20 de agosto de 2015

Retorno a Ítaca, O

Retour à Ithaque, França/Bélgica, 2014. Direção: Laurent Cantet. Roteiro: Laurent Cantet, Leonardo Padura, Lucia Lopez Coll. Elenco: Isabel Santos, Jorge Perugorría, Fernando Hechevarria, Néstor Jiménez, Pedro Júlio Diaz Ferran. Duração: 95 minutos.

É difícil não se sentir fisgado pela proposta narrativa do interessante Laurent Cantet, em O Retorno a Ítaca. Conferindo uma pessoalidade tão forte aos seus personagens que as discussões acaloradas parecem como aquelas em que sentimos amigos se exaltar em mesa de bar, os amigos dançam, divertem-se, refletem, criticam e amam – sem ordem pré-estabelecida. Claro que o cineasta sintetiza a evolução da conversa numa linha crescente, mostrando que da chegada de Amadeo em Havana até o sol nascer muito se desenvolve em dissabores e amarguras, mas sem que para isso deixe a sensibilidade de lado.
E é sempre muito bem humorada e inteligente, a forma como Cantet discute família, sociedade, casa e amizades. A própria inserção de Eddie, como o alívio cômico que tenta mudar os assuntos para evitar grandes conflitos, mas que também traz o seu, indica essa natureza. Sendo honesto com sua proposta, afinal, sem se interessar em grandes pontos de virada, a leveza do filme acaba influenciando ao seu favor, e faz com que nos importemos com o teor das conversas entre Amadeo, Eddie, Tanía, Rafa, Aldo.
Cantet é um diretor que extrai muito do pouco. E aqui prova mais uma vez este talento.

18 de agosto de 2015

Obra

Idem, Brasil, 2014. Direção: Gregório Graziosi. Roteiro: Gregório Graziosi e Paolo Gregori. Elenco: Irandhir Santos, Júlio Andrade, Lola Peploe. Duração: 80 minutos. 

Concentrando todas as suas atenções num homem atormentado pelos pecados do avô, Obra é um longa-metragem instável que simula uma sensibilidade apenas pelo comprometimento físico e narrativo do talentosíssimo Irandhir Santos. Ofuscando uma dramaturgia pobre, onde os personagens se acusam como se estivessem numa novela das 9 (“como você dorme durante a noite?”), o filme de Graziosi apenas se sustenta na luta de João Carlos quanto ao seu corpo e consciência. E é interessantíssimo como os dois se interligam aos poucos na trama, como indica o começo da manhã do protagonista em três oportunidades: a primeira, após uma transa com duas mulheres; a segunda, acordando para um alongamento em casa, com o corpo já dolorido; a terceira, a demora angustiante ao colocar a roupa para o trabalho.


O paralelo entre vida profissional e pessoal, assim sendo, é suficientemente competente pelo drama vivido por um inspirado Irandhir Santos, noutra grande atuação. Avalie, igualmente, que podemos notar grandes problemas na família sem precisar adivinhar: o casal falando outra língua um com o outro ou a falta de respostas. Da mesma forma, o arquiteto fala em legado às vésperas do nascimento do filho como se levasse o mundo nas costas, uma simbologia bacana, mas que escorrega no ritmo proposto.

É um filme superficial, afinal, onde os prédios se sobrepondo a figura humana carrega um reflexo para a linha narrativa.



14 de agosto de 2015

Escolha Perfeita 2, A

Pitch Perfect 2, EUA, 2015. Direção: Elizabeth Banks. Roteiro: Kay Cannon. Elenco: Anna Kendrick, Rebel Wilson, Hailee Steinfeld, Brittany Snow, Skylar Astin, Adam DeVine, Katey Sagal, Ben Platt, Anna Camp, Alexis Knapp, Birgitte Hjort Sorensen, Flula Borg, John Michael Higgins, Elizabeth Banks. Duração: 115 minutos.

Fugindo ligeiramente da temática de séries e filmes como Glee e High School Music, A Escolha Perfeita 2, que estreia nesta quinta-feira, 13, preocupa-se com a maturidade de sua narrativa. Após apresentar as Bellas e como o seu domínio mundial começou, o filme de Elizabeth Banks explora as consequências do sucesso, as expectativas e, claro, o amadurecimento do grupo. A princípio, tudo é maior, mais exagerado e explosivo; algo que se espera de uma continuação. Entretanto, isto é evidenciado apenas para, aos poucos, percebemos que a fragilidade, ingenuidade e simplicidade eram exatamente as vocações do filme original, que sugeria a primeira conversa entre Beca (Anna Kendrick) e Chloe (Brittany Snow) em um chuveiro, num desnude das intenções de ambas, por exemplo.

Na continuação, a personagem de Kendrick continua como o elo de ligação entre a realidade das Belas e a do mundo. A sobrecarga da personagem é cada vez mais explícita, entre sua tentativa de embarcar no mundo dos produtores e seus mashups colegiais. Ela detém a maturidade do longa-metragem, ao passo que (a ótima atriz) Hailee Steinfeld surge como a novidade. As meninas e seus interesses futuros são donos de nossa atenção. Os personagens masculinos do original ficam como coadjuvantes. Não à toa, a música final das Belas apontam para o fato: as mulheres dominam. Suas inseguranças, seus desejos, tudo é eficientemente dirigido por Banks, que parece cada vez mais confortável em lidar com resoluções da juventude. Não nos distancia por completo do primeiro filme, como nos mostra a batalha entre acapellas, mas aprofunda o medo de lidar com o amanhã. Algo que as garotas perceberam ser inevitável. 

*Originalmente publicada no Diário Catarinense

3 de agosto de 2015

A Forca

The Gallows, EUA, 2015. Direção: Travis Cluff e Chris Lofing. Roteiro: Travis Cluff e Chris Lofing. Elenco: Reese Mishler, Pfeifer Brown, Ryan Shoos e Cassidy Gifford. Duração: 81 min.

Ao falar de A Forca, o crítico Márcio Sallem, do Em Cartaz, levantou uma questão que interessa o espectador, discorrendo acerca dos subgêneros que o filme se encaixa. Mockumentary ou Found Footage? Slasher? A princípio, a teoria do maranhense é a de que por envolver um assassino serial de jovens estúpidos que mata aleatoriamente e num ambiente que capta sua angústia (como Elm Street, no caso de Freddy; Crystal Lake, no de Jason; a pacata  Woodsboro, em Pânico), a peça teatral, os assassinatos dos alunos do famoso colégio que marcou o acidente de Charlie estariam implícitos numa conhecida estrutura. Mas a teoria do slasher não se adapta ao sobrenatural, em sua totalidade, como algumas cenas demarcam. Você pode ter um monstro que lhe ataca nos sonhos ou imortal ou invencível, mas eles não usarão adventos sobrenaturais para matar as pessoas que querem; sim, contarão com a estupidez para levá-las até o lugar em que eles necessitam que elas estejam. E, com esta filosofia, algumas cenas desvinculam o filme do subgênero: a chegada dos policiais na residência de uma garota (que, ironicamente, é a melhor do filme), a falta da final girl e, claro, as mortes.

Isto, infelizmente, é o único debate que um filme como A Forca poderá suscitar, já que, embora provenha de uma jogada de marketing incrível, a estrutura do found footage careça de boas ideias. Elas existem, mas são poucas. Nesta perspectiva, por mais embaraçoso que seja o roteiro de Travis Cluff e Chris Lofing, quando ambos conseguem usar o susto ao seu favor e não apenas como um artifício gratuito de roteiro, o filme consegue sair do chão. Se o momento genuinamente assustador é a sugestiva cena final, não dá para deixar de aplaudir as quebras de expectativas em cenas como a da estática da televisão num quarto do teatro. É uma pena, portanto, que os diretores insistam na teoria de que o horror provém do número de sustos: assim, a cena em que um jovem deixa sua câmera filmando apenas para assustar o espectador é vergonhosamente explícita.

Igualmente, a montagem concebida não consegue se encaixar perfeitamente no subgênero do found footage, o qual supostamente estaria inserido. E basta observar o tom linear, a troca simultânea de câmeras e a linguagem que tenta traduzir esse curto espaço de tempo entre as ações. Nada seria produzido; frutos da ação. Os dizeres "fitas encontradas" não se encaixariam em perspectiva alguma: policial ou não. Da mesma forma, é hilário aceitar as decisões da trupe que invade o colégio ou que depois de passar anos e mais anos por uma foto fúnebre, só agora, um garoto perceba a presença do pai. Sem deixar de citar os maravilhosos momentos de convivência com Ryan, que julgo ser um dos protagonistas mais abomináveis que o subgênero já tenha presenciado: machista, homofóbico, manipulador, estúpido, controlador e praticante de crimes de ódio, ou seja, uma figura perfeita para criarmos empatia. Não!?

Contrariando aspectos mais básicos de estrutura (como a mulher que só senta num lugar do teatro, mas bate palmas noutro lugar, pois era preciso valorizar a sua presença), o máximo que A Forca consegue expor é o quão importa um mínimo de desenvolvimento humano para superar qualquer desgaste. Ainda provando que os mais pontuais sustos não equivalem ao puro terror. 

17 de junho de 2015

Poltergeist: O Fenômeno

Poltergeist, Canadá /EUA, 2015. Diretor: Gil Kenan. Roteiro: David Lindsay-Abaire, baseado na história desenvolvida por Steven Spielberg. Elenco: Sam Rockwell, Rosemarie DeWitt, Kennedi Clements, Saxon Sharbino, Kyle Catlett, Jane Adams, Susan Heyward, Jared Harris. Duração: 93 minutos.   
 
O fenômeno de Poltergeist na década de 80, com o perdão do trocadilho, explica-se pela difusão de grande parte da temática "macabramente açucarada" dos anos 80. Afinal, não há muitas novidades no filme de Tobe “Spielberg” Hooper (e não há como não brincar com a mão pesada do produtor, neste caso). As inovações são escassas porque a época em que o original está inserido não é de inovação, mas de popularização. Não é surpreendente, portanto, que seu remake não tenha grandes novidades, pois não é o que se espera, certamente; o problema é sua total falta de comprometimento com a trama ou "autenticidade" dramática, algo que faz com que a obra se torne extremamente pedestre e gratuita.
Se a família Freeling era legítima por nos inserir de forma tão genuína na trama, onde podíamos sentir cada novo ato de repressão contra seus personagens - desde um brinquedo infantil atormentando uma criança até as "assustadoras" vibrações das árvores e sons de trovão -; aqui, no remake, a atenção superficial que o diretor possui com seus personagens fica escancarado: a adolescente rebelde, cujo papel na trama é quase inexistente, o menino assustado que despertará dúvidas quanto ao seu julgamento do que é ilusão ou não, além dos pais inexpressivos. Sam Rockwell, por exemplo, difere do pai criado por Craig T. Nelson que foi envolvido numa conspiração que desconhecia e faz tudo para proteger sua família. Eric Bowen é um desempregado que faz de tudo para conseguir voltar a se sustentar, e por consequência ser o pai e marido que sua família espera dele. O seu jeito brincalhão não funciona, contrariando-o e fazendo com que soe exatamente como alguém desesperado por atenção.
E isso não é algo bem sucedido por ator ou roteiro. Rockwell parece (pela primeira vez num papel, pelo que me lembre) desconfortável. Entra no piloto automático que o filme estabelece. O mesmo pode se dizer de Jared Harris, que, ao contrário da personagem Beatrice Straight, soa como um charlatão de quinta categoria - não fugindo nada do estereótipo tão ironizado por David Tennant no remake do regular A Hora do Espanto, o filme que Poltergeist mais parece se inspirar. Em compensação, criando sequências diabólicas risíveis (como aquela em que as árvores entram no quarto do garoto), o filme carece da graça, encanto ou tensão do original. Observe, por exemplo, o primeiro contato dos paranormais com a família: o roteiro tenta jogar uma desconfiança que nunca é aprofundada (se aquilo é ou não é uma fraude) e uma cadeira voando num quarto não possui o mesmo impacto do quarto magnético anterior.
Na verdade, Poltergeist não funcionaria nem como um exemplar de gênero "scary housed", já que ele se autoironiza quando deveria ser dramático: e não dá para defender a sequência "espirituosa" da família fugindo ao entrar noutra casa parecida. É um produto arbitrário feito para lucrar com um nome conhecido. Ausente de qualquer emoção ou tensão, é um filme que certamente assombrará Gil Kenan pelos próximos meses. Mas pelos motivos errados.