende.Uma forma de deixar claro que Wright não é um diretor que pretende apenas ser descolado. Ele é alguém que sabe exatamente o que faz.