30 de dezembro de 2018

RETROSPECTIVA: OS MELHORES FILMES DE 2018




Listas de fim de ano não carregam respostas conclusivas. São reticências, vírgulas, acréscimos em uma discussão maior. Cinema, afinal, é bastante subjetivo. As afirmações para melhores filmes, portanto, tornam-se máximas individuais; retóricas, no fundo. O que houve de novo (ou de melhor) no cinema, em 2018? Não existe uma resposta assertiva para isso.


O que podemos afirmar é que listas provém de um despertar de inquietações – algumas, racionais; tantas outras, emocionais.


Aqui, eu listei alguns dos filmes que me acertaram em cheio em 2018. Espero que a vocês também.


Melhores Filmes Lançados em 2018:


1. Hereditário (Hereditary. EUA, 2018)



Episódios traumáticos podem definir variações num mesmo ambiente familiar. É o que o excepcional Halloween, por exemplo, evidenciava dentro de uma estrutura que permitia ligações entre três gerações diferentes. Hereditário expõe no pior sentido da palavra uma família enlutada diante de monstros humanos que se aproveitam da fragilidade de uma mãe para ressurgir sua seita. Ari Aster pode ser tanto metafórico quanto literal no desenvolvimento de sua narrativa, que nos remete ao pior da sociedade humana. O que gera medo em 2018 tanto quanto a impotência diante da vida e de si mesmo? É um clássico instantâneo.


2. Minding the Gap (Idem. EUA, 2018)





- Como ele disciplinava?


- É o que chamam de abuso infantil, hoje em dia.


Com relatos e imagens inesquecíveis, é aquele filme demasiadamente real do qual precisamos todos os anos para refletir profundamente sobre juventude, sequelas e amadurecimento.


3. Blindspotting (Idem. EUA, 2018)






Num ano como o nosso, a forma com que o desenrolar de Blindspotting nos imerge em sua estrutura, na natureza do medo racial, torna o longa algo profundamente impactante. A violência se torna sintomática, mesmo que se queira fugir dela, na ótica de Carlos López Estrada. Afinal, ela encontrará você em algum lugar. Spike Lee lançou mais de um filme neste ano, mas é Blindspotting, com toda influência do realizador, que catalisa o drama racial com a franqueza que Lee almeja em seus filmes. Blindspotting é o resultado primoroso de um contexto social que não se superará tão cedo.


4. What Will People Say (Hva vil folk si. Noruega, 2017)


Um dos problemas de sermos espectadores no mundo cinematográfico é observar as dores das pessoas que testemunhamos sem uma forma de acudi-las. O filme de Iram Haq é um exemplo ao evidenciar a descoberta da sexualidade da jovem Nisha numa comunidade paquistanesa conservadora. Maria Mozhdah merecia todos os prêmios do mundo por sua performance.


5. Roma (Idem. México/EUA, 2018)



Muito se fala das similaridades entre o excepcional novo longa-metragem de Cuáron e o brasileiro Que Horas Ela Volta?, principalmente pelo argumento de usar a casa e a relação patrão/empregada para descrever a desigualdade social num sentido macroeconômico. Do meu ponto de vista, no entanto, a narrativa soa muito mais próxima de Hiroshima, mon amour, de Alan Reisnais, ao usar o relacionamento de pessoas de realidades distintas para criar um testemunho extraordinário sobre sequelas de guerra. Não se pode lavar o passado, por mais que você jogue água na calçada. Assim, Cuáron evoca em sua narrativa uma fotografia em preto e branco que confere o charme de um filme de época se passando nos tempos atuais, como se passado e presente estivessem sempre interligados e, por um instante, estivéssemos diante da história sendo contada apenas para nós. O diretor utiliza o intimismo de uma casa para representação social. Quem somos nós individualmente diante de uma revolução. Podemos olhar de longe, em paralelo, sem saber muito bem o que está ocorrendo. Cleo é uma figura trágica, nunca romântica. É alguém cujo silêncio é ensurdecedor. Alguém que denuncia a desigualdade de um sistema que lhe chama de família, enquanto cobra sua mudez. É um drama sutil, mas poderoso.

6. Eighth Grade (Idem. EUA, 2018)


Bo Burnham, um dos melhores comediantes da atualidade, estabelece-se como um novo prodígio em um longa-metragem que capta com sensibilidade ímpar a atual geração online, em que, não importa o quanto estamos conectados, a solidão é gigantesca. A vida é difícil. Passo a passo, lidamos com ela. É uma obra que entra no mesmo patamar de filmes recentes, como Quase 18, O Diário de uma Adolescente e tantos outros.


7. No Portal da Eternidade (At Eternity’s Gate. França/Suíça/ReinoUnido, 2018)


Ao caminhar em um campo de girassóis mortos, as cores vão ganhando vida a cada passo que Van Gogh passa a dar. A miserabilidade e a indecência do mundo continuam lá, mas ele se transforma. Um filme sensorial sobre um homem perdido dentro de si. Uma obra de reflexão sobre como um homem depressivo encara a solidão num mundo que o vê como louco.

8. Skate Kitchen (Idem. EUA, 2018)


Talvez, a juventude skatista jamais tenha soado tão liberta, desprendida e anárquica quanto aqui. Um longa-metragem tanto envolvente quanto sensível.


9. Holiday (Idem. Holanda/Dinamarca/Suécia, 2018)



A escolha do design e da fotografia por tons sóbrios e modernos evidencia a dureza com que a diretora encara a tarefa de criar uma situação em que o abuso é visto como algo normal ou tolerável (a cena do estupro, onde percebemos uma pessoa subindo novamente as escadas, sem ser vista, pois não tem nada a ver com aquilo, é uma das melhores de 2018). Eklöf não está interessada em ser sutil; pelo contrário, ela quer confrontar o público masculino - uma missão que, visto os comentários, atinge com êxito.

10. Custody (Jusqu’à la garde. França, 2017)



Já foi o bastante para perceber que há um problema”, diz a advogada de defesa da personagem Miriam Besson, após a primeira cena do filme de Xavier Legrand se passar dentro de uma audiência. Lá, relata-se o passado truculento do relacionamento de Miriam com o marido, incluindo as agressões e o medo dos filhos. Ao nos colocar ao lado do pai, a partir de então, Legrand administra uma tensão que chega a ser angustiante, já que sabemos da natureza destrutiva do sujeito. Deste modo, a apreensão provém desde comentários simples como o filho xingando o pai até um pedido de desculpas dissimulado. Tudo soa como déjà vu, como se já tivéssemos ouvido aquilo milhares de vezes; e já ouvimos. O francês trabalha muito bem a referência de seu público para inchar o sofrimento da narrativa, culminando numa sequência final devastadora.

Outros filmes que merecem menção (na ordem):


11. Outro Lado do Vento, O (The Other Side of the Wind. Irã/EUA, 2018)

O trabalho póstumo e metalinguístico de Orson Welles indica o quanto o americano estava à frente do seu tempo, discorrendo sobre o processo de formação com uma atemporalidade que fascina.


12. Culto, O (The Endless. EUA, 2017)


"O fim chegou", dizia o rabisco pestilencial. (...) O Dr. Torres sabia, mas o choque o matou. Não pôde suportar o que teria de fazer; tinha de me meter num lugar estranho e escuro, mas atentou à minha carta e me fez voltar, com seus cuidados. Tinha de ser feito à minha maneira, pois vês: eu morri naquela época, há dezoito anos." [Ar Frio. Lovecraft, H.P.]

Arrisco dizer que The Endless é uma das homenagens mais bonitas que o cinema já fez para H.P. Lovecraft. Um filme que descreve como poucos sobre o processo de criação e nosso medo de nos repetirmos.

13. Jogador Número Um (Ready Player One. EUA, 2018)

Só a sequência da recriação de O Iluminado já colocaria essa aventura entre os melhores filmes de 2018. É aquela narrativa que evidencia o lugar de Steven Spielberg na história do cinema.


14. Halloween (Idem. EUA, 2018)

Certos medos nunca morrem. Podemos enclausurar o terror, mantê-lo encolhido no centro de um tabuleiro de um jogo de damas, cujo objetivo é imobilizar a peça inimiga, mas o medo permanecerá lá, mesmo inaudível, esperando o momento certo para ressurgir. Podem-se passar anos, a memória de um trauma jamais apagará. Priorizar-se-á outras coisas, ocultando uma determinada informação por um período de tempo, porém ela jamais morrerá. É o que nos evidencia desde o início o novo Halloween, de David Gordon Green, que está exatamente preocupado em falar sobre como podemos reagir ao episódio traumático. Ilustra-se, por exemplo, o início do longa-metragem entre relógios, tempo e retóricas sobre nossa confiança na mente e nossos sonhos para depois entrarmos no mundo das histórias, das lendas, agora informadas através de um jornalismo contemporâneo. Como entender a fisiologia do mal? No jogo que levou o Dr. Loomis a uma contestação simplista de que Michael Meyers era o estado bruto de tudo que é mal, Green se interessa pelo impacto que o mal gera no agressor e na vítima, priorizando, claro, a segunda. Assim, além de sinistra, a cena em que pacientes dentro de um manicômio começam a gritar ao redor de Michael, o único calado e no centro do quadro, denuncia a força de uma memória traumática e o quanto a máscara pode ser um objeto figurativo do sofrimento humano. Leia mais: clickfilmes.blogspot.com/2018/10/halloween-2018.html


15. Procurando Por Ingmar Bergman (Searching for Ingmar Bergman. França/Alemanha, 2018)


"O filme é apenas a forma como os sonhos (e sonhadores) são distribuídos. É a maior experiência mediúnica que o mundo já conheceu", descreve Bergman em determinado instante do documentário. Uma aura que os realizadores conseguem captar em cheio: a complexidade do caráter do homem atrás das câmeras e fora do estúdio orienta o espectador acerca do que inspira a filmografia do sueco. A procura por Bergman, neste sentido, é muito mais do que dissecar a obra do realizador, é averiguar o artista, seu pincel e seus impulsos.

16. Suspiria (Idem. Itália/EUA, 2018)

O inconsciente é estruturado como linguagem”, provavelmente, é uma das frases mais conhecidas de Jacques Lacan, o psicanalista que puxou as bases semiológicas de Saussure para se aventurar pela psique humana. O francês acreditava que o retorno ao inconsciente e à projeção, a raiz filosófica de Freud, era muito mais importante do que simplesmente o ego, a maior escola freudiana no período contemporânea. A lógica lacaniana estabelece algo intuitivo intrigante que é o raciocínio de que o significante pode ser mais importante do que o significado. Que a representação de algo pode ser mais fidedigna que o algo em si. A experimentação do calor, do fogo, pode soar mais explícita do que a figura de um fogo, por exemplo. Quando a personagem de Dakota Johnson afirma que quer ser o corpo daquela companhia, ela está sendo exatamente o sacrifício que Madame Blanc busca para projetar Markos no mundo. São projeções lacanianas, igualmente, que ridicularizam o falo masculino em determinado instante do longa-metragem ou, numa das melhores cenas do filme, a embasbacante sequência de uma mutilação corporal sendo orquestrada paralelamente à dança de Susie. Será o filme mais controverso da temporada exatamente por parecer um experimento psicoanalítico, o que soará estéril e mecânico para muitos.


17. Thoroughbreds (Idem. EUA, 2017)

Assim como Kate Can’t Swin, Always Shine, Thelma ou Alena, o filme de Cory Finley explora a paranoia, contando com a força de suas protagonistas, que crescem no ritmo que da tensão da narrativa.


18. Look at Me (Idem. Catar/Tunísia, 2018)

Podemos nos sentir impotente diante de adversidades, sim, mas é como lidamos com elas que nos define em vida. É, ao menos, a mensagem que o diretor Néjib Belkadhi expõe no belo Look at Me, que demonstra a relação do pai com uma criança autista.


19. Caniba (Idem. França, 2017)

Há uma complexidade tão grande em Caniba que qualquer tentativa de taxá-lo de uma coisa ou de outra perderia o impacto da obra dos diretores. Até onde vai o nosso limite? E a curiosidade na repulsa? O prazer ao observar o choque? Por vezes tratado como uma figura fascinante, noutros como um animal de circo, Sagawa parece ser usado pelos realizadores para julgar a imoralidade dos próprios espectadores ao assistir com interesse a crimes, psicopatas, sociopatas e serial killers noutras obras mainstreams. Caniba nos coloca frente a frente com o abominante. Por outro lado, o filme pode servir tragicamente como palanque para uma figura atroz. De qualquer maneira, uma obra rara e que culmina em múltiplos debates.


20. The Road Movie (Дорога. Rússia/Croácia/Sérvia, 2016)

Um documentário que, após soar à primeira vista um experimento sobre pontos de vista diferentes em rodovias, torna-se profundo dentro de sua jornada, a medida que evidencia em suas estradas fatalidades humanas e o contexto atual russo.


21. Como Falar Com Garotas em Festas (How to Talk to Girls at Parties. Reino Unido, 2017)

Raros filmes conseguem equilibrar rebeldia, ingenuidade, doçura e suspense de forma tão bonita. Afinal, a nossa busca e a curiosidade por algo a mais pode nos levar a lugar inimagináveis...


22. John McEnroe: In the Realm of Perfection (L’empire de la perfection. França, 2018)

Se artista e obra muitas vezes se confundem, a visão sobre McEnroe em In The Realm of Perfection entoa que a paixão pelos personagens da arte pode ser maior que a da arte em si. Aqui, tênis e cinema podem se confundir na elegância, no charme e no caráter autoral.


23. Se a Rua Beale Falasse (If Beale Street Could Talk. EUA, 2018)

Aquela obra calorosa e triste que, quando se percebe, já estamos envolvidos profundamente na narrativa.


24. Pantera Negra (Black Panther. EUA, 2018)

Em tempos como o nosso, onde a era da informação nos permite compartilhar pensamentos em microssegundos sobre qualquer coisa, o absolutismo moral com que tudo é encarado nos rende instantes de pura demagogia sociológica. Afinal, enquanto se aplaude o óbvio em discursos feitos para angariar likes e reconhecimento de que, sim, quem escreveu o texto também é uma vítima e também precisa de atenção, o que incomoda não ganha o debate merecido. Por quê? Se fosse fácil debater o sistema que estamos inseridos, ele não seria mais o sistema que estaríamos, certo? Num filme como Pantera Negra, o discurso reducionista de vilões versus mocinhos não é algo buscado. Pelo contrário, Coogler se apoia num debate histórico que já foi o pivô entre dois grandes pensadores americanos modernos: Malcom X e Martin Luther King Jr. Como se confronta a violência social? Com mais sangue ou com discursos de união e paz? Não é uma batalha em que se vê por completo a visão que sairá vitoriosa, pois, de novo, não saem vencedores desse debate. O debate acerca do sistema é mais amplo e busca a erradicação completa de uma cultura separatista.

25. Nasce Uma Estrela (A Star is Born. EUA, 2018)

"Eu só gostaria de olhar para você uma outra vez".


Certas histórias podem conter seus erros (inclusive técnicos, no caso de uma narrativa programada). Mas, quando não sabemos o final de nossa própria história, com pessoas reais e situações reais, filmes como A Star Is Born nos despertam de um coma emocional. E elas podem realmente nos afetar. Cooper se solta apenas pontualmente na direção, mostrando que há, sim, recursos a mais do que o convencionalismo que algumas sequências demonstram. Mas é óbvio que o que ele sabe que tem em suas mãos é a química entre ele e Gaga, além de uma sensibilidade que chega em momentos digníssimos. Assim, até mesmos cenas curtas, como a breve aparição de Dave Chappelle, denunciam raros instantes de felicidade que antecedem os nossos maiores temores: nós mesmos. Gaga e Elliott são brilhantes, e Cooper consegue captar a essência de Strait em Pure Country, com pitadas de John Wayne e Jeff Bridges.


Lista Completa com os 45 melhores filmes de 2018: https://letterboxd.com/clickfilmes/list/the-45-best-films-of-2018/

OUTRAS LISTAS:

Melhores Documentários Lançados em 2018:

https://letterboxd.com/clickfilmes/list/the-best-documentaries-of-2018/


Melhores Terrores Lançados em 2018:

https://letterboxd.com/clickfilmes/list/the-best-horror-movies-of-2018/



DIÁRIO COMPLETO DE 2018, NO LETTERBOXD, COM OS 929 FILMES QUE ASSISTI NO ANO:

https://letterboxd.com/clickfilmes/films/diary/


Aproveitem as festas. Até o ano que vem.

31 de outubro de 2018

Halloween (2018)

Idem, EUA, 2018. Direção: David Gordon Green. Roteiro: David Gordon Green, Danny McBride e Jeff Fradley, baseado nos personagens de John Carpenter e Debra Hill. Elenco: Jamie Lee Curtis, Judy Greer, Andi Matichak, Haluk Bilginer, Will Patton, James Jude Courtney e Nick Castle. Duração: 1h46min.

“Para os padrões atuais, um cara com uma faca matando meia dúzia de pessoas não choca mais.”

       Certos medos nunca morrem. Podemos enclausurar o terror, mantê-lo encolhido no centro de um tabuleiro de um jogo de damas, cujo objetivo é imobilizar a peça inimiga, mas o medo permanecerá lá, mesmo inaudível, esperando o momento certo para ressurgir. Podem-se passar anos, a memória de um trauma jamais apagará. Priorizar-se-á outras coisas, ocultando uma determinada informação por um período de tempo, porém ela jamais morrerá. É o que nos evidencia desde o início o novo Halloween, de David Gordon Green, que está exatamente preocupado em falar sobre como podemos reagir ao episódio traumático. Ilustra-se, por exemplo, o início do longa-metragem entre relógios, tempo e retóricas sobre nossa confiança na mente e nossos sonhos para depois entrarmos no mundo das histórias, das lendas, agora informadas através de um jornalismo contemporâneo. Como entender a fisiologia do mal? No jogo que levou o Dr. Loomis a uma contestação simplista de que Michael Meyers era o estado bruto de tudo que é mal, Green se interessa pelo impacto que o mal gera no agressor e na vítima, priorizando, claro, a segunda. Assim, além de sinistra, a cena em que pacientes dentro de um manicômio começam a gritar ao redor de Michael, o único calado e no centro do quadro, denuncia a força de uma memória traumática e o quanto a máscara pode ser um objeto figurativo do sofrimento humano. 
       Quando Carpenter lançou há 40 anos sua maior obra-prima, Halloween, seu interesse era representar o terror de uma sociedade interiorana americana. O mal poderia vir de onde menos se esperava, o bicho-papão seria um medo adulto e criaria uma identidade duradoura para a cidade atingida. Afinal, certas feridas são demasiadamente adultas. Embora Green aponte as cicatrizes sociais criadas por Meyers pontualmente no longa-metragem, mais nos gracejos do filme (“Sou médico. Tranquem suas portas”), já que há, sim, a população se escondendo em suas casas, encarceradas por vontade própria, enquanto o assassino faz seu banquete; importa muito mais para seu realizador os monstros internos presentes no relacionamento entre mãe/filha/neta. Deste modo, é lindíssimo observar as mudanças de perspectiva que o diretor cria homenageando, ao mesmo tempo, seus personagens com o culto ao filme original. A primeira aparição de Meyers no gramado de uma escola no original, observe, muda para uma Laurie com uma missão, num enquadramento bem similar (ambas as vezes, enquanto um professor discorre sobre destino). No ambiente familiar, aliás, Laurie representa o monstro que não se fala, que permanece fora do ciclo familiar; é ela que toma o lugar de Meyers. 
       Há diferenças entre os monstros que fazem parte de nossa vida – internos, externos, sociais. A família de Laurie carrega gerações traumatizadas por um único monstro, enquanto a avó, que recebeu o maior impacto, passa a ser a referência da experiência emocional que desagrada. Ela lida de formas variadas, como mostra o grito angustiado no carro, o alcoolismo implícito em sua história, o abandono do laço com a filha, e tenta mudar sua narrativa como todos nós gostaríamos: ficando no controle dela. Se tivéssemos a chance de ser o comandante de nossa vida, de usar nosso conhecimento para mudar certas decisões, como faríamos? Se a memória de um trauma é muito mais forte e a avaliação dele é diária, podemos imaginar múltiplas opções. E quando alguém mantém um único encontro na lembrança por 40 anos? 
       Sob esta perspectiva, Green recria os cenários do original com uma lógica brilhante, tal qual Wes Craven havia abordado em Pânico 4. A mudança de agressor e agredido dentro de um certo local. Deste modo, Laurie passa a morar numa casa em que exerce autoridade plena, em ambientes que flertam com os mesmos de 40 anos atrás: o mesmo quarto, o mesmo guarda-roupas, a mesma situação, só que, agora, é ela que porta uma arma e procura seu monstro, é ela que alimenta vingança, é ela que está atrás de algo. A rima visual com Laurie sendo atingida e caindo da sacada, de onde Michael cai no primeiro filme, espelha muitíssimo bem essa sagacidade do roteiro. Laurie passou a ser o monstro que persegue o seu próprio. Em determinado momento, essa proposta é tão grande que a própria neta grita ao se deparar com a personalidade da avó diante de um campo de bonecos mortos. A família, novamente, é o tema central de Halloween. No presente, com três gerações distintas conhecendo Meyers, ligadas pelo sangue. 
      Mas como reconstituir essa história? O roteiro trabalha neste aspecto desde a primeira cena, como dito, quando o tempo e a informação é tratada de maneira vital para o retorno dos monstros em Haddonfield. Adiante, Green explora o passo a passo. Perceba a história começando a ser contada novamente no cemitério e Meyers surgindo ao fundo, atrás de uma árvore. Aos poucos, a lenda buscada pelos jornalistas começa a reviver, culminando na magnífica cena do posto, onde a sombra de Meyers é vista ao fundo, num jogo de foco excepcional (e que lembra muito Henry – Retrato de um Serial Killer), cuja presença do assassino só se mostra na sugestão da sombra dele e do som de uma ferramenta caindo no chão, após a morte de um mecânico; além de uma van que sinaliza exatamente a palavra: “ressurreição”. As rimas visuais com os primeiros filmes, como a recriação da cena no banheiro do posto, geram profundidade, assim, com os jornalistas dando literalmente a vida para a história ganhar contornos. 
       Nas perspectivas multilaterais da história, Meyers saindo pela porta da frente de uma casa com a bandeira dos EUA na fachada, analisando as pessoas vivendo entre travessuras e gostosuras na noite de Halloween, dialoga com os monstros que não falamos. Cenas impactantes, como quando o espectador estuda os movimentos de Meyers do vidro da sala até a vítima ser esfaqueada quando baixa a persiana, para ninguém perceber o que está acontecendo ali, ou o assassino no armário de uma casa, esperando para aparecer para quem abri-lo, são mais do que cinemáticas. Elas exprimem um valor narrativo invejável para um subgênero como o slasher.
       Um subgênero, veja só, popularizado há cerca de 40 anos e que se tornou, aos poucos, apenas uma memória cinematográfica distante. Sem o impacto das primeiras experiências e mortes. No novo Halloween, portanto, David Gordon Green não apenas dá voz e vida a um dos personagens mais icônicos da história do cinema de horror, mas também resgata uma fórmula esquecida. Provando que, tal como os monstros que assombraram Laurie Strode por 40 anos, certos medos não morrem. Lendas, memórias, não morrem. Elas ficam. Esperam voltar para a sociedade. Não importa o tempo que elas fiquem deixadas de lado, elas voltarão algum dia. Mesmo que as queimemos em uma gaiola, nós sabemos: o horror sobrevive.

5 de março de 2018

A Trama Fantasma

Phantom Thread, Inglaterra/EUA, 2017. Direção: Paul Thomas Anderson. Roteiro: Paul Thomas Anderson. Elenco: Daniel Day-Lewis, Vicky Krieps, Lesley Manville, Sue Clark, Brian Gleeson. Duração: 2h10min.

"Em resumo, a pessoa amada deixou de ser apenas uma instância exterior, para viver também no interior de nós, como um objeto fantasiado que recentra nosso desejo, tornando-o insatisfeito no limite do tolerável. O ser que mais amamos continua sendo inevitavelmente o ser que mais nos insatisfaz."
J. D. Nasio, O Livro da Dor e do Amor


Tolstoi escreveu que nosso maior erro é confundir o belo com o que é realmente bom. O autor destacava em seu livro a dualidade entre a vida e a morte, além do nosso interesse por apegos momentâneos. Sobre fascínios bruscos. E como nossa percepção pode se tornar evidentemente cega num espaço curto de tempo.

O apreço pelo controle sempre foi um assunto que interessou muitos psicanalistas. O princípio do masoquismo, ou sado, foi visto por Nasio não como perversão, mas como pulsão, onde as duas partes se sentem vítima/autor. Orientados por um espalho de dor intimista, em que o autoinfligimento é uma maneira de contestar o que lhe reprime, de se sentir, de alguma forma, vivo.

Em A Trama Fantasma, a nova obra-prima de Paul Thomas Anderson, há uma adaptação cirúrgica sobre o paradoxo de amar quem nos faz mal. De amar quem lhe machuca. Anderson nos leva até o mundo do sadomasoquismo, mas releva a sexualidade e se interessa primordialmente pelo psicológico. Não é o glamour o êxtase, mas a falta dele.

Conhecemos, assim, Reynolds Woodcock (de sobrenome cínico), um renomado estilista, de acordo com seus caprichos e sua rotina. Sua intenção, embora seja explorar a felicidade do outro e por consequência sua própria, é "costurar" uma mulher perfeita. Suas amantes são caprichos e ostentações. Feitas conforme sua vontade. Quando Alma Elson lhe chama atenção, entretanto, com seu jeito desajeitado, a quebra das molduras pragmáticas do estilista se torna sintomática.

Se em um primeiro momento, observamos a paixão e admiração cegas despertadas pelo novo amor entre eles, logo, a devoção de Alma vira confrontadora, já que, como Anderson evidencia, o amor faz com que queiramos moldar a pessoa conforme nossa própria vontade, queiramos que a pessoa que amamos seja a melhor possível e o confronto sirva para mostrar para ela o caminho que ela pode tomar a partir daí. Nem sempre o mais sábio? Talvez, mas isso não importa, pois a humanidade é egoísta, na visão de PTA.

Quando Alma percebe uma oportunidade de ser importante na vida de Reynolds, ela agarra. Porque, assim como ele, ela quer estar no controle de tudo. Moldar seu relacionamento. Costurá-lo. Vicky Krieps é um assombro e desnuda completamente o tormento de Alma em sua obsessão por Reynolds. Ainda mais impactante que Rosamund Pike, em Garota Exemplar, o diálogo que a atriz tem com Lewis durante o clímax, expondo o que espera que seu marido seja para ela, um dependente contumaz, é de uma vitalidade ímpar. Da mesma forma, a confiança de Lesley Manville durante a narrativa jamais perde a intensidade. Mas é, claro, Daniel Day-Lewis, que projeta em Reynolds Woodcock um homem entre o absoluto e a renúncia do autocontrole, o nosso principal contato com o horror da narrativa pessimista de Paul Thomas Anderson.

O horror de sentir ao invés de pensar, o horror de ser vulnerável, de ser humano, o horror de só sentir prazer na dor, o horror de amar quem nos açoita. Tal qual mãe!, de Aronofsky, nos deixou perplexos e amargurados com o que acontecia dentro daquela representação da humanidade, Paul Thomas Anderson vai pelo mesmo caminho tortuoso e indica pessimistamente o que faz com que digamos sim ao amor e à dependência emocional. Uma patologia muito além do que poderíamos pressupor. 

2 de março de 2018

Os 25 Melhores Filmes Nacionais de Terror


Terror nacional? Sim. Embora nunca tenha sido um gênero tão popular no país (até José Mojica Marins era mais aclamado na Europa do que no Brasil), o horror começou a despontar como um dos favoritos de diretores iniciantes. Nos últimos anos, canais foram feitos para focar apenas no gênero e alguns dos nomes mais famosos do horror nacional provém de curtas-metragens, um canal ideal para uma aproximação inicial com um determinado público. Em 2013 e 2016, por exemplo, diretores como Dante Vescio, Rodrigo Gasparini e Dennisson Ramalho apareceram no cenário internacional com segmentos para a famosa franquia O ABC da Morte. O terror nunca esteve tão em alta no Brasil.

Ok, mas, então, existem filmes do gênero sem ser os de Zé do Caixão? Existem, e são muitos. Após as primeiras aventuras de Zanatas, o cinema marginal brasileiro também usou o horror de trampolim para suas críticas sociais/políticas.  

A seguir, eu listei as minhas 25 produções favoritas do gênero no país. Uma lista que, claro, poderá ter futuros acréscimos. 


25. Proezas de Satanás na Vila de Leva-e-Traz (Dirigido por Paulo Gil Soares, 1967)




Muitos dos filmes da década de 60 e 70 que se aventuraram pelo gênero vinham do cinema marginal brasileiro, onde serviam como plataforma para monólogos políticos. Proezas de Satanás caminha por esta ótica: a do caminho profano. Na história, o diabo para em uma cidadezinha do interior de Minas, quando o último padre da cidade anuncia que está indo embora. Uma das maiores proezas do filme (com o perdão do trocadilho) é a música de Caetano Veloso, que fornece romantismo a uma obra que deve muito a ela, principalmente nos dois primeiros atos, antes de encontrar a sua crítica mordaz, com o Satanás virando político.

24. Cianose (Dirigido por Matheus Strelow, 2014)


Um caso comum. Uma menina morta. Um dossiê policial acerca do caso. Com uma série de fotografias still, Strelow monta um curta suficientemente mórbido.


23. As Fábulas Negras (Segmentos de Rodrigo Aragão, José Mojica Marins, Joel Caetano, Petter Baiestorf e Marcelo Castanheira. 2014)




Antologia de quatro histórias, onde Aragão conseguiu chamar alguns dos maiores expoentes do horror nacional. A melhor história é de Petter Baiestorf, Pampa Feroz, que apresenta uma narrativa finíssima de lobisomem.

22. Kassandra (Dirigido por Ulisses da Motta. 2013)


Horror que se passa em porto-alegre, aborda uma menina com agorafobia e a sua completa ausência de comunicação. O maior destaque é a performance de Renata Stein, que eleva sua desordem até ela se tornar palpável ao público e formar sua fonte de defesa.

21. Mangue Negro (Dirigido por Rodrigo Aragão, 2008)



É o primeiro longa-metragem de Aragão. A primeira parte de sua trilogia pantanosa. Na narrativa, à la Sam Raimi, zumbis canibais começam a atacar uma pequena e isolada comunidade de pescadores.

20. O Membro Decaído (Dirigido por Lucas Sá. 2012)


Sá trabalha no campo das limitações. Ele que delimita o que o espectador pode ou não ver. Nesta simplicidade, a tensão reside nos detalhes.

19. O Anjo da Noite (Dirigido por Walter Hugo Khouri, 1974)


Tentando se distanciar tanto  do trabalho que Mojica havia feito até então quanto do que havia sido proposto no cinema marginal, O Anjo da Noite é um sopro de novidade nos anos 70 para o horror brasileiro, que cria sua própria versão de A Volta do Parafuso. 

18. O Duplo (Dirigido por Juliana Rojas. 2012)



Tal qual o curta-metragem Religare, o filme de Juliana Rojas explora o tormento de uma professora numa sala de aula, que certo dia percebe que há um duplo dela tomando seu lugar.

17. O Estranho Mundo de Zé do Caixão (Dirigido por José Mojica Marins. 1968)


Mais um capítulo da saga do Zé. Aqui, uma compilação de três histórias de horror, onde canibalismo e sadomasoquismo são alguns dos temas de Mojica, cada vez mais insano e interessado nos limites do audiovisual.

16. A Menina do Algodão (Dirigido por Kleber Mendonça Filho e Daniel Bandeira. 2003)


Uma história simples sobre assombração em banheiro de escola. Nas mãos de diretores que sabem absorver terror da simplicidade.

15. O Terno do Zé (Dirigido por Fabiano Soares. 2015)


Quando a tensão, o medo e a história superam a linguagem ainda amadora, o resultado é um filme como O Terno do Zé, que tive a oportunidade de assistir pela primeira vez em 2015, quando votava em um festival. O clímax de Fabiano Soares é assustador.

14. Um Ramo (Dirigido por Marco Dutra e Juliana Rojas. 2007)


Um dos aspectos mais interessantes de Dutra e Rojas sempre foram as tonalidades de traumas emocionais. Aqui, a visão é a de uma mulher que começa a observar algo nascendo em seu corpo.

13. Encosto (Dirigido por Joel Caetano. 2013)


Com montagem do grande Rodrigo Aragão, o filme de Joel Caetano capta o misticismo religioso com uma classe invejável. 

12. A Pata do Macaco (Dirigido por Ademar Guerra. 1983)


Um inesquecível Mario Lago é o companheiro de Nathalia Timberg, que formam um casal que mora em um cortiço ao lado de um cemitério. Eles veem na chegada de uma família com dificuldades financeiras a oportunidade de passar adiante um amuleto mágico, a pata de um macaco, que dá a chance de fazer três desejos. A história é um clássico da literatura gótica britânica, de W. W. Jacobs. 

11. O Segredo da Família Urso (Dirigido por Cintia Domit Bittar. 2014)


E se escondêssemos um dos períodos mais aterrorizantes de nossa história, como se ela fosse uma memória esquecida, empoeirada, coberta por falsos bonecos e brinquedos? Se tudo não passasse de uma grande metáfora para uma juventude curiosa e inquieta? E o nosso pai representasse o estado opressor? A mãe, a negligência? A talentosa Cíntia Domit Bittar nunca esconde o jogo em O Segredo da Família Urso. Sabe que seu terror e suspense não se faz de sustos, mas hipnotiza pela realidade.

10. Mate-me Por Favor (Dirigido por Anita Rocha da Silveira. 2015)


Bia é uma personagem fascinante. Dona de uma curiosidade mórbida e sempre dividida entre a inocência e a malícia (perceba o quarto da menina, após uma transa, por exemplo – de um lado ursos de pelúcia e no outro um crânio), a protagonista nos leva com naturalidade para caminhos comportamentais obcecados pela carne.  

9. Sinfonia da Necrópole (Dirigido por Juliana Rojas. 2014)


- Você vai morrer um dia.
- Mas quando, padre? Por favor, quando?!

Dono de uma irreverência já presente no argumento (estamos falando de um musical com coveiros), Sinfonia da Necrópole cresce a cada revisita.

8. Quando Eu Era Vivo (Dirigido por Marco Dutra. 2014)


Quando escrevi sobre o excepcional Trabalhar Cansa, em 2011, eu apontei que o mais impressionante da estrutura narrativa criada por Juliana Rojas e Marco Dutra era a vantagem de ser praticamente um drama travestido de horror. Afinal, os temores do público eram provenientes da dose dramática depositada na realidade que a protagonista vivia. O terror não era definido pelo gênero, mas pelos acontecimentos familiares no roteiro. No seu primeiro longa-metragem solo, Dutra não rompe a barreira entre o sobrenatural e o real, mostrando-nos desde o princípio qual a sua proposta: o caminho que percorreremos não é seguro ou convencional, mas nem por isso imprevisível ou inverossímil. Um dos melhores terrores brasileiros já produzidos.

7. Ninjas (Dirigido por Dennison Ramalho. 2011)


Algumas das melhores cenas da filmografia de Ramalho (talvez todas elas) estão aqui, em Ninjas. Um filme em que seu protagonista tem que lidar com o fato de ter se tornado um monstro.

6. As Filhas do Fogo (Dirigido por Walter Hugo Khouri. 1978)


O horror de As Filhas do Fogo, de Khouri, reverbera na solidão humana de sua trama. De sua ótica melancólica. Na história, Diana volta para casa de campo de sua família, após anos, e se vê diante de memórias tormentosas e também se vê diante do que se tornou, numa obra que passeia pelo terror gótico, por liberdade e sexualidade. É o melhor filme de seu diretor.

5. Vinil Verde (Dirigido por Kleber Mendonça Filho. 2004)


Possivelmente, uma das sequencias mais marcantes da filmografia de Kleber é a do canto angustiante das luvas verdes. Amante do gênero, todos seus filmes possuem cenas de medo, mas nenhum deles tem sequencias assustadoras como esta fábula infanto-juvenil.

4. A Meia Noite Levarei Sua Alma (Dirigido por José Mojica Marins. 1964)


O primeiro marco do cinema de terror brasileiro. Se o terror brasileiro formar uma espécie de Monte Rushmore algum dia, a face de Mojica deverá ser a primeira a ser esculpida. Na sua zombaria ao cristianismo e as tolices místicas, o cineasta se interessa em destacar as sandices populares brasileiras e como reagimos a elas.

3. Mar Negro (Dirigido por Rodrigo Aragão. 2013)


No seu passeio pelo trash, Aragão se inspira em Raimi e Romero para entregar o melhor filme da trilogia.

2. Trabalhar Cansa (Dirigido por Marco Dutra e Juliana Rojas. 2011)


Um filme que fala acima de tudo sobre o horror capitalista de jamais saber o futuro de sua saúde financeira. "Não toca nisso, isso é sujo", diz a mãe para a filha que mexe com o dinheiro do caixa. O terror familiar de Dutra e Rojas é puramente socioeconômico.

1. Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver (Dirigido por José Mojica Marins. 1967)


Para mim, a obra-prima do terror nacional. No segundo filme do personagem imortalizado por Mojica, o diretor se sente mais livre ao explorar o cinismo acerca de superstições e da natureza humana. Algumas das melhores sequências de sua filmografia estão aqui, inclusive, com direito a animais peçonhentos e o inferno na mente de Josefel Zanatas. Um clássico. 


Bons filmes. Até breve.

26 de fevereiro de 2018

Pantera Negra

Black Panther, EUA, 2018. Direção: Ryan Coogler. Roteiro: Ryan Coogler e Joe Robert Cole, baseado nos personagens de Stan Lee e Jack Kirby. Elenco: Chadwick Boseman, Michael B. Jordan, Lupita Nyong'o, Danai Gurira, Martin Freeman, Daniel Kaluuya, Letitia Wright, Winston Duke, Sterling K. Brown, Angela Bassett, Forest Whitaker e Andy Serkis . Duração: 2h14min.

"Talvez a proximidade da morte seja necessária para que se tenha a indispensável liberdade de abordar o assunto."

Carl Jung

"Diga-me, então: que poder teria a Morte, se depois que te fosses, a posteridade lhe deixasse viva?"

Shakespeare


"A mais perigosa criação no mundo, em qualquer sociedade, é um homem sem nada a perder,"

Malcom X


"Dê o primeiro passo. Não é necessário que você consiga visualizar toda a escada, apenas dê o primeiro passo."

Martin Luther King Jr.

Em tempos como o nosso, onde a era da informação nos permite compartilhar pensamentos em microssegundos sobre qualquer coisa, o absolutismo moral com que tudo é encarado nos rende instantes de pura demagogia sociológica. Afinal, enquanto se aplaude o óbvio em discursos feitos para angariar likes e reconhecimento de que, sim, quem escreveu o texto também é uma vítima e também precisa de atenção, o que incomoda não ganha o debate merecido. Por quê? Se fosse fácil debater o sistema que estamos inseridos, ele não seria mais o sistema que estaríamos, certo?

Um documentário poderoso lançado em 2016 chamado Hypernormalisation falava exatamente sobre esse nosso apego por tentar resolver sintomas para não ter que lidar com a doença elementar. Que se nos forçássemos a apontar para as sequelas pareceria de alguma forma que estávamos nos preocupando em solucionar o todo; quando, na verdade, o ciclo se mantinha intacto e, inclusive, ainda mais solidificado, já que o sistema precisa manter as mentes ocupadas. Com a raiva cada vez mais acentuada e sem um direcionamento pragmático, medido quanto a raiz do sistema, os discursos de mudança se enfraqueciam na mesma intensidade com que eram vociferados. Passeatas eram feitas, mas sem saber bem para onde ir. E como toda a estrutura sem líderes, os aproveitadores mudavam o tom do discurso bem intencionado por algo mais nocivo. O diretor Adam Curtis pegava principalmente o exemplo da Primavera Árabe para expor sua tese.  

Neste ano, inclusive, um dos maiores exemplos quanto ao maniqueísmo raso praticado pelo absolutismo moral que tomou conta do nosso debate social foi a recepção unilateral de um filme tão complexo quanto Três Anúncios Para um Crime, que ao abdicar de fazer uma história com heróis e vilões e expor uma realidade em que todos são falhos de caráter e tentam apenas ser o melhor que podem naquele mundo em que foram criados, na qual todos são vítimas de um sistema cultural racista e misógino, despertou um discurso fácil que apenas aponta o problema sem saber muito bem o que quer dizer com aquilo. "Aquilo é ruim, pois aquelas pessoas, ahn, são ruins. E você não pode dar um final feliz para pessoas ruins, certo?!". Novamente: é fácil aplaudir o óbvio. Mas e quanto a debater o que nos deixa incomodados? É tão fácil quanto?

Num filme como Pantera Negra, o discurso reducionista de vilões versus mocinhos não é algo buscado tampouco. Pelo contrário, Coogler se apoia num debate histórico que já foi o pivô entre dois grandes pensadores americanos modernos: Malcom X e Martin Luther King Jr. Como se confronta a violência social? Com mais sangue ou com discursos de união e paz? Não é uma batalha em que se vê por completo a visão que sairá vitoriosa, pois, de novo, não saem vencedores desse debate. O debate acerca do sistema é mais amplo e busca a erradicação completa de uma cultura separatista.

Tal como Malcom X e Luther King, a busca de  T'Challa e Killmonger talvez seja a mesma, os caminhos que se tornam opostos – a conciliação contra a guerra. Coogler age consciente sobre a natureza do seu discurso e não cai na armadilha de estabelecer vínculos completos com apenas uma das partes. Evidencia que há discursos coerentes com a natureza de vida daquelas pessoas. Independente de suas oposições. O prazer pela violência de Killmonger é visto nos detalhes, como um sorriso em um determinado momento de uma luta. E não à toa, o seu momento mais belo é quando forçado a encarar o fim, ele estabelece uma conexão final com o que lhe trouxe até ali: a memória de seu pai.

Ao mesmo tempo, é muito atraente a visão de Coogler em colocar o debate central na visão de primos. Não é preciso que Ulysses Klaue (Serkis, divertidíssimo) seja o antagonista para a questão racial ser um objeto de análise. O diretor deixa claro que o conceito é outro. Que estamos falando de indecisões na própria maneira de agir dentro de um espectro racial. Ele fala sobre raça sem que precise dizer que está falando sobre raça. Assim, a sutileza moral de Pantera Negra chega no auge quando, diante do caos, as pessoas têm que lidar com posicionamentos sociais premeditados: ajo pelo meu país ou por meu país?

Pantera Negra, afinal, é um filme sobre tradição e reverência (a cena em que T'Challa desce de sua nave para uma cerimônia é uma das mais bonitas que o mundo Marvel já nos proporcionou), mas também sobre conceitos racionais. Wakanda representa um sistema. T'Challa e Killmonger representam ideias. Sim, talvez algumas ideias acabem morrendo, por um bem maior, na percepção de Coogler. Mas não deixam de ser necessárias para o debate.