10 de junho de 2016

Invocação do Mal 2

The Conjuring 2, EUA, 2016. Direção: James Wan. Roteiro: Carey Hayes, Chad Hayes, Jams Wan e David Leslie Johnson. Elenco: Vera Farmiga, Patrick Wilson, Madison Wolfe, Frances O'Connor, Lauren Esposito, Benjomin Haigh, Patrick McAuley, Simon McBurney, Franka Potente. Duração: 2h14min.

Após ouvirmos os gritos de Johnny na cozinha, as famílias Warren e Hodgson correm  em direção ao recinto pra defender o pequeno, mas não o acham à primeira vista. Afinal, durante o ataque da pequena Janet, ele havia se escondido no armário - o qual, no ato inicial, foi o primeiro lugar que Johnny se dirigiu para buscar biscoitos, encontrando-o completamente vazio. Esse é um dos padrões comportamentais que James Wan procura repetir em seus filmes: um lugar visto previamente será retomado dramaticamente, mais tarde.

Outra cena: enquanto o malaio investe nossas atenções e tensão no quarto de Janet, onde a menina briga durante o sono com o poltergeist que quer machucar Billy, o menino caminha pela casa para pegar um copo de água. Antes de subir as escadas, numa repetição constante na filmografia de Wan, observamos rapidamente o espírito sentado na poltrona, sem que seja o principal foco da cena. É quando o diretor adianta: algo está para acontecer. E enquanto a tensão exala no quarto de Janet, é com Billy tropeçando num pequeno caminhão de bombeiros que o primeiro impacto vem e continua até chegar a aparição na barraca.

São esses padrões presentes na filmografia de James Wan e, consequentemente, em Invocação do Mal 2, que tornam o processo narrativo ainda mais interessante. Presente em outros filmes, o cineasta utiliza as repetições sempre ao seu favor: por exemplo, o plano sequência que costuma apresentar o espaço da casa que será o centro de nossa atenção revela detalhes significativos sobre as aparições: no primeiro filme, Cindy nos leva até os fundos da casa, o local dos enforcamentos; no segundo, acompanhamos Margaret até Janet, de costas para o público e em sua cama, onde será o primeiro contato com o sobrenatural. 

Como um amante de revoluções de gênero, igualmente, a manipulação da audiência que o diretor realiza é preciosa. Já na primeira cena, Wan brinca com a inúmeras casas na rua e traz o espectador com a câmera, para trás, com o objetivo de nos introduzir em apenas um caso, ainda que deixe claro as possibilidades que tem para trabalhar. Em sequência, seu/nosso foco concentra no olhar de Lorraine: que, novamente, é nossa protagonista. (Importante abrir um parênteses: embora seja Ed que carregue a cruz do casal e seja o showman, é sua esposa que é a sustentação de seus casos – assim, a palidez do mundo astral, algo que Wan já destaca com uma ligeira inclinação do quadro, como se ela estivesse fora do seu habitat normal, não serve apenas como um artifício narrativo, como também para evidenciar que cada personagem carrega seus próprios terrores.) Do mesmo modo, o cineasta brinca com alguns dos clichês mais expressivos do terror: o reflexo no terror, a câmera subjetiva e a nossa maneira de agir em situações de risco: de tal modo, é impossível não sorrir quando, após a polícia ser chamada para lidar com o caso, os agentes saiam correndo da casa e afirmando estarem fora de sua alçada.

E isso se torna muito mais prático e orgânico que apenas cenas tensas, como a gravação de Bill na sala ou o efeito dramático decorrente de uma pintura. Porque James Wan não é somente um mestre da manipulação, mas também sensível ao lidar com o sobrenatural. É por isso que comove o coro de I Can't Help Falling In Love, puxado por um cativante Patrick Wilson. Não seria uma surpresa, portanto, que o cineasta considerasse Invocação do Mal 2 seu primeiro romance.


Rodapé: Não apenas o design de produção de Julie Berghoff é eficiente, como também ressalta algumas peculiaridades: analise que não há poste de luz na frente da casa, uma das poucas na rua, como também é a única com uma árvore morta na fachada. 


8 de junho de 2016

James Wan's filmography: an odyssey

30 de março de 2016

Batman vs Superman: A Origem da Justiça

Batman v Superman: Dawn of Justice, EUA, 2016. Direção: Zack Snyder. Roteiro: Chris Terrio e David S. Goyer, baseado nos personagens de Bob Kane, Bill Finger, Jerry Siegel e Joe Shuster. Elenco: Ben Affleck, Henry Cavill, Amy Adams, Jesse Eisenberg, Diane Lane, Laurence Fishburne, Jeremy Irons, Holly Hunter, Gal Gadot, Scoot McNairy, Callan Mulvey, Tao Okamoto. Duração: 2h31min.

Em determinado momento de Batman VS Superman: A Origem da Justiça, o homem-morcego está numa luta de vida/morte contra o homem de aço, quando este fala que aquele precisava saber que Martha estava em perigo. "Nenhuma Martha irá morrer esta noite", assume o personagem de Ben Affleck ao se deparar com a chance de salvar um simulacro de sua própria mãe e enfrentar seus próprios demônios. Uma cena belíssima que Zack Snyder decide contrapor vergonhosamente com o retorno de um flashback visualizado no começo do longa-metragem, cujo objetivo era apenas lembrar o espectador que, sim, Martha também era o nome da mãe de Bruce Wayne. Algo que não só apontava para o fato do diretor não confiar na capacidade de raciocínio básico do público, como também denunciava as escolhas inorgânicas para cimentar a profundidade dramática de sua narrativa.

Assim, Snyder falha em criar o paralelo que o roteiro tanto se esforça em estabelecer: a batalha entre homem versus deus, Zeus e Prometeu, noite contra dia, ciência e fé. O intermediário para isso tudo é a figura humana de Lex Luthor, outra decisão interessante, mas sabotada pelo propósito de transformar o empresário num sociopata extremo que faz qualquer coisa para chegar em seu objetivo - neste aspecto, nem a decisão de tentar aproximar o personagem de um tom mais palpável, quando a falta da figura paterna é explicitada no clímax do filme, parece menos do que desconfortável. A montagem de David Brenner, por sua vez, sofre para estabelecer uma continuidade minimamente aceitável entre ambos os personagens, criando opostos deslocados e que se confrontam com outros aspectos técnicos do filme. Num momento, inclusive, Bruce chega a dizer que precisa de 100% de certeza para embarcar numa batalha contra Superman apenas para, na cena seguinte, dizer que ele precisa ser detido por ter ficado em seu caminho.

Não que a figura humana não seja bem apresentada, pois ela é. Ben Affleck é cuidadoso na forma como encara a seriedade de sua persona - enquanto Christian Bale possuía uma missão de salvar Gothan da ganância, corrupção e seus opressores, o Batman de Affleck é um caçador, um homem que precisa de novas missões para continuar vivendo ou, melhor, sobrevivendo. As referências em sua BatCaverna, portanto, soam sempre bem fundamentadas - junto ao eficiente design de produção de Patrick Tatopoulos, nestas cenas, em específico. Da mesma forma, o encontro da destruição de Metropolis aos olhos de um fúnebre Bruce Wayne estabelece uma lógica muito maior sobre o confronto entre os dois heróis do que o "miolo" do filme procura solidificar.

Entretanto, é uma pena que Zack Snyder construa seu castelo de boas intenções no centro de uma geleira prestes a derreter. Seu final similar a Star Trek: A Ira de Khan joga um espectro de morte e sacrifício ao espectador que poderia fomentar discussões acaloradas sobre o futuro das franquias, caso sua cena final não fosse tão óbvia e, outra vez, inorgânica; bem como usar algo tão forte como se fosse banal. Ainda que, de novo, a separação entre Clark Kent e Superman seja belissimamente contraposta nos seus respectivos funerais.

Porque, no final das contas, infelizmente, Zack Snyder e equipe parecem se importar basicamente com três coisas: ambientar o novo Batman, sequências épicas entre os personagens-título no começo/fim do filme e criar easter eggs para os fãs incondicionais. Não é o bastante. 

29 de fevereiro de 2016

A Vizinhança do Tigre

Idem. Direção: Affonso Uchoa. Roteiro: Affonso Uchoa. Com: Aristides de Souza, Eldo Rodrigues, Mauricio Chagas, Wederson Patrício, Adilson Cordeiro. Duração: 95 minutos. 

Próximo de suas vozes, do barulho da enxada e suor, o contato com os jovens da periferia de Contagem, em Minas Gerais, é imediato. Quase que escondidos, num primeiro momento, em suas casas, os meninos representam um Brasil desconhecido para muitos. Mantendo a câmera sempre próxima de Neguinho, Juninho, Eldo, Adilson e Menor, Affonso Uchoa expõe a parte enclausurada da nossa sociedade com o pouco que possuem: o máximo de pessoas num lugar apertado, comendo em pé e ligados nas coisas mais simples.

Um dos personagens mais fascinantes do drama documental, Neguinho, brinca de “arminha” com um cabide rosa, enquanto veste uma camiseta do circuito cultural Banco do Brasil. Da mesma forma, ele usa um espeto como uma espada, numa brincadeira. Para o jovem daquela periferia, a violência é vista como uma coisa normal, quase ingênua. O ambiente denunciado por Uchoa, sob esta ótica, surge constantemente palpável, onde a música é uma das poucas coisas que mantém a atenção dos moleques e fazem eles serem mais criativos, assim como, ainda que os pais não sejam presentes (e observe como são raras as vezes em que uma mãe é vista), um dos garotos se esconde ao usar crack, com receio da reação dos outros.

É muito bem estudada, aliás, as relações entre os garotos e a maneira como se desenvolvem durante a projeção. Desta forma, a brincadeira de Neguinho usando o cabide como uma arma é trocada por uma arma real – mais adiante. Seguindo os passos dos garotos e estabelecendo um clímax coeso, o diretor usa o próprio Juninho para dar voz para sua aflição final: “Tudo tem que mudar”, assina o jovem. É um recado importante. 

Deadpool

Idem. Direção: Tim Miller. Roteiro: Rhett Reese, Paul Wernick, baseado nos personagens de Fabian Nicieza e Rob Liefeld. Elenco: Ryan Reynolds, Morena Bacarin, Karan Soni, Ed Skrein, Brianna Hildebrand, Stefan Kapicic, T.J.Miller, Jed Rees, Gina Carano. Duração: 108 minutos. 

Dentro do universo Marvel, além da forma como a sociedade enxergava os diferentes, o cinismo e o abandono sempre foram duas das particularidades mais complexas dos personagens que faziam parte dos filmes. Para esconder a sua fragilidade emocional e o medo das situações mortais que se envolvia, o Homem-Aranha exibia uma irreverência e cinismo que compactuavam com essa persona meio infantil exposta no seu cotidiano. O Coisa, de Quarteto Fantástico, por outro lado, devido sua aparência considerada grotesca, camuflava-se na sua força extraordinária e afastava-se da mulher que amava por medo de repulsa. Nos dois casos, o abandono e a solidão eram as características mais peculiares. Assim, Deadpool já seria uma obra instigante por capturar essas intenções dentro de sua abordagem. Claro, se não abdicasse de sua "sensibilidade" para ridicularizar exatamente o universo onde foi concebido e as escolhas óbvias que esse mundo fornece.

E é deste os créditos iniciais, quando Deadpool já ironiza a forma como a Marvel Studios tratou os filmes de origem dos heróis até agora, que o diretor Tim Miller acerta no deboche ao assumir a fórmula que embarca: um cara gostoso, uma mulher gostosa, um alívio cômico, uma adolescente problemática, um cameo gratuito e assim por diante.

O personagem de Ryan Reynolds, que brinca várias vezes com o fato de já ter interpretado o Lanterna Verde, encontra no sadismo uma forma de irreverência. Não apenas em suas piadas de cunho sexual diante da carnificina ("eu vou me tocar à noite" ou "Vou pedir uma coisa que nunca pedi antes: não engula!"), como também nas gags visuais com assassinatos e referências pops: algumas das minhas favoritas são a com Limp Bizkit, a soletração com corpos e  a piada com 127 horas.

Mas é no cinismo com que encara as próprias adaptações dos super-heróis que Deadpool sobe o nível. "Então, você provavelmente está pensando sobre qual saco tive que puxar para ter meu filme solo. Eu vou lhe dar uma dica: rima com polverine.", caçoa o personagem-título. Aliás, incluído na linha temporal dos X-men, o próprio conceito de reboot é abrangido por Deadpool que pergunta se o universo é o de McAvoy ou Stewart, bem como assimila que o estúdio não deveria ter dinheiro, já que só dois X-Mens numa escola aparecem para atender Deadpool.

Quebrando constantemente a quarta parede, portanto, o personagem nunca deixa de ridicularizar o próprio público das HQs que estão sempre esperando a cartilha dos estúdios Marvel, algo que já virou uma fórmula desgastada e inofensiva. Deste modo, Deadpool é realmente um sopro de criatividade por desdenhar dos clichês, indicando-os durante seu próprio filme de origem.

Ryan Reynolds é um grandioso acerto da produção, por consequência, já que, com um passado que poderia ser julgado, acaba rindo de si mesmo durante vários momentos, principalmente de sua aparência: "Você acha que Ryan Reynolds chegou aonde chegou por talento?", ele despreza. Da mesma forma que o próprio físico do ator (ressaltados em closes fechados no quarto que divide com Vanessa) serve para evidenciar a assustadora mudança que decorrerá do processo ao qual se submete.



Como Pânico foi para o slasher, Deadpool é uma bobagem gigantesca, mas que aproveita as convenções do gênero para criar uma profundidade genuína. No meu momento favorito do longa-metragem, Reynolds chora e observa a chuva cair, enquanto sua namorada dorme na cama. Quando indagado sobre o por quê estar ali, ele diz que teve um pesadelo: era Liam Neeson pensando que ele havia sequestrado sua filha. Está ali, o segredo de Deadpool: a vulgarização do pop. Com uma dose de drama e um timing cômico inesquecível.