17 de janeiro de 2020

Coringa, de Todd Phillips


Joker, EUA, 2019. Direção: Todd Phillips. Roteiro: Todd Phillips e Scott Silver. Elenco: Joaquin Phoenix, Robert DeNiro, Zazie Beetz, Frances Conroy, Brett Cullen. Duração: 2h02min.


 
Coringa não é apenas uma obra sobre um psicopata comum norte-americano. Acima de tudo — é um filme sobre o mundo que ele habita e a tênue linha que nos separa de monstros. A narrativa do diretor Todd Phillips bebe diretamente da fonte da Nova Hollywood, quando diretores como Scorsese e De Palma, saídos de um declínio social reformulador, interessaram-se por personagens solitários, corruptos e condenáveis. Pode ser considerado o Taxi Driver ou O Rei da Comédia de uma nova geração de cinéfilos. Seu convite à ilegalidade nos desafia e fascina quase na mesma intensidade. Afinal, estamos diante de uma mente antissocial, instável e criminosa, mas quase a conseguimos compreendê-la, pois temos o advento da perspectiva, que nos permite acompanhar passo a passo da decadência natural de seu personagem e do mundo ao qual pertence. É a visão de Arthur que nos envolve em Coringa, relegando para segundo plano aquela avaliação que tínhamos sobre o herói Bruce Wayne e seus pais perfeitos noutras obras. Aqui, Thomas Wayne é um neoliberal meritocrata, assim como os três magnatas brancos que assediam uma mulher num trem e que se torna o principal gatilho para o personagem-título instaurar uma onda de anarquismo na cidade de Gotham.

É perceptível a influência de nossa própria realidade no filme de Phillips. Em Taxi Driver e O Rei da Comédia, os personagens de Travis Bickle e Rupert Pupkin eram o reflexo de sua sociedade solitária, alienada e carente de amor. Coringa trabalha Arthur Fleck como uma simbiose perversa dessas características, usando a projeção como a única forma comunicativa possível. Para ser aceito, ele idealiza seu próprio mundo. É envolvente até certo ponto com o público por tentar fugir de seu comportamento violento e destrutivo. Quando Randall lhe oferece algo que possa lhe servir de gatilho, uma arma, ele nega. Observamos suas últimas tentativas de se sentir uma parte da sociedade. Ele frequenta psiquiatras estaduais, procura ter um emprego e tenta garantir algum convívio humano com sua mãe. Sua risada ressoa como um grito desesperado. Um protesto lamentoso defronte ao banal. Ele desdenha a vida em sociedade porque não a entende. Não sabe como outros conseguem sentir num mundo que não lhes sente. Os casais saem a noite, frequentam clubes, humilham uns aos outros, e Arthur analisa. Ele escreve em seu bloco acerca de comportamentos. Em outros dramas, talvez, o comportamento errático se desenvolvesse em uma grande subtrama de renascimento ou sobrevivência.

Porém, os olhos que nos encaram no camarim, na cena em que a maquiagem é tirada, já nos demonstra alguém morto. O ser humano necessita morrer para o monstro tomar conta de si. Compreende-se exatamente esse aspecto na jornada de Arthur para o vilão Coringa, no pessimismo da história de Phillips. Existe um acordo prévio de que o destino de alguém como o protagonista já está premeditado. Está devidamente estipulado. Faz parte do show. Isso não torna a história menos triste, claro. É de um sarcasmo obsceno a música principal do filme ser That’s Life (A vida é assim, numa tradução literal), de Frank Sinatra, por exemplo. Não é um mundo ingênuo e ninguém passará por ele incólume, Phillips garante.

O figurino de Coringa propõe precisamente esta faceta ao trocar as vestes sombrias e surradas do vilão de Heath Ledger (O Cavaleiro das Trevas) pelo modelo extravagante e colorido usado por Joaquin Phoenix. São condições e mundos distintos, ressalta-se. A roupa destaca tons da personalidade de Arthur — o que ele tenta colocar para fora e não sente por dentro. Do mesmo modo, a risada de ambos refletem coisas diferentes: Ledger diagnosticava um assassino frio, calculista e brilhante que se divertia com seu próprio senso de humor doentio; Phoenix usa a risada como um grito de socorro de um homem aprisionado dentro de si e que não entende do que os outros são capazes de rir.

Ao lamentar o péssimo dia que teve para uma de suas projeções, nós sentimos angústia e temor, após nos darmos conta do que ele faz ali. Ele não fala de um dia, mas de sua vida. Procura uma de suas fantasias para se consolar, porém ela lhe manda embora. Arthur não é único num mundo doente, verdade. Mas é quem abraça a doença, a sociopatia e sua fúria. Retratá-lo apenas como o “mal” seria lhe tirar a complexidade. É alguém que se ergue diante de uma multidão sedenta por subversivos — e talvez seja essa a mensagem que incomodou a crítica norte-americana muito mais do que a comunidade europeia: a ficção tão próxima de nós. Há uma veracidade incomodativa nos protestos contra as desigualdades sociais e as truculências policiais testemunhadas no filme. A obra despreza Arthur, mas também despreza o mundo que ele vive.

Numa das grandes cenas de Coringa, nós estamos num trem acompanhando três homens brancos aterrorizando uma mulher asiática, enquanto o protagonista ri desesperadamente tentando fugir daquele momento tanto quanto nós. A medida que os homens avançam, curiosos sobre a figura bizarra, as luzes piscam e o medo se instaura. É a morte que promete para Arthur controle. Noutro momento, após matar alguém, a sua maquiagem branca recém feita está coberta por sangue espirrado. Ele descansa. Olhamos atônitos. E finalmente notamos o nascimento histórico de um vilão em sua totalidade.

16 de janeiro de 2020

Os 35 filmes de terror mais esperados de 2020


35. Todos os Mortos

Marco Dutra e Caetano Gotardo (montador de As Boas Maneiras) dirigem esse obscuro filme ambientado numa São Paulo do século 18, após a abolição da escravidão, e o impacto da morte de uma ex-escrava dentro de uma família e suas gerações. A Vitrine Filme distribui.

34. Quando as Luzes se Apagam 2
 
Um dos escritores de A Chegada e Bird Box roteiriza a continuação de Quando as Luzes Se Apagam, que traz o diretor David F. Sandberg de volta e amadurecido, após ter comandado os populares Annabelle 2 e Shazam. 

33. The Crooked Man
Baseado numa lenda inglesa, é mais um spin-off do universo Wanesco, que começou em Invocação do Mal. O estreante Mike Van Waes roteiriza. Ainda sem diretor.

32. Grito, O

O ano dos reboots, o de 2020. Nicolas Pesce, do excelente The Eyes of My Mother, dirige Andrea Riseborough, Demián Bichir e Jacki Weaver na recriação de O Grito. 


31. Resident Evil

O reboot da franquia ganha um nome interessantíssimo: Johannes Roberts, de Os Estranhos – Caçada Noturna, Medo Profundo e Do Outro Lado da Porta.

30. Invocação do Mal 3
 

A conclusão da trilogia Invocação do Mal será dirigida por Michael Chaves, que é apadrinhado por James Wan. É o mesmo responsável por A Maldição da Chorona.

29. Peninsula

Sequência direta do aclamado filme coreano de zumbis, Trem para Busan, quatro anos após os eventos do filme. Dirigido, claro, por Yeon Sang-ho, o realizador do primeiro filme.

28. Kandisha

Os franceses Julien Maury e Alexandre Bustillo, os diretores de Inside e Livid, se voltam para uma trama sobre uma entidade marroquina chamada Kandisha, a qual é invocada por três jovens. Após a brincadeira, a vida das três muda por completo. Maury e Bustillo também escreveram o roteiro.

27. The Hunt

Doze estranhos acordam em uma clareira. Eles não sabem onde estão ou como chegaram lá. Eles não sabem que foram escolhidos para serem caçados. Do diretor do perturbador Compliance.


26. Gretel e Hansel

O diretor de I Am the Pretty Thing That Lives in the House e February está envolvido em dois terrores esse ano, mas certamente o mais esperado deles é Gretel & Hansel, uma fábula na qual uma jovem e seu irmão, enquanto procuram comida e trabalho para ajudar em casa, se deparam com uma assustadora casa em um escuro bosque. 


25. O Porão da Rua do Grito

Filme brasileiro de terror dirigido por Sabrina Tozatti Greve, atriz que já trabalhou com Juliana Rojas, aborda um obsessivo relacionamento de dois irmãos que moram na Rua do Grito. Assombrados pela morte de seus pais, eles passam a ficar cada vez mais próximos e reclusos. Rebeca é a primeira a tentar buscar independência, algo que Jonas não permitirá que ocorra.

24. Feed

A reimaginação da franquia Jogos Mortais com Chris Rock e Samuel L. Jackson. Escrito por Rock.

23. The Invisible Man

O diretor Leigh Whannell, de Sobrenatural Capítulo 3 e do excelente Upgrade, segue a história de Cecilia, que recebe a notícia do suicídio do ex-namorado abusivo, mas, aos poucos, ela percebe que ele pode não estar realmente morto. Adaptação da famosa história de H.G. Wells.


22. Possessor

De Brandon Cronenberg, o filme é descrito como uma ficção assustadora e existencialista passada em um futuro próximo. É sobre uma organização secreta que usa tecnologia de implantes para permitir que outras pessoas possam realizar assassinatos por encomenda.

21. Witchfinder

John Hilcoat (Triplo 9 e A Estrada) dirige a história sobre um caçador de bruxas da vida real, Matthew Hopkins, durante a Guerra Civil Inglesa em 1645. Produzido por Nicolas Refn
 
20. Contos de Lama

No início dos anos 90, Gustavo, um adolescente pobre, sonha em fazer um filme de terror na vila de pescadores em que mora. Ele enfrenta as dificuldades da vida com muita criatividade e com a ajuda de seus bons amigos. Juntos, eles querem capturar as histórias contadas na região e transformá-las em filmes, sem saber que essas criaturas podem existir além da imaginação e colocar suas vidas em perigo. Dirigido pelo nome do terror brasileiro mais relevante da atualidade, Rodrigo Aragão.

19. The Turning

A diretora de The Runnaways, Floria Sigismondi, dá o seu próprio tom ao romance A Volta do Parafuso, de Henry James. Estrelado pela sempre interessante Mackenzie Davis.




18. Sobrenatural: Reino Sombrio

Isso mesmo! Nós teremos dois filmes do melhor cineasta de horror da atualidade no mesmo ano. James Wan volta para a franquia de Sobrenatural para dar ainda mais abrangência ao mundo que vimos pela primeira vez em 2011. Na sinopse do novo filme, uma entidade demoníaca tenta desencadear o caos no mundo dos vivos.

17. Freak Shit

“Em uma cidade em que monstros perigosos emergem do subsolo todas as noites, uma equipe perita no extermínio de monstros é incumbida de encontrá-los e matá-los antes que encontrem os habitantes da cidade”. É com essa sinopse que Ben Wheatley (Kill List, High Rise), um dos diretores mais talentosos da atualidade, crava Freak Shit como um dos terrores mais aguardados da temporada. O roteiro é dele e da parceira habitual, Amy Jump.

16. Relic

Gerações de uma família são assombradas por uma manifestação de demência que consome a casa delas e suas respectivas sanidades. Dirigido por Natalie Erika James e com Bella Heathcote, Emily Mortimer e Robyn Nevin no elenco. 

15. Labirintus

O novo filme de ninguém menos que Joe Dante (Gremlins). Um investigador paranormal, um pesquisador psiquiátrico e um engenheiro unem forças para explorar um centro de pesquisa soviético subterrâneo abandonado, o qual está escondido dentro de catacumbas sob o Castelo de Buda. 

14. Halloween Kills
Em 2018, David Gordon Green não apenas ressuscitou a franquia de Michael Meyers, como também deu uma nova roupagem ao slasher. Um dos terrores mais subestimados da década ganhará uma continuação com o mesmo diretor e o mesmo elenco em 2020. Já foi inclusive confirmado o fechamento da trilogia para 2021, com Halloween Ends.

13. Candyman

É uma quantidade expressiva de reboots e remakes em 2020. Nenhum deles, entretanto, parece tão interessante quanto essa recriação de Candyman, que conta com o dedo de Jordan Peele como produtor e o da talentosa Nia DaCosta como diretora.

12. Antlers

Produzido por Guillermo del Toro, Antlers é sobre um pequeno jovem que vive alimentando seu pai e seu irmão até que algo foge do controle e ele conta o segredo de sua família para uma preocupada professora. O trailer fabulesco é realmente impactante.



11. There's Someone Inside Your House

Patrick Brice (Creep) comanda um slasher baseado na obra da escritora Stephanie Perkins sobre uma jovem que está ainda em processo de adaptação à sua nova cidade quando alunos de sua escola começam a morrer em uma série de assassinatos, algo que lhe desperta lembranças do passado. Chegará ao Netflix com a produção de... James Wan.

10. Maniac Cop

Se há uma aposta para um filme violento em 2020, essa é certeira. Dirigido por Nicolas Refn (Drive e O Demônio de Neon) e John Hyams (Soldado Universal 4), a história acompanha um policial que retorna dos mortos para continuar patrulhando as ruas de Nova York – de sua própria e sanguinária forma.

9. Antebellum

A ótima Janelle Monáe interpreta uma escritora de sucesso se vê presa numa realidade na qual não tem controle. Com Jena Malone, é uma das apostas da Lionsgate, em 2020.


8. Last Night in Soho

Edgar Wright (Baby Driver e Todo Mundo Quase Morto) dirige um novo filme de terror, após 16 anos. Inspirado em Inverno de Sangue em Veneza e Repulsa ao Sexo, acompanhará uma jovem que se sente nostálgica com os anos 60 até se descobrir inserida numa trama assustadora. "O passado pode não ser agradável, se você não o conhece completamente", diz Wright. O elenco tem "simplesmente" Anya Taylor-Joy, Matt Smith, Thomasin McKenzie, Terence Stamp e Diana Rigg.

7. The Banishing

Conta a história da casa mais assombrada da Inglaterra. Na década de 1930, um jovem reverendo, sua esposa e filha se mudam para a mansão. Quem é o diretor? Christopher Smith, do genial Triângulo do Medo. Seu retorno ao terror.

6. The Night House

O jovem David Bruckner fez uma estrondosa fama com O Ritual, no ano passado, um filme que lidava com as consequências do passado na vida de seus personagens. Esse é o mesmo caminho que parece querer abordar no seu segundo longa-metragem solo (ele participa das antologias VHS e Southbound), que conta com a fantástica Rebecca Hall interpretando uma viúva que se depara com o passado perturbador de seu falecido marido. Produzido pelo mesmo estúdio de O Nascimento de Uma Nação, de Nate Parker.

5. False Positive


O mesmo estúdio de Midsommar, A Bruxa, O Farol e Ao Cair da Noite, a A24, volta aos cinemas em 2020. Dirigido por John Lee, que já trabalhou com uma das protagonistas, (a ótima) Ilana Glazer na série Broad City, pouco se sabe sobre a história de False Positive, a não ser que é vista com uma atualização de O Bebê de Rosemary.  Mas precisa mais? Se manter o padrão de qualidade da A24, a expectativa é altíssima.

4. I'm Thinking of Ending Things

Filme de terror dirigido por Charlie Kaufman (Anomalisa, Quero Ser John Malkovich, Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças) sobre um casal que percebe a fragilidade de quem são diante de uma viagem que termina em tragédia. Produzido para o Netflix.

3. O Cemitério das Almas Perdidas



Rodrigo Aragão, um dos melhores nomes de nosso cinema, dirige seu grande épico de terror.

2. The Devil All The Time

De Antonio Campos (do brilhante Christine) e estrelado por Tom Holland, Bill Skarsgard, Sebastian Stan, Robert Pattinson, Jason Clarke, Riley Keough e Mia Wasikowska, o filme narra as sequelas psicológicas da segunda guerra mundial, no sul de Ohio, na década de 1960. Aposto minhas fichas nesse.

1. Malignant
 
Do melhor diretor de terror da atualidade, James Wan (Invocação do Mal), um paciente com câncer terminal descobre que, na verdade, o que possui dentro de si não é um tumor, mas, sim, um alien. Aos poucos, percebe que existe uma sociedade extraterrestre inteira se cultivando por meio de supostos tumores e doenças terminais. É baseada numa graphic novel escrita pelo próprio diretor em 2011.

30 de dezembro de 2019

Os 25 Melhores Filmes de 2019

Nenhuma lista é um consenso. São atestados de um momento, de um contexto, de um ano ou às vezes da própria personalidade do crítico. Listas de melhores filmes/livros/música podem e devem ser diferentes umas das outras – ou qual seria a graça se todos concordassem em tudo? Listas, acima de tudo, necessitam ser argumentativas. A arte pode e deve ser embasada. A paixão pode andar de mãos dadas com a racionalidade, afinal. Listas indicam, sintetizam e permitem a nostalgia, a retrospectiva açucarada ou a reação inflamada. Mas, principalmente, listas destacam: uma grande atuação, um grande filme, um grande diretor, uma grande sequência. Listas de melhores do ano são divertidas por nos colocar diante do passado com reverência e apontar o que de melhor chegou a nós no mundo das artes.

Para mim, o melhor do cinema de 2019 é representado pelos 25 filmes a seguir:

25. Dois Papas, de Fernando Meirelles 


Meirelles tem o controle soberano sobre um filme de amor e comunhão num momento caótico- provavelmente, o mundo que enxerga. Jonathan Pryce é inesquecível, assim como sua personificação de um homem que escolhe não fugir de seu passado.

24. Professor Substituto, de Sébastien Marnier 


"O medo é contagioso". Um retrato assustador sobre a passagem do conhecimento, da promessa para frustração, da juventude para a fase adulta, numa ótica que flerta com horrores psicológicos como Os Inocentes.

23. Coringa, de Todd Phillips 


Coringa combina algumas das apropriações mais interessantes do terror a partir dos anos 60, quando a estrutura do gênero começou a se aprofundar mais no tom desafiador que gerava se debruçar num psicopata, como A Tortura do Medo. Arthur provém de um mundo alarmante e Philips constrói o caos em cima desta personalidade, onde a gentileza é uma fantasia.

22. Piranhas, de Claudio Giovannesi 


Existe uma decisão de Claudio Giovannesi que orienta o espectador por sua principal intenção narrativa (e a mais profunda): deixar-nos próximos de Nicola. Ao enquadrar seu protagonista sempre absoluto, o diretor nos imerge no ponto de vista de Nicola - fazendo com que cada sensação nova seja identificada pelo público com naturalidade: de seu entusiasmo até a sua ingenuidade. Compreendemos tristemente, afinal, o caminho daqueles adolescentes sedentos em querer fazer parte de um sistema tóxico, em querer se sentir abraçados por todos, em querer admiração social, dinheiro, sexo e poder. Giovannesi troca os likes da internet pela rua ao tratar sobre a juventude, porém faz com que um filme acerca de gangues ainda consiga se manter atemporal e profundo.

21. Synonyms, de Nadav Lapid 


É comovente a maneira com a qual o personagem do ótimo Tom Mercier tenta se impor sobre seu próprio destino, sem perceber que o controle nunca estará ao seu alcance. Navad Lapid transita por momentos românticos, obscenos e outros de crise, de desespero e de solidão profunda, onde ninguém está lhe ouvindo. É um testemunho eficiente sobre a vida e a nossa identidade. Sobre a liberdade e o que nos reprime. Sobre pertencer e não pertencer, na mesma intensidade, neste mundo.

20. Irlandês, de Martin Scorsese


Aos 77 anos, Scorsese passa a querer compreender um pouco mais da proximidade da morte natural como penitência. Há uma pergunta que parece invadir O Irlandês sem que nunca seja realmente enunciada: “o que sobra para quem vive demais?“.

19. Mike Wallace Está Aqui, de Avi Belkin


Por meio de uma poderosa montagem visual e sonora, o documentário de Avi Belkin deixa claro o tipo de jornalista que Mike Wallace era sem que precise apontar ao espectador e dizer - olhem só, vejam isso. Humano como poucos, Mike se misturava com a gana social por respostas claras para grandes questões, equilibrando-se entre o ousado, o atrevido e o consciente. Acima de tudo, o filme nos evidencia o caráter que separa Wallace de outros tantos imitadores condenáveis - sua empatia e a sua paixão pela verdade.

18. Loucuras de Rose, de Tom Harper 


Quando Ashley McBryde canta Girl Going Nowhere, numa cena extremamente delicada de Wild Rose, ela não está ecoando apenas a sua voz, mas marcando na sua música uma geração inteira. Uma geração inteira de jovens compositoras que percorrem mundos nefastos para chegar até um palco e serem capazes de reproduzir seus versos para milhares de pessoas. As luzes se apagam e lá está - a artista, o violão e a sua música. Uma das poucas coisas da vida que pode chamar de sua. Aquele simples instante nos demonstra a força de uma artista e da arte na nossa personagem-título, a qual entende (aos poucos) que todos têm sua própria história e sua própria casa. Todos possuem sua própria mensagem. O caminho é doloroso, competitivo, solitário e profundo, como uma boa música country.

17. Vida Invisível, de Karim Aïnouz


A principal pergunta de Karim Aïnouz corresponde a: “de quantas lacunas uma história precisa?“. Qual a diferença entre o que previmos, o que realizamos, o que idealizamos e o que é real? A Vida Invisível é justamente sobre uma vida que não se fala, uma vida desigual, ainda que, ironicamente, tão comum. O resumo da obra do cineasta cearense é que a vida nunca sairá como imaginamos. São as lacunas, entretanto, que carregam a força do filme – as famosas entrelinhas – e, por que não, da bagagem de cada um de nós.

16. Beach Bum, de Harmony Korine


Matthew McConaughey em um daqueles papéis que um grande ator se depara apenas uma vez na vida. Muito além do nonsense e da graça, Moondog traz profundidade, sensibilidade e humanidade, em The Beach Bum – talvez meu filme favorito do Harmony Korine. Ainda não estreou no Brasil.

15. Não Mexa Com Ela, de Michal Aviad


Liron Ben-Shlush é soberba na pele de uma mulher trabalhadora que é abusada pelo chefe Benny (Menashe Noy). A obra da diretora Michal Aviad é cruel e crua na medida, conseguindo deixar o espectador impotente diante dos avanços constantes de Benny e alerta à nossa própria realidade.

14. Mustang, de Laure de Clermont-Tonnerre


Laure de Clermont-Tonnerre cria um testemunho poderosíssimo sobre a ressocialização de um preso, o qual alia um mundo de selvageria e violência com o de comunhão, de humanização e de claras vicissitudes. A transformação de Roman não vem por caráter punitivo ou clichê, mas com a autorreflexão da importância de se sentir parte de algo, de voltar a sonhar, de se sentir novamente valorizado. Há um valor documental na obra de Laure. O cavalo selvagem jamais soa uma analogia simples e óbvia. A diretora é capaz de evidenciar a impotência diante de nossa condição contextual com a mesma naturalidade do gatilho que provoca o desejo de amor ou de vingança.

13. Jojo Rabbit, de Taika Waititi


- Hora de queimar alguns livros!

- Yeaaaahhhh!

Surpreendente, debochado e ousado, Jojo Rabbit inicia com uma hilariante apresentação de seu personagem-título (o incrível Roman Griffin Davis), cujo amigo imaginário é nada mais nada menos que Adolf Hitler, na frente de um espelho, sinalizando afinal o que a vida na França espera dele naquele momento. Depois de um rápido "aprendizado" em um campo escoteiro nazista, onde ganha o apelido "Rabbit", Jojo fabula sobre um mundo que não existe, enquanto as projeções aleatórias e surreais dos coadjuvantes evidenciam as humilhações impagáveis de um período absurdo da história do mundo expostas por Taika Waititi. Há algo bizarro, estúpido, debilitante e juvenil no preconceito, afinal. Estreará comercialmente em janeiro de 2020.

12. Dor e Glória, de Pedro Almodóvar


Salvador Mallo (Banderas) é um homem que não pertence ao presente. Perdido entre seu sentimento de não pertencer ao mundo que vive e os flashes de sua memória que insistem em se confundir com sua realidade, ele se entorpece com pequenas doses diárias de medicamentos. Procura abraçar seu passado, inclusive perdoando narrativas que havia superado, na mesma intenção de projetar um futuro que possa fazer parte. A procura de Salvador acaba encontrando o símbolo máximo do artista: como se respira? Deixando o nosso pensamento sair para telas, passear por letras e encontrar nossos destinatários, é o que raciocina.

11 Bacurau, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles


A decadência da humanidade na visão de Kleber e Juliano encontra uma alta dosagem de John Carpenter e Glauber Rocha. Bacurau é quase um faroeste nordestino que reside na tênue linha entre passado, presente e futuro. Tudo é complementar. Tudo é orgânico. Tudo é fundamentado em porquês. É um testemunho poderosíssimo sobre a recente ira que incendeia o mundo e no que isso pode nos transformar.

10. Ford V Ferrari, de James Mangold


Uma das repetições mais inteligentes presentes no filme de James Mangold, Ford V Ferrari, é o silêncio. Ele é absorvido pelo público em situações diferentes, por homens distintos, vivendo vidas distintas. Porém, de alguma maneira, todos os personagens refletem sobre a mesma pergunta levantada ao início e ao final do longa-metragem: "quem é você?". A obsessão em Ford V Ferrari pela vitória pode garantir diferentes respostas.

9. Uncut Gems, de Josh e Ben Safdie


Impulsivo, barulhento e naturalmente brutal, Uncut Gems – a obra nada sutil de Josh e Benny Safdie – expõe um mundo capitalista violento e nocivo, onde para se vencer, na visão de Howard Ratner (Adam Sandler, brilhante), é necessário ser rotineiramente ardiloso e estar disposto a apostar tudo.

8. Uma Vida Oculta, de Terrence Malick 


"Eu tenho esse sentimento dentro de mim que não permite fazer algo que eu não ache certo". A ótica humanista sobre a guerra, de Malick, retrata uma batalha ridícula, opressora e debilitadora ao invés do caráter vil, entusiasta e de entretenimento violento que se vê rotineiramente. Numa determinada cena, dois homens se reconhecem e se abraçam entre algemas por não compactuar com a morte de inocentes. A caminhada pela peregrinação humana sobre a violência vai numa interessante valorização do ritmo, da comunhão e da paz campestre que jamais entende o fascínio pela morte de outras pessoas. É uma obra sobre uma paz interna que não existe no mundo externo. Ainda não estreou no Brasil.

7. Retrato de Uma Jovem em Chamas, de Céline Sciamma 

 
A intensidade de certas histórias de amor nos arruínam quase na mesma intensidade com que nos amadurecem. A única certeza que temos é a lembrança boa de termos vivido o que vivemos e, com a arte, sermos recordados aqui e ali que já fomos felizes - é isto que sintetiza a relação de Marianne (Noémie Merlant) e Héloïse (Adèle Haenel), na França do século XVIII, e que permanece tão palpável ao jovem do século XXI. Estreia em janeiro.

6. Farol, de Robert Eggers



A primeira imagem do novo filme de Robert Eggers, do aclamado A Bruxa, é um grandioso farol, em uma ilha afastada, que direciona os dois pescadores Thomas Wake (Williem Dafoe) e Ephraim Winslow (Robert Pattinson) até seu acesso. A metáfora do norte-americano sobre a vida e a morte é encaminhada neste princípio: o que nos traz e o que nos leva? O que está entre o início e o fim? A luz. Estreia em janeiro.

5. Dragged Across Concrete, de S. Craig Zahler

 
Um mundo melancólico carregado de pessoas depressivas, instáveis e caóticas. S. Craig Zahler segue sua visão pessimista sobre a violência aleatória em nossa sociedade e a tênue linha que nos separa de monstros. Ainda não estreou no Brasil.

4. Feliz Ano Novo para Colin Burstead, de Ben Wheatley


"Eu iria escrever uma nota de suicídio no meu celular, mas ele estava ficando sem bateria".

A disfuncionalidade da família britânica combinada ao Brexit fornece o tom do novo filme de Ben Wheatley, o qual - arrisco a dizer - é um dos melhores diretores da atualidade. Claramente influenciado por Robert Altman e seu Cerimônia de Casamento, Happy New Year, Colin Burstead é sobre aceitação, diferentes tipos de ansiedades e a experiência familiar completa. Como lidamos com nossas diferenças? Ou como lidamos com nossas apropriações, frustrações e como tentamos deixar tudo perfeito, sem interferências emocionais? Com uma trilha sonora arrebatadora do genial Clint Mansell, o que não é dito pela família Burstead pode soar ainda poderoso do que o explícito. É uma viagem completa e provocadora sobre nossas próprias festas em famílias e o que se espera de nós como filho, como sobrinho, como neto, como irmão e como humano. Ainda não estreou no Brasil.

3. Para Sama, de Waad al-Kateab e Edward Watts


A primeira cena deste documentário traz Waad al-Kateab ouvindo o choro de sua filha num hospital enquanto grava o barulho de bombas e a fumaça do gás lacrimogêneo que faz com que todos procurem abrigo no subsolo. Enquanto nossa protagonista procura sua filha, um recém-nascido passa por sua câmera sendo carregado, amolecido, por um enfermeiro. Esse é o chocante início de For Sama, um testemunho intimista sobre a guerra na Síria e sobre nossa fagulha de amor num mundo opressivo. Waad al-Kateab jamais poupa o espectador da realidade do cerco em Alepo, tampouco o quanto afeta aquelas pessoas – desde o impactante nascimento de um bebê no mundo de guerra até uma criança contando que sente falta dos amigos mortos

2. Histórias de um Casamento, de Noah Baumbach


Noah Baumbach constrói um termômetro magnífico sobre as transformações de um relacionamento e as conseqüências para a criança que catalisa as emoções da história. Os enquadramentos fascinam por evidenciar uma lógica visual estimulante, na qual observamos a personalidade de cada um através de pequenos detalhes como um quadro ou uma parede vazia. A força das atuações de Scarlett e Driver acrescentam genuinidade para a história proposta por Baumbach, que se concentra em não apontar culpados, mas as falhas do processo.

1. Midsommar - O Mal Não Espera a Noite, de Ari Aster


O novo filme de Ari Aster, Midsommar, basicamente sintetiza o horror moderno como uma ode ao estranhamento. Com a rica evolução do gênero através dos anos, o medo passou a ser muito mais uma associação simbólica de angústia e perturbação do que a literalidade de um monstro ou, diria também, do próprio satã. O diabo moderno não se mostra, mas se sugestiona. E perturba. Midsommar entende seu papel, ao observar a morte, o suicídio e o controle como formas culturais. Qual a nossa barreira, afinal, diante de outra sociedade? Quão volúvel é a moral? Ou, melhor, o nosso senso de decência? São indagações que fascinam durante a peregrinação pelo mundo desafiador de Ari Aster. É meu filme favorito de 2019.