12 de maio de 2012

Filha do Mal


 
The Devil Inside, EUA, 2012. Direção: William Brent Bell. Roteiro: William Brent Bell e Matthew Peterman. Elenco: Fernanda Andrade, Simon Quarterman, Evan Helmuth, Ionut Grama, Suzan Crowley e Bonnie Morgan. Duração: 83 minutos.

Consigo imaginar uma reunião entre os envolvidos de “Filha do Mal”. Todos em um bar, final de um expediente exaustivo, depois de uma semana longa, decidem tomar umas taças a mais. Lá pelas tantas, o mais novo do grupo e provavelmente o que quer ser o mais descolado dali (o qual chamaremos de Bell) levanta a hipótese daquelas pessoas gravarem um longa-metragem com a câmera que havia acabado de ganhar de algum familiar. Qual seria o tema? Como cada um participaria? Quanto renderia? Como iríamos bancar? Provavelmente as perguntas começaram a surgir no momento em que Bell sugeriu isso, mas nunca num tom sério, aliás, suspeito que todos falavam às gargalhadas cenas que eram pensadas ali na mesa.

Todavia, Bell foi para sua casa com a mente martelando nas inúmeras possibilidades que seus colegas haviam levantado até então e as engavetou em uma parte de seu cérebro. A gota d'água veio quando o jovem diretor, e é apenas uma divagação minha, viu pela primeira vez a trilogia "Atividade Paranormal", como todo jovem com um sonho e uma câmera na mão, pensou: “o quanto deve ser difícil fazer algo assim?”. A resposta, infelizmente, veio para nós agora, em 2012, quando nos deparamos com seu filme “Filha do Mal”.

Sim, seria de se estranhar que mesmo com os gêneros mockumentary e found footage tão na moda ultimamente, não fosse levantada essa possibilidade pelos jovens bêbados que se reuniram um dia para pensar em um filme no qual envolvesse pouco dinheiro, muito lucro e um gênero que a maioria do público aprecisasse. Todavia, como falamos de um filme em que seus envolvidos parecem desconhecer totalmente seus potenciais e seus clichês, não julgaria essa probabilidade tão questionável assim. Afinal, acompanhando a história de Isabella Rossi (a brasileira Fernanda Andrade) em busca de respostas para o comportamento “sobrenatural” de sua mãe ao matar três pessoas em 1989 durante uma sessão de exorcismo, o roteiro escrito por William Brent Bell e Matthew Peterman parece não ter nenhum tipo de foco aparente para contar sua “história”.  

Apenas salientando questões minimas do roteiro, como o fato de os personagens entrarem em certos lugares usando a câmera e como são obtidas essas permissões (apesar de não serem inteligentes nem ao menos neste aspecto, já que o máximo que conseguem desenvolver é: “somos da imprensa!”), e se esquecendo de questões mais importantes que são citadas no começo do longa, o roteiro de Bell e Peterman consegue ser admirável por manter desde o início seu grau de qualidade – basta observar, por exemplo, a maneira com que os dois sugerem um debate sobre ciência e religião no primeiro ato apenas para descartá-lo em seguida. Não só isso, ambos parecem ter um prazer impressionante ao tentar sabotar todos que fazem parte da equipe de seu longa-metragem, única explicação para o fato de um determinado momento o roteiro dizer que o que acontece em uma instituição psiquiátrica não tem nada a ver com exorcismos e sim com ciência; para noutro momento, a direção de arte retratar o quarto da mãe da protagonista naquele local com – pasmem! - diversos crucifixos ao seu redor.

Como se não fosse o bastante, para Bell, um filme de terror basicamente reside em dar sustos gratuitos sem nenhum tipo de substância a cada cinco minutos – como se de alguma forma isso desviasse a atenção do espectador para aquilo que está assistindo. Além disso, o diretor/roteirista parace achar que gritos histéricos, freiras cegas e olhares maldosos de uma criança de 4 anos são o suficientes para causar tensão – algo que culmina em uma cena no mínimo curiosa e hilária em que uma personagem pergunta “você está nervoso?”, apenas para depois de uma resposta negativa saltar um cão em direção ao grupo de personagens para os assustar.

E se poderíamos ao menos ter pena dos atores que possivelmente não teriam lido o roteiro antes de assinar o contrato, essa perspectiva também vai pro espaço quando vemos suas “qualidades”. Se Andrade apenas tenta evidenciar através de diálogos tudo o que está passando naquele momento e os atores Simon Quarterman e Evan Helmuth não convenceriam como padres nem as mais ingênuas vítimas de estelionato, surpreende que Suzan Crowley não esteja se divertindo por protagonizar momentos tão involuntariamente cômicos no decorrer do filme.  

Contudo, em seu final, seria injusto não direcionar toda a falta de qualidade de “Filha do Mal” para seus reais criadores, Bell e Peterman. Querendo ser tão absurdos quanto seu comunicado no começo do filme (“o vaticano não apoiou esse filme, nem ajudou em sua execução”), ambos são ao menos fiéis a sua imaturidade em cada cena do longa. Uma pena, portanto, que quando certo personagem pergunta "por que você está fazendo isso, esse documentário?", a resposta não tenha sido realmente a honesta: “estou fazendo isso por dinheiro, somente por ele!”.

6 de maio de 2012

Um Método Perigoso


A Dangerous Method, Inglaterra/Alemanha/Canadá/Suiça, 2011. Direção: David Cronenberg. Roteiro: Christopher Hampton, baseado no livro de John Kerr. Elenco: Michael Fassbender, Viggo Mortensen, Keira Knightley, Vincent Cassel e Sarah Gadon. Duração: 99 minutos.

De certa forma, a sexualidade e a psicanálise sempre fizeram parte da extensa filmografia de David Cronenberg. Afinal, ainda que o diretor também se interessasse pelo macabro em seus filmes, sempre intrínseca a essas narrativas também estava o sexo e a tensão psicológica, como em “A Mosca”, “Gêmeos – Semelhança Mórbida” ou Crash. Torna-se, portanto, uma decisão sábia a de o diretor assumir a condução de uma história que envolve sexualidade e duas das maiores mentes que já apareceram na psicologia comportamental. E mesmo que Cronenberg fique em momentos na linha tênue entre o burocrático e o fluido, o terceiro ato nos remete mais uma vez a perspicácia do diretor aos detalhes e a segurança ao abordar algo que domina.

Tendo como base uma troca de cartas entre Carl Jung e Sigmund Freud, baseado no livro de John Kerr, o roteiro escrito por Christopher Hampton aborda o relacionamento dos dois pais da psicanálise em um dos períodos importantes da vida do primeiro. Na trama, Jung (Michael Fassbender) começa um tratamento inovador em Sabina Spielrein (Keira Knigthley) e se envolve “romanticamente” com a jovem. Com uma admiração ímpar pelo trabalho de Sigmund Freud (Viggo Mortensen), Jung se dispõe a discutir novos tratamentos e penetrar mais a fundo nos mistérios da mente humana; porém, as divergências entre Jung e Freud sobre suas filosofias se tornam cada vez mais constantes...

Limitando-se a planos convencionais no começo da narrativa e introduzindo o espectador de maneira abrupta naquele mundo, Cronenberg falha basicamente ao expor a identidade de seus personagens de maneira inorgânica na narrativa, algo que apenas não se torna problemático por já termos prévio conhecimento sobre quem são aquelas figuras. Todavia, Cronenberg acerta em não se ater apenas em jogar dois personagens históricos debatendo sobre suas filosofias e tenta construir com sabeboria o relacionamento de Sabrina e Jung no primeiro ato.

Assim, não esquecendo de suas habilidades como diretor, Cronenberg realiza planos admiráveis ao retratar que caminho aqueles personagens estão percorrendo – para isso, basta observar a cena em que Jung e Sabrina dão uma longa caminhada numa grande escadaria e a semiótica da cena ao representar o trajeto de altos e baixos que os dois irão ter no decorrer de seu relacionamento. Ou até mesmo quando vemos a estrada linear que Sabrina passa a percorrer em certo instante.

Não apenas isso, o diretor também é preciso (como não poderia deixar de ser) nos embates analíticos presentes durante a narrativa. Além disso, como não ficar instigado por frases como a de Otto Gross ao diagnosticar Freud (“Acredito que a obsessão de Freud está ligada ao fato dele nunca conseguir transar!”) ou no próprio Freud tentando estabelecer racionalidade em certa circunstância ("No geral, não ligo se um homem acredita em Ramã, Marx ou Afrodite, desde que deixe isso do lado de fora do consultório")? Assim, os diálogos do longa-metragem conseguem sempre manter a qualidade com uma pertinente acidez, principalmente nos encontros entre Freud e Jung e suas divergências sobre sexualidade X espiritualidade.

E é encontrando força dramática em seus protagonistas que os diálogos e a direção de Cronenberg ganham outros ares a partir do segundo ato. Criando Jung como um sujeito centrado, frio em certo aspecto e com uma postura atenciosa, Fassbender é eficiente ao retratar o conflito entre sua filosofia e a de Freud, porém, falha em demonstrar o emocional de seu relacionamento com Sabrina e as sequelas que trazem em sua vida – nunca soando genuíno o seu possível “amor” pela personagem ou ao menos interessante.

Nesta perspectiva, Keira Knightley é ainda pior ao compor Sabrina com trejeitos caricaturais absurdos e deslocados, como suas constantes risadinhas no início, sua tremedeira ou seus gritos desesperados. A atriz ainda é desconcertante ao se contorcer de todas as maneiras imagináveis no primeiro ato e remeter a sua respiração a algo que talvez seria mais pertinente num fingimento de orgasmo, por exemplo. Ciente disto, é no mínimo curioso notar que até Cronenberg, sabendo das limitações da atriz, não tenta demonstrar a evolução da personagem durante o tratamento – algo salientado pela utilização do recurso simples e precário: “dois anos depois...”.

Por outro lado, Viggo Mortensen impressiona pela naturalidade ao personificar Sigmund Freud e a maneira com que posta sua voz. Um bom exemplo é o modo como o personagem se altera e o alto controle de temperamento, além da calma com que profere uma ofensa a alguém ou alguma coisa. Assim, torna-se sempre fascinante observar a maneira de agir de Freud em determinados momentos da narrativa, como quando se sente desconfortável ao entrar no barco de Jung ou o olhar suplicante, em uma das várias discussões entre os dois analistas, buscando o bom senso do amigo. Ao passo que Vincent Cassel é competente ao compor Gross como alguém inquieto e que sempre está preocupado com algo.

Deixando suas melhores cartas para o final, Cronenberg consegue não apenas fechar todas suas subtramas no terceiro ato, como também dar substância para tudo que havíamos visto na narrativa até então. Do mesmo modo, o diretor ainda nos proporciona um plano excepcional ao mostrar Freud e Jung de lados opostos de uma mesa de debate, evidenciando as diferenças dos dois. E mesmo que aqui o lado obscuro ou macabro de Cronenberg não é apresentado, não dá para não notar que vimos mais um filme do diretor quando nos deparamos com Sabrina, depois de um ato sexual, afirmando: “há um poema do Lermontov que não sai da minha cabeça...”.

30 de abril de 2012

Os Vingadores - The Avengers




The Avengers, EUA, 2012. Direção: Joss Whedon. Roteiro: Joss Whedon, partindo de uma história criada por Whedon e Zak Penn, baseado nos quadrinhos de Stan Lee e Jack Kirby. Elenco: Robert Downey Jr., Chris Evans, Mark Ruffalo, Chris Hemsworth, Scarlett Johansson, Jeremy Renner, Tom Hiddleston, Clark Gregg, Cobie Smulders, Stellan Skarsgård, Samuel L. Jackson e Gwyneth Paltrow. Duração: 142 minutos.

Lembro-me até hoje da primeira vez que li uma HQ. Eu tinha oito anos quando folhei uma história do Homem Aranha. Fui surpreendido pela maneira como eu via a ação da história em cada página e o tom sarcástico que era mantido nos exemplares, fui conquistado por completo. Vi com pesar, portanto, que o tom de magia e o sarcasmo no cinema passaram a virar piadinhas deslocadas e “descoladas”, por roteiristas que tentavam trazer esse universo da Marvel para o grande público.

Obras como Capitão América, Homem de Ferro 2 e, em menor escala, Thor, sofreram drasticamente não pelo fato de serem prelúdios do que viria, mas por serem utilizados como alívios cômicos em demasia durante a narrativa e sem timing algum.  Todavia, após “Os Vingadores” uma dúvida sempre poderá martelar na mente do público: será que o projeto vingadores foi uma trama pensada durante cada filme ou será que foi algo apenas "jogado" para um possível futuro?

Ainda que eu ache a segunda resposta a mais correta, não daria para negar como Whedon trabalha eficientemente em particularidades de cada filme até então e, se sai admirável, não apenas em proporcionar a diversão e magia pelas quais a Marvel ficou conhecida, mas também por presentear o espectador com a carga emocional daquele universo.

Escrito pelo próprio Joss Whedon, após os eventos dos filmes de Thor e Capitão América, Loki (Tom Hiddleston) retorna à Terra para conquistar o planeta (novidade!) e liberar uma raça alienígena chamada de Chitauri para ser seu exército. Para isso, porém, Loki precisa roubar o cubo mágico dentro das instalações da S.H.I.E.L.D. para interligar os dois mundos. Para dar um fim aos planos de Loki, portanto, Nick Fury (Samuel L. Jackson), finalmente, convoca o grupo de heróis para fazer parte do Projeto – Vingadores: Thor (Chris Hemsworth), Hulk (Mark Ruffalo), Capitão América (Chris Evans) e Homem de Ferro (Robert Downey Jr.), para salvar a Terra dos planos do irmão bastardo de Thor.

Definindo sua trama basicamente em três momentos – recrutamento, treinamento e batalha –, Whedon é notável ao estabelecer peculiaridades de cada personagem durante o primeiro ato, priorizando os que não haviam sido explorados profundamente em outros filmes. Enquanto o Gavião sempre se mantém observando a ação de longe, por exemplo, Whedon aborda a presença de Nick Fury em contra-plongée, chegando ao cúmulo de salientar o diretor da SHIELD numa presença mais imponente em tela do que Thor (que chega a olhar para cima ao se dirigir a Fury).

Da mesma forma, além dos heróis serem sempre apresentados com o uso desta técnica, o diretor passa a explorar também o lado humano da narrativa e sua relação com aqueles personagens – algo que Transformers, por exemplo, falhou miseravelmente. Assim, é tocante ver o desenvolvimento do personagem de Clark Gregg e sua importância para a reunião da equipe – observe, ainda, como Whedon intensifica a relação dele com o Capitão América (justo o personagem que o agente não havia tido uma maior relação em outros filmes).  

Além disso, o roteiro de Whedon se mostra vitorioso não apenas no desenvolvimento dos acontecimentos que orientarão o clímax, mas no conhecido sarcasmo do universo Marvel. De tal modo, as frases surgem perfeitamente dentro do contexto, como: “Seu primeiro nome é agente”, “Ele é adotado”, “Os segredos dele tem segredos”, “Você é um alien? Não? Então você tem uma doença”, “Legolas, venha comigo”, “Deus franzino” e dezenas de outras. Da mesma forma que as frases mais emocionais são trabalhadas de forma mais intensa pelo roteirista/diretor, como quando Bruce Banner confessa: “O outro cara cuspiu a bala que tentei usar para dar fim a essa minha vida!”. Ou até mesmo no timing certeiro quando Capitão América paga uma aposta para Fury que havia feito há mais de quinze minutos.

Como se não fosse o bastante, Whedon se mostra um diretor excepcional ao saber como conduzir sua narrativa a cada momento, trabalhando na medida certa, sem exagero, nos slow motions nas cenas de ação, por exemplo, ou nos travellings circulares (que chega ao ápice quando vemos os heróis reunidos e prontos para lutarem juntos). E observe como o diretor realiza um plano invertido quando vemos uma briga entre os heróis ou na maneira como cada personagem se posta diante do outro – basta observar quando Thor se dirige a Loki e na maneira como o Deus do Trovão sempre aparece mais acima que o irmão bastardo, como se demonstrasse sua superioridade. É interessante, ainda, a maneira como Whedon gosta de brincar com seus personagens principais e as diferenças de cada um: se em um momento temos Tony Stark vestindo uma camiseta do Black Sabbath e entra na ação ao som de AC/DC (mostrando a geração mais rock and roll); noutro momento, Loki, Capitão América e Gavião entram ao som de música clássica.

Contudo, “Os Vingadores” não apenas é marcante pela condução de Whedon, mas também por seu elenco.  E é criando Bruce Banner sempre com uma postura intelectual, dando alusão aos ares de doutor, voz cansada, mas mostrando também sua inconstância (como na assustadora cena em que grita com a personagem de Johansson), que Mark Ruffalo surge como o grande destaque do longa. O ator, ainda, é perfeito ao demonstrar sua transformação em cena: seja na forma de descontrole emocional (como quando a base da S.H.I.E.L.D passa por um ataque), seja por seu controle e sua adrenalina (“Estou sempre zangado!”).

Da mesma forma, Tom Hiddleston se destaca ao mostrar-se muito mais solto e sem a contenção que o personagem precisava em Thor. Assim, o ator é notável ao demonstrar seus olhares vingativos e de diversão ao ver o descontrole do planeta na narrativa – note, por exemplo, o olhar de Hiddleston quando vê todos em pânico depois de arrancar um globo ocular ou até mesmo nos constantes olhares de desprezo pela raça humana.  Thor, por outro lado, não é aproveitado tanto como personagem – algo que limita Chris Hemsworth.

Em contrapartida, Chris Evans finalmente aparece confiante e surpreendentemente natural como Capitão América ao guiar sua equipe com atitude e comandar os personagens no campo de batalha – algo salientado pelas cenas em que o capitão protege a Viúva Negra de uma explosão ou quando luta lado a lado com Thor. E se Johansson está melhor do que nunca no papel de Viúva Negra, Renner mostra a competência de sempre ao evidenciar as emoções e virtudes de seu Gavião em pouco tempo de cena (“Quantos agentes eu matei?”). Ao passo que temos Robert Downey Jr sendo ótimo por ser, bem, Robert Downey Jr.

É surpreendente, assim sendo, que é um humano o escolhido por Whedon para dar fundamento e substância a sua narrativa. E neste papel, Clark Gregg é brilhante ao colocar o Agente Coulson como o fã daquele grupo de heróis, cujo se mostrou fundamental para união de todos e cujo mostra a maior dignidade humana: a emoção. E num dos momentos mais honestos, de fã para fã, Whedon se vê combalido a compor uma frase que unifica todos esses fundamentos e que é executada eficientemente por Gregg: “Você irá perder, está na sua natureza!”. 

Terminando com um clímax impressionante, Whedon ilustra sua excelência por trás das câmeras com um dos melhores planos-sequências, atrevo-me a dizer, dos últimos anos: no momento em Capitão América joga Viúva Negra em direção a um dos vilões e a câmera segue o Homem de Ferro, passa pelo Gavião que com sua flecha a conduz até Hulk lutando lado a lado com outro personagem, Thor, e termina num soco do herói verde.

Pois, no fim, é não se privando do emocional daqueles personagens (como mostra as cicatrizes da batalha na armadura de Stark ou no resgate de Hulk ao Homem de Ferro), mas também não se esquecendo do sarcasmo e diversão daquele universo (como Hulk usando Loki como um boneco), que está o triunfo de Whedon. Se em Hugo, Scorsese usa o cinema como estepe de sua paixão pelo próprio cinema, falando de um apaixonado a outro; em “Os Vingadores”, Whedon faz o mesmo: não criando apenas uma obra de apreciação cinematográfica, mas uma homenagem àqueles que fizeram ou fazem parte deste universo desde criança.

29 de março de 2012

Despertar, O

 

The Awakening, Inglaterra, 2011. Direção: Nick Murphy. Roteiro: Nick Murphy e Stephen Volk. Elenco: Rebecca Hall, Dominic West, Imelda Staunton, John Shrapnel e Isaac-Hempstead Wright. Duração: 107 minutos.


No fundo, “O Despertar” tem uma idéia parecida com a do igualmente fraco “O Último Exorcismo”: explorar um duelo entre o sobrenatural e o ceticismo, mas que no final sempre acaba remetendo ao primeiro caso e na transformação do protagonista por presenciar algo assustador. Ou seja, não apenas parecido em sua idéia com o filme de Daniel Stamm, o filme dirigido por Nick Murphy nos apresenta não só uma trama extremamente previsível e comum, como também dá para ela um desenvolvimento que certamente deixaria Rob Zombie com orgulho.

Escrito pelo próprio Murphy, em parceria com Stephen Volk, a história gira em torno de Florence Cathcart (Rebecca Hall), a nossa protagonista cética, que até o final do filme será a mais nova personagem fragilizada diante de uma situação que ela não poderá entender. Assim, Florence acaba aceitando o pedido de Robert Mallory para visitar um internato que está sendo tomado por visões fantasmagóricas. Logo, como sabemos, a protagonista finalmente começa a entrar em choque com suas crenças quando fatos inexplicáveis e sobrenaturais começam a ser freqüentes no local.

21 de março de 2012

As Aventuras de Agamenon, O Repórter

 


Idem, Brasil, 2012. Direção: Victor Lopes. Roteiro: Hubert e Marcelo Madureira. Elenco: Marcelo Adnet, Hubert, Marcelo Madureira, Luana Piovani, Pedro Bial, Fernando Henrique Cardoso, Ruy Castro e Fernanda Montenegro. Duração: 74 minutos.

As Aventuras de Agamenon é uma esquete estendida de Casseta e Planeta travestida de humor. Porém, muito mais insuportável e doloroso que o programa de “comédia” (sempre entre aspas, por favor) da Rede Globo, o longa-metragem que é roteirizado por nada menos que Hubert e Marcelo Madureira saídos (adivinhem de onde?) do falecido programa tenta ser uma tentativa nada natural e lamentável de unir Borat e Forrest Gump num mesmo filme – algo que mostra-se muito mais fatal do que uma maratona das filmografias de Rob Schneider, Eddie Murphy e Adam Sandler em seqüência. 

Lançado (não encontrei outra palavra) contra a população mais rápido do que se espalha o vírus ANTRAX, a narrativa descrita por Hubert e Marcelo Madureira gira em torno do asqueroso repórter Agamenon, uma junção mortífera de Borat, “Seu Creysson” e Lúcifer. Ponto. Sim, essa é a “história”. Não há qualquer outra coesão que possa ser explicada ou acentuada em um parágrafo que descreva a trama.