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Blair Witch, EUA, 2016. Direção: Adam Wingard.
Roteiro: Simon Barrett. Elenco: James Allen McCune, Callie Hernandez, Corbin
Reid, Brandon Scott, Wes Robinson, Valorie Curry. Duração: 1h29min.
Na primeira cena do remake/reboot
de Marcus Nispel para Sexta-Feira 13,
nós observamos a mãe de Jason Vorhees na chuva, quase numa recriação da
revelação do assassino do primeiro filme da franquia, na configuração de uma
bela homenagem. É da mesma forma que Adam Wingard pretende iniciar sua
tentativa de ressuscitar uma lenda que chegou ao nosso conhecimento em 1999, com
o mesmo tipo de capricho: usar uma cena icônica para ambientar o espectador ao
ambiente que adentrará. Ao não se definir como um reboot/sequel/homenagem ou o
que seja, porém, Bruxa de Blair
parece muito mais uma confusa refilmagem do original do que um filme à parte,
utilizando-se da lenda para não precisar de nenhum esforço para criar uma
história.
Ao começar introduzindo
o irmão de Heather para desenvolver um laço entre esse filme e o original, por
exemplo, Wingard tenta resgatar a memória dos inesquecíveis personagens do
filme original, sem que precise ter empenho o suficiente na forma de criar
laços entre os novos. Nesta ótica, perceba o quão pouco James surge
entusiasmado em procurar sua irmã nas florestas, após tanto tempo, apenas para
mais para frente afirmar com contundência que sempre achou que ela poderia
estar viva, antes de entrar na cabana da bruxa. Por quê? Porque era aquilo que
se esperaria dele, naquele momento. Que seu personagem realmente quisesse achar
sua irmã e não fosse um jovem aventureiro qualquer que jogava videogame
enquanto sua amiga falava sobre o quão importante seria achar sua irmã.
Não há qualquer tipo de
desenvolvimento de seus personagens, embora pareça que o roteiro queira passar
tempo o bastante com eles para construir algo que nunca chega a acontecer:
personalidades. Colocando aqui e ali uma bandeira da confederação, uma passagem
reveladora sobre o passado, como um dos jovens estar na expedição que tentou achar
Heather e o grupo, por aí adiante, Wingard e Barrett acreditam ter nos
conectado com as particularidades de seus personagens. Todavia, não conseguindo
nos envolver nem com sua tensão ou com as motivações pessoais, os jump scares
acabam sendo sua alternativa de rechear sua trama com cenas ilógicas para um
terror found footage: o design de som sempre tumultuando a narrativa para
evidenciar um osso quebrado ou uma nova aparição de um dos protagonistas que
assusta quem está atrás da câmera.
Assim, as pontas soltas
deixam nosso comprometimento com a narrativa bem rasteiro, já que não nos
preocupamos com a infecção de Ashley, tampouco com a tecnologia introduzida: os
drones, câmeras na árvore, etc. O mesmo para a insistência do diretor em trazer
o passado de volta às lentes, caindo na armadilha de tentar explicar cada coisa
que foi sugestionada da lenda em 99. Assim, enquanto o original se beneficiava
por não dar nenhuma pista ao espectador do que realmente acontecia na floresta,
deixando que a imaginação agisse, o novo filme é sabotado por tentar demonstrar
demais.
Wingard ao menos
compreende que certas convenções ainda dão certo na hora da tensão, assim, as
cenas de Lisa nos tubos de esgoto da casa ou os constantes movimentos
circulares constroem um equilíbrio maior na narrativa. Igualmente, a claridade
que as florestas perdem gradativamente durante a visão panorâmica do drone é
bem interessante e intrigante, o oposto ao escurecer completo da floresta
depois que um personagem simplesmente chega para dizer que o sol não nasce mais
por ali.
O diretor também
consegue manter o bom humor em determinado momento significativo da trama,
quando um dos protagonistas se perde e o grupo acha uma péssima ideia ir tentar
achar numa floresta escura. Mas é pontual. Já que os personagens fazem
exatamente isso, pouco tempo depois, quando é a vida de seus amigos reais que
estão em jogo.
É, portanto, triste que
a grande cena do filme esteja inserida quase que de forma deslocada na proposta
de Barrett e Wingard para a bruxa de Blair. Na cena, diante de Lisa e o irmão
de Heather, observamos um tentando controlar a crise de pânico do outro, como
se naquele instante só existisse os dois – e ali está a respiração na câmera, o
fôlego novo, sem que um jump scare atrapalhe o vínculo criado. Algo raro no
decorrer do longa e que só aponta para a grande oportunidade perdida que o
cineasta tinha em mãos.