25 de janeiro de 2013

João e Maria: Caçadores de Bruxas

Hansel & Gretel: Witch Hunters, EUA/Alemanha, 2013. Direção: Tommy Wirkola. Roteiro: Tommy Wirkola e Dante Harper. Elenco: Jeremy Renner, Gemma Arterton, Famke Janssen, Pihla Viitala, Ingrid Bolso Berdal, Peter Stormare, Rainer Bock, Thomas Mann e Derek Mears. Duração: 88 min.

Nos últimos anos, a quantidade de filmes que tentaram adaptar contos de fadas para um clima soturno foi assustadora. A qualidade, idem. Obras catastróficas como Espelho, Espelho Meu, Branca de Neve e o Caçador, A Garota da Capa Vermelha, Alice e tanta outras tomaram as telas de assalto; sim, roubando nosso dinheiro e paciência para tramas grotescas e absurdas. Assim, todo ano que surge uma nova, como o caso deste João e Maria: Caçadores de Bruxas, uma nova apreensão se instala. Tommy Wirkola até não é dono de sequências tão bisonhas quanto as de seus companheiros de gênero, mas também nunca se mostra inspirado ou tenta fugir do convencional.

Escrito por Tommy Wirkola e Dante Harper, quinze anos depois de um traumático evento ocorrido em uma casa feita de doces que era controlado por uma bruxa má, dois irmãos (que se chamam Hansel e Gretel no conto original) tornaram-se caçadores de bruxas que viajam pelo mundo identificando e matando os tais seres. Neste percurso, ambos chegam a uma pequena cidade onde já desapareceram quase doze crianças e se veem inseridos em uma trama (para não variar!) que não estão acostumados.

Não sabendo se investirá em uma trama mais madura e assustadora ou apenas tratará de evidenciar diálogos que já conhecemos há séculos (“Aqui só há morte”, “Bruxa boa é bruxa morta”, “Só pode ser brincadeira”, “Atire no que se mover”), Wirkola transparece bastante sua indecisão já em sua primeira cena. Desta forma, captamos bem o ambiente assustador em que os dois irmãos chegam – uma casa de doces envolta em uma escuridão intimidante e que só chama a atenção pela fome em que eles se encontram –, mas deprimimos, quando notamos as piadinhas deslocadas e tolas que começam a entrar na narrativa (“Está quente agora?”). Seguindo a lógica, também não fica difícil de adivinhar cada passo que será tomado e observar que cada um (tristemente) terá seu interesse romântico para atrasar mais ainda uma trama que poderia ser contada em um curta-metragem.

Ao mesmo tempo, o diretor parece entender que cenas de ação só apontam para cortes rápidos e inúmeras metralhadoras, além de não saber nem situar adequadamente seus personagens em cena durante as batalhas (note a posição de Ben, por exemplo). Do mesmo modo, o 3D, aparentemente, apenas serve para jogar objetos em direção da plateia. Em contrapartida, Wirkola sobra em eficiência na elipse ocorrida nos créditos iniciais ou na boa sequência em que um ogro esmaga uma cabeça com as mãos e pisa noutra com os pés. Ou até mesmo na história dos pais ao calor do fogo.

E se Famke Janssen está risível no papel de antagonista, Renner e Arterton inauguram uma nova categoria neste tipo de obra: protagonistas menos carismáticos e competentes que um ogro – pois, visivelmente, é o único personagem que possui algum conflito interno.

João e Maria: Caçadores de Bruxas até tenta fugir um pouco do tom disforme e embarcar numa atmosfera que não se leva a sério (afinal, um toca discos e metralhadoras automáticas surgem na trama!), mas o máximo que acaba soando é como algo que Zeca Pires faria se tivesse um grande orçamento.
                                 

24 de janeiro de 2013

Django Livre

Django Unchained, EUA, 2012. Direção: Quentin Tarantino. Roteiro: Quentin Tarantino. Elenco: Jamie Foxx, Christoph Waltz, Leonardo DiCaprio, Kerry Washington, Samuel L. Jackson, James Remar, Walton Goggins, Dennis Christopher, Don Johnson, Nichole Galicia. Duração: 165 min.

Pulp Fiction, Bastardos Inglórios, Cães de Aluguel, Kill Bill, À Prova de Morte, Taratino sempre foi respeitado e admirado pela quantidade de sangue jorrando em tela e por inúmeras gags que criava a partir de temas incomuns e irreverentes. Fez seu nome em chacinas sisudas que, se nunca soavam absurdas demais, era justamente pela natureza estranha do próprio. Em Django Livre, o diretor até busca evidenciar as qualidades que seus fãs sempre procuram, mas acaba saindo algo muito mais infantilóide e grotesco do que o sarcasmo brilhante de antigamente.

Escrito e dirigido por Quentin Tarantino, a história acompanha um caçador de recompensas alemão, Dr. King Schultz (Waltz), que está em busca de três irmãos assassinos e conta com a ajuda de um escravo, Django (Foxx), para reconhecê-los. O doutor promete a libertação de Django se este ajudá-lo, além de uma parte do prêmio. Logo, ambos viram parceiros e vivem  matando os criminosos mais perigosos do sul dos EUA. Ao mesmo tempo, os dois procuram o paradeiro da mulher de Django, o que os leva até a fazenda de Calvin Candie (DiCaprio)...

... que é o lugar onde ocorrerá a “ação” desenfreada. Claro que neste meio tempo iremos ver situações surreais e gracejos espalhados pela narrativa, mas geralmente acaba soando como se estivéssemos vendo um remake de A Vida de Brian. Note, por exemplo, a cena da conversa entre os homens encapuzados (que aparece como uma espécie de Ku Klux Klan), onde os “assassinos” param a ação por se sentirem sufocados pelos capuzes. Da mesma forma, Tarantino só parece interessado no choque: seja no figurino destoante de Foxx em determinada cena, nas mortes (como não citar a dos cachorros?) ou nos zooms de aproximação.

E se noutros filmes Sally Menke conseguia esclarecer a visão de Tarantino de uma forma curiosa e orgânica, o mesmo não pode se dizer de Fred Raskin – responsável por um dos fatores mais críticos do longa-metragem. Neste caso, observe a forma como somos introduzidos ao passado dos personagens (quase sempre após alguém ser visto pensando sobre o acontecimento) ou como soa completamente desconexo a maneira como “Hilde” apresenta-se. Aliás, provavelmente, o único momento em que Raskin acerta é no momento em que DiCaprio discorre sobre negros excepcionais, intercalando com ações de Django.

Em contrapartida, Tarantino mostra elegância na maneira como o sangue atinge as flores ou no modo em que ele confirma seu protagonista como uma espécie de salvador – a cena do chicote é um belo símbolo. Porém, ao mesmo tempo, sai-se extremamente nonsense nas aparições de Broomhilda durante o percurso. Todavia, se o diretor parece perdido em como almeja guiar seu filme, o elenco praticamente afasta qualquer dúvida que o longa forneça.

E se Jamie Foxx não possui expressão alguma na pele de Django, DiCaprio e Jackson são bastante eficientes como antagonistas. Desde o gestual físico até a mentalidade social, ambos mostram suas desumanidades de forma certeira. Vale ressaltar aqui o rosto inerte e interessado de DiCaprio durante uma morte ou a explosão durante a negociação dos escravos. Gostaria também de dar um adendo, se me permitirem, a uma decisão narrativa de Tarantino: por que mostrar a conversa entre DiCaprio e Jackson em vez de deixar o espectador tão inseguro e tenso quanto Foxx e Waltz? Falando nele, é Waltz que é o grande destaque do filme e carrega boa parte dele nas costas. Criando uma figura com um timing genial (“Não consegui resistir!”, “Está meio tenso lá fora!” ou “Agora é a hora de chamar o capitão!”), o ator parece se divertir a cada frase que pronuncia. Não só em momentos espirituosos, mas, em cenas dramáticas, também é hábil – aqui, analise o olhar doloroso e assustado de Waltz quando este vê uma morte bastante bárbara.

No fim, chega a ser conveniente, muito mais que a aparição de Tarantino na sequência final, quando Jamie Foxx indaga Waltz: “Espera aí, você ganha prêmios por matar pessoas?”. Pois, assim como em Bastardos Inglórios – no qual o personagem de Pitt serviu como um alter ego do diretor -, ecoa como uma sentença bem pertinente à carreira de Quentin Tarantino. Mesmo que em seu caso não sejam pessoas, mas personagens.

                                 

23 de janeiro de 2013

Amor

Amour, França/Alemanha/Austria, 2012. Direção: Michael Haneke. Roteiro: Michael Haneke. Elenco: Jean-Louis Trintignant, Emmanuelle Riva, Isabelle Huppert, William Shimell, Alexandre Tharaud, Carole Franck, Dinara Drukarova, Rita Blanco e Ramón Agirre. Duração: 127 min.

Dono de uma (invejável) filmografia, que envolve obras como A Fita Branca, as duas versões de Violência Gratuita, Caché e A Professora de Piano, Michael Haneke não é um diretor convencional. Abordando seus longas sempre com um invariável pessimismo, onde o cinema não surge como um escape da realidade, pelo contrário, pode desenvolver um sentimento ainda mais perverso, sua assinatura é mais uma vez reconhecida em Amor. Em seu novo filme, o diretor discorre sobre o amor de uma maneira intrigante: até onde o ser humano se sacrifica por outro.

Escrito e dirigido pelo alemão, a história acompanha um casal de idosos, Georges (Trintignant) e Anne (Riva), que se veem em uma situação inteiramente nova em suas vidas: certo dia, Anne sofre um derrame que paralisa o lado direito de seu corpo. Cabe, então, a Georges a tarefa de providenciar os cuidados para sua esposa até o imaginável destino.

Estabelecendo os seus protagonistas de forma curiosa no primeiro ato, apresentando-os no meio de uma plateia que espera para ver uma peça, Haneke é rápido em introduzir esse problema na vida do casal e, ao mesmo tempo, explorar as sequelas do derrame da pessoa que mais se doava na relação. É notável, aliás, como a mesa bem cuidada do começo e a atenção de Anne para as pequenas coisas são trocadas gradualmente por uma cozinha suja, poeirenta, tomada por farelos e taças de vinhos não lavadas. Do mesmo modo, o diretor é sábio em não “poluir” sonoramente a narrativa – assim, depositando muito mais tensão em cenas como a de Georges escutando a água da torneira sendo desligada.

O silêncio, além do mais, é bem condizente com a dolorosa trama criada. Uma vez que seus personagens estão pertos, mas não da maneira íntima de outrora, e estão em volta do espectro da morte (“Como foi o enterro?”), Haneke trata de priorizar as expressões e reações a cada etapa sofrida. Assim sendo, observe como Anne apoia-se com o seu único braço com vida no seu marido ou em como os papéis se invertem (se ela era a pessoa mais preocupada da casa – não dormindo de ansiedade –, o papel agora é de Georges que reflete se vai conseguir passar no “teste”). A segura direção, ainda, cria uma atmosfera alucinante que culmina na fortíssima cena do sonho de Georges, em que o personagem se vê sufocado por uma mão direita.

Jean-Louis Trintignant é admirável, aliás, na maneira como ele demonstra essa mudança de papel na relação e o quanto a situação é penosa aos dois – cabe referenciar a cena em que ele pergunta para a esposa o que ela faria no lugar dele e na impaciência que o atinge quando tenta dar comida para Anne. Contudo, Emmanuelle Riva é o grande destaque da narrativa. Evidenciando minuciosamente cada sentimento de dor (“Dói. Dói. Dói!”), a atriz é excepcional ao denunciar a sua impotência perante a doença. E se ela tenta parecer mais forte do que aparentemente está, como mostra as cenas dela tentando andar sozinha, são os momentos em que ela urina dormindo e na agonia em não conseguir balbuciar mais do que uma ou outra palavra que soam mais intensos. Sua maneira infantil – fralda e babador – se intensifica mais do que ela pode aguentar.

O que transforma a sequência final, no belo e triste discurso de Georges, uma forma de amor para Haneke. Um amor que sacrifica nosso bem estar para o de outro, um amor que ultrapassa limites, um amor que nos faz abandonar um ideal que antes possuíamos; algo que revele o melhor e o pior de nós.

                                     

22 de janeiro de 2013

Mestre, O

The Master, EUA, 2012. Direção: Paul Thomas Anderson. Roteiro: Paul Thomas Anderson. Elenco: Joaquin Phoenix, Phillip Seymour Hoffman, Amy Adams, Laura Dern, Jesse Plemons, Ambyr Childers, Rami Malek e Madisen Beaty. Duração: 144 min.

Meu avô era alcoólatra. Perdeu tudo na vida. Família, dinheiro, negócio e amor. Apenas um de seus três filhos ainda o visitava e sempre vi uma sombra de felicidade quando o via comigo – por estar perto de um de seus netos. Eu o amava profundamente. Aliás, penso que era um dos familiares a quem eu mais era devoto. Apesar de também não o visitar com a frequência que deveria, porque achava doloroso algumas de suas condições, estava sempre com ele em meu coração. Ele morreu no ano passado. Reviu a única mulher que amou durante toda a sua vida – minha avó, claro – somente quando estava definhando por cirrose em uma cama de hospital. Costumo pensar que, agarrado a mão de minha avó, ele pensou no dia em que ela o abandonou, dando-lhe uma escolha: a bebida ou ela. Na ocasião, meu avô preferiu a bebida. A única que ficou com ele até o fim, mas que prejudicou toda a sua existência.

Lembrei-me disso, com lágrimas que saíam de meu corpo como se precisassem dar um último adeus, numa cena da nova obra-prima de Paul Thomas Anderson: O Mestre. Uma cena que marcava a dor de uma pessoa sem rumo, afogada pela bebida, relembrando o passado tão cruel, na frente de alguém que deu o braço para ela se levantar. “Aqui é um lugar em que as lembranças não estão convidadas”, diz Lancaster Dodd.

Escrito e dirigido por Paul Thomas Anderson, a história acompanha o problemático Freddie Quell, que, após a guerra, volta para a casa e acaba conhecendo uma pessoa conhecida por “O Mestre”. Entrando para um tipo de culto chamado de “A Causa”, o jovem começa a rever os conceitos que tem sobre a vida e tenta (re) estabilizar-se na sociedade.

Explorando o lado humano de seus personagens desde o seu primeiro ato (“Sou muitas coisas, mas acima de tudo um homem!”), sem preocupar-se muito em transmitir mais afundo as ideias da seita, Anderson é notável ao estabelecer uma coesão narrativa que resulta em duas cenas curiosíssimas: na primeira, Freddie correndo por um campo sem fim para depois, em cima de uma moto, percorrer os seus sonhos (agora com alguma sustentação); e, na segunda, os cumprimentos de um encantador Dodd são substituídos para um reconhecido Freddie na convenção de Phoenix. Além disso, o diretor trata sempre em focalizar Quell deslocado nos lugares em que segue o mestre – aliás, note o olhar de admiração sempre presente ou como a primeira vez em que vemos um sorriso real do personagem é durante um discurso de Dodd.

Do mesmo modo, observe a imponência do mestre frente ao seu culto: um perfeito exemplo é quando a polícia chega para levá-lo e seus discípulos o cercam como verdadeiros defensores da causa ou até mesmo nas luxuosas poltronas que demonstram sempre o aspecto de rei. Ao mesmo tempo, como se não bastasse, Anderson também é perfeito na abordagem dos dois opostos que são Freddie Quell e Lancaster Dodd. E basta visualizarmos isso: desde o primeiro levando os pertences do segundo, andando sempre atrás (nunca ao lado ou à frente) de Dodd, até a incrível cena em que ambos são mostrados lado a lado nas celas de uma prisão.

Entretanto, os maiores benefícios do filme ficam por conta do domínio de preparação de elenco de Anderson e de seu roteiro. Pois, enquanto somos agraciados com frases tão pertinentes aos momentos vividos, como “Lutamos contra o dia e vencemos”, Phillip Seymour Hoffman e Joaquin Phoenix dominam a tela desde o primeiro minuto de projeção. Criando uma pessoa que transparece bondade, genuinidade e segurança, Hoffman ainda é soberbo ao explorar os conflitos de Dodd com um temperamento explosivo, trazendo ainda mais honestidade ao personagem. Analise, por exemplo, suas reações quando se vê confrontado por seus pensamentos – não importando se é um simples cético ou a mais fiel devota. Além do mais, é tocante a maneira como ele se porta diante de Freddie: o olhar ressentido que dá quando este volta, a sua comoção frente ao passado do amigo e a inclassificável cena do choro contido quando começa a cantar a música que Freddie cantou na primeira conversa dos dois.

E se Hoffman prova mais uma vez que é um dos melhores atores vivos, Joaquin Phoenix não fica atrás. Pelo contrário, com seu Freddie Quell cria uma figura extremamente comovente e palpável. Denotando ares infantis ao personagem, indicando uma voz arrastada, quase receosa com o que irá ser dito e dono de um temperamento difícil, Phoenix passa por uma verdadeira transformação durante a narrativa. Se em um momento parece uma criança apontando para os seios de uma garota como se estivesse brincando, noutro, parece uma das pessoas mais racionais do planeta ao sentir qual o momento certo de seguir em frente. E não apenas a maneira como exibe as sequelas da bebida, mas o seu choro na sequência final ou na cena em que suas têmporas parecem saltar, evidenciam a sua excelência. “É o rapaz mais corajoso que já vi”. Ao passo que Amy Adams é esforçada em passar a grande mulher que é vista como a sombra e confidente de Dodd.

Gostaria de encontrar com o meu avô novamente. Ter uma oportunidade, mesmo que em sonho, como Freddie experimentou. Fazer as perguntas que eu sempre quis fazer e as assisti no interrogatório de Dodd à Freddie – desde já uma das melhores sequências que já vi em um filme. Apagar o passado, convidá-lo a novas lembranças e cantar aquela mesma canção entoada por dois atores, que para sempre estarão em minha memória: “Eu quero lhe levar em um barco lento para a China. Onde estaremos a sós. E onde eu poderei lhe manter em meus braços para sempre”.

                                     

15 de janeiro de 2013

Som ao Redor, O

Idem, Brasil, 2012. Direção: Kleber Mendonça Filho. Roteiro: Kleber Mendonça Filho. Elenco: Gustavo Jahn, Maeve Jinkings, Irandhir Santos, Irma Brown, Sebastião Formiga, W. J. Solha, Lula Terra, Yuri Holanda, Clébia Souza, Maria Luiza Tavares e Mauricéia Conceição. Duração: 131 min.

É fácil enxergar O Som ao Redor como um retrato social pertinente e uma obra sensorial. Após um curta extremamente inteligente e ideológico sobre a cidade em que nasceu, em Recife Frio, Kleber Mendonça Filho já mostrava sua visão social dos costumes brasileiros e nossas piores neuras. Agora é traçando o domínio da classe média alta aos mais pobres, no seu novo filme, que ele explora nossas constantes aflições com o que nos cerca e oprime seus personagens ao mais alto grau de loucura.

Escrito e dirigido por Kleber Mendonça Filho, o filme tem início numa comunidade de classe média localizada na zona sul de Recife. Ao mesmo tempo em que os personagens daquela localidade precisam lidar com seus próprios problemas, surge uma pequena milícia que promete trazer segurança e tranquilidade para aquelas pessoas.

Porém, num lugar que é tomado por sons dos mais variados tipos – soldagens, batidas de carros, músicas altas, latidos de cães –, trazendo uma sensação absurdamente incômoda, a clamada tranquilidade surge apenas como um sonho distante da realidade. Não à toa, o momento em que Maeve Jinkings consegue dormir e encontrar a sua paz sem o latido do cachorro fica sendo o único em que ouvimos calmamente o som das árvores ao redor do apartamento. O roteiro ainda se reserva a uma forte crítica social denunciando o capitalismo selvagem que cerca aqueles indivíduos, sempre aspirando a mais do que realmente necessitam (cabe destacar a cena em que Bia paga 4 reais pela água e 70 pela droga), e encontra respaldo na apropriada direção de Mendonça (o momento no qual a personagem é agredida por ter comprado uma televisão maior do que uma vizinha ou em esbanjantes aulas de mandarim são claros exemplos).

O diretor, ainda, não poupa elegância na maneira como demonstra as discrepâncias entre os dois mundos (como não frisar os grandes complexos ofuscando as áreas mais miseráveis da cidade?) e nos belos planos que realiza – meu favorito, provavelmente, é a fusão feita de um grande grupo de prédios para um de cervejas. Observe também como uma criança afortunada escuta um mp3 e sua mãe tenta comprar um belo apartamento enquanto olha para baixo e vê um garoto jogando bola em uma área muito mais pobre. Além disso, não se pode deixar de mencionar a cena em que dois personagens entram em um cinema abandonado e, envolto naquela atmosfera, o diretor ainda se dá o luxo de realizar um plano holandês para ressaltar o destoante local que ingressaram.

Beneficiando-se de seus atores, que dão ainda mais força para sua mensagem, Mendonça aproveita para “brincar” com a linguagem – trazendo momentos como a de uma irreverente masturbação ou um incomum uso de maconha. Todos os personagens, aliás, parecem mais profundos por sua visível humanidade. Não vemos papéis, mas seres humanos – o que aponta para um trabalho fantástico na preparação de elenco. Pois soando naturais o tempo todo, as cenas em que João, Francisco e Clodoaldo dialogam parecem cenas cotidianas, sem nenhum tipo de dramatização excessiva ou novelesca – o que poderá, inclusive, passar uma desconfiança para o público brasileiro desacostumado a isso.

Diferente do sonho da filha de Bia, em que sequestradores não param de invadir as propriedades que tentam os esconder e levam todos os seus objetos materiais, a mensagem de Mendonça é muito mais que um sonho assustado ou algo irresponsável. O Som ao Redor nos remete a nossos problemas como indivíduos em comprar mais do que precisamos, fugir do que não nos atinge e clamar por uma falsa tranquilidade momentânea. Para Mendonça, se não formos forte o bastante para ver o lado do mais fraco e pararmos de olhar apenas para nós mesmos, algum dia alguém chegará para cobrar essa dívida.