27 de fevereiro de 2012

Cada um tem a Gêmea que Merece

 



Jack and Jill, EUA, 2011. Direção: Dennis Dugan. Roteiro: Adam Sandler e Steve Koren. Elenco: Adam Sandler, Al Pacino, Katie Holmes, Elodie Tougne, Rohan Chand, Eugenio Derbez e David Spade. Duração: 91 minutos.

Quando escrevi sobre Norbit em 2007, disse que o filme representava o fundo do poço de um ator que perdeu o rumo de sua carreira e que começara a apelar para um humor gratuito, ofensivo e repugnante. Em “Cada um tem a gêmea que merece”, Sandler quer testar uma alternativa a Norbit e produz o que talvez seja seu pior filme, unindo escatologia, preconceitos disfarçados de piadas, estupidez e retardo mental e social de seus protagonistas.

Escrito pelo próprio Sandler e Steve Koren, a “história” gira em torno de Jack (Adam Sandler) que mora em Los Angeles com sua esposa Erin (Katie Holmes) e os filhos. Jack é um “publicitário de sucesso”, mas sua vida muda radicalmente durante a comemoração do Dia de Ação de Graças quando recebe a visita de sua irmã gêmea, Jill, uma grosseira moradora do Bronx.


Demonstrando toda a insegurança e completa incoerência desde o começo do longa, com um tipo de falso documentário, Sandler não apenas é estúpido na grosseria de sua narrativa, como nem sabe como ser grosseiro. Assim, o único objetivo do prólogo com os gêmeos, acaba sendo mostrar que existem irmãos tão idiotas quanto aqueles vividos por Sandler – como quando um dos gêmeos brinca com o fato de ter um rim sempre disponível ou nos irmãos que fazem sons de baleias.

Da mesma forma, chega a ser notável o talento de Sandler para o absurdo, quando vemos nos créditos iniciais os gêmeos crescendo e a menina (bebê) apalpando a bunda do irmão ou, noutra cena, as duas crianças com a bunda de fora. Assim como, a fase pré-adolescente dos dois é mostrada sempre tratando Jill como uma garota insuportável e mesquinha, além de salientar a grosseria da garota quando ela passa na frente da câmera mostrando os pêlos nas axilas, muito mais desenvolvidos que o do irmão.  

Não satisfeito, Sandler, como todo diretor/roteirista com incompetência para comédia, utiliza cenas escatológicas a todo o momento sem nenhum tipo de pudor – e basta observar que até o comercial que mostra o “publicitário de sucesso” que Jack é, fala sobre diarréia ou nas flatulências soltadas na patética cena do cinema.

Como se não fosse o bastante, é ainda mais bizarro ver Sandler rindo e apontando para as próprias piadas, como se fosse um adolescente no colegial tentando impressionar os amiguinhos. Assim, o filme quase consegue ser engraçado em cenas que Jack fala sobre anti-semitismo ou outros assuntos politicamente incorretos e sempre trata de exclamar suas surpresas como se ele se achasse muito inteligente por estar brincando com aquilo. Note, por exemplo, quando um personagem fala sobre a esposa de Jack não gostar de judeu e Sandler responde “Uau, isso foi anti-semita" ou quando o ator tenta lembrar o episódio envolvendo Michael Richards. Da mesma forma, Sandler chega a ser tão infantil que tenta disparar contra o espectador tudo que possa soar como algo polêmico, como na cena do jantar em que Jill começa a dizer: “Você é um sem-teto, não, você é um gordo, não, você é da Al-Qaeda!”.

Aliás, surpreende que Sandler não use piadas como “você é tão gordo que...” durante a narrativa, já que até quando fala sobre o ateísmo de um personagem, os outros adolescentes da festa de Jack começam a gritar com ele e sugerir quase num clima de recreio estudantil: “Briga, briga, briga!”. Em contrapartida, mesmo que Sandler não utilize esse tipo de piada de maneira demonstrativa, elas estão lá – observe, por exemplo, quando Jill pergunta o que é Skype, algo que certamente poderia ser trocado por: “Você é tão burra que não sabe diferenciar um Skype de uma calculadora”.

E enquanto Adam Sandler cria Jack como um sujeito abobado e que parece ser a mesma versão de pai de família dos outros filmes do ator (infantil, não quer assumir grandes responsabilidades e tem algum problema com algum familiar), Jill surge como Sandler de peruca. Chorona, insuportável, resmungona, preconceituosa, com sérios problemas mentais e sem nenhum timing, Jill representa tudo de pior nas comédias de Sandler, Murphy e outros. Assim, sempre soa normal a ignorância marcante da personagem quando insiste em dizer que não é tal filme (algo que se repete tanto na narrativa que é certo que Sandler deve ter achado muito engraçado) ou quando anda de Jet Sky em uma piscina.

Mas é ao final do filme, depois de fazer um comercial para o personagem de Sandler dançando e cantando, que surge o momento mais genuíno e honesto do longa nas palavras de Pacino para Jack: “Queime isso. Isso nunca deve ser visto por ninguém”. E, certamente, quando, noutro momento da narrativa, Jack diz rindo “Vai ser uma péssima noite. Vai ser uma péssima noite”, é uma pena que não tenhamos percebido que aquele aviso era para nós. 

4 comentários:

Eduardo Monteiro disse...

Nossa, a parte em falso documentário é realmente deplorável. Fiquei esperando que surgisse alguma lógica, ou que tivesse alguma graça, mas foi difícil. E aquela última cena, depois dos créditos finais, com um cara gordo "inflando" a própria barriga?! Muito nada a ver.

Marcelo Zaniolo disse...

Fico feliz em saber que não fui o único a "abominar" esse filme. Fui com amigos ao cinema e sai de lá taxado de "sem humor", crítico excessivo, enfim...

Pior filme do ator / diretor, uma das piores e mais má escritas comédias que vi na vida. É um filme que merece todas as suas críticas e todas as "Framboesas de Ouro".

Abraço.

Charles disse...

Mas esse filme entrou pra história por ter ganho todos os prêmios do Framboesa de Ouro. Acho que muita gente vai querer assistir e tentar encontrar todos esses méritos artísticos dessa obra.

Anônimo disse...

Ingênuo e estúpido,além de preconceituoso; essas são as principais características desse deplorável filme de comédia(o pior que eu já vi na vida),além de não ensinar nada ao nossos jovens,valoriza o preconceito,como se fosse algo correto.