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"Para aqueles que querem abraçar
o mundo com as pernas" expõe a primeira frase do filme de Márcia Paraíso, Lua em Sagitário. Ao som das teclas de um
computador, ela pretende embarcar no mundo adolescente de Ana e Murilo na
pequena cidade Princesa, onde todos se conhecem e o forasteiro interpretado por
Fagundes Emanuel é a novidade que estimula a vida pacata da garota que precisa
viver. A chave do filme de Paraíso é o tom da aventura infanto-juvenil, que,
assim como assume sua citação sobre o mundo, acha em sua rebeldia uma natureza
muito mais divertida e contemplativa do que apenas em lidar com a realidade
cotidiana.
Na mente de Ana, interpretada por
Manuela Campagna, a realidade não está na natureza tradicional de Princesa. Ela
está no mundo que desconhece, além de Dionísio Cerqueira. Quando A
Caverna (o único lugar interessante da cidade) passa a não ser o bastante,
o assentamento que Murilo vive traz à novidade ao mundo de Ana. Um movimento
que a garota apenas ouvira falar (negativamente) de seu pai e que passa a
experimentar com suas próprias mãos. Contudo, ainda que a esfera política
importe para a direção de Paraíso e o roteiro coescrito com Will Martins, ele
serve como coadjuvante para a jovem.
Lua em Sagitário carrega
particularidades que se assemelham a um dos grandes filmes desse ano, Sing Street. Quando o personagem do filme
irlandês era apresentado no seu quarto, a influência pelo contexto vinha
através do irmão, que servia como seu mentor, e da própria música – que era a
única companheira de Cosmo, até ele encontrar sua musa. No filme catarinense, a
música também tem seu papel no desenvolvimento da personagem de Manuela, com
ela constantemente com seus fones de ouvido quando está em casa ou com seu
violão no quarto. O mentor de Ana, porém, não é um irmão, mas outra figura
praticamente familiar: LP (Jean Pierre Noher). É por LP, um simbolismo claro,
que o mundo da música é apresentado aos jovens que clamam por conhecimento e
experiências.
É curioso que assim como o irmão de
Cosmo, em Sing Street, LP também
nunca tenha saído de sua realidade e que apenas detenha conhecimento teórico,
nunca prático. Ambos, afinal, encontram nos garotos realidades alternativas: o
que eles poderiam ter sido, se fossem mais corajosos. Desta forma, há uma cena
no filme que praticamente reparte a narrativa: o encontro dos garotos com o
estranho casal de Elke Maravilha e Sergei. Ali, naquela casa, está a essência
do desconhecido, da provação, da rebeldia, do novo. Observe, por exemplo, como
os garotos são trazidos até a casa no meio da floresta, à princípio – quase
como o começo de uma história infantil, onde os bruxos esperam as crianças
famintas por doces. Só que na casa, a tentação não provém dos doces, mas das
drogas. É a partir daquele momento que ambos se sentem completos na sua busca
pelo novo. E por isso Florianópolis e suas praias viram apenas uma
complementação para a viagem. Não o mais importante.
Todavia, o filme de Márcia Paraíso não
se livra do supérfluo, assim ficando precário o desenvolvimento da história nos
assentamentos e os pensamentos sociais sobre o MST – a cena na casa de jovens
de elite é problemática, neste aspecto, bem como as inserções de um beija-flor
ou quedas d'água. O mesmo ocorre no clímax, onde um beijo entre os jovens freia
um momento muito mais significativo – os caminhos se cruzando numa estrada de
chão batido com múltiplas possibilidades.
Em sua linguagem infanto-juvenil,
porém, Lua em Sagitário pode encontrar grandes admiradores ao passar
com paixão pelas estradas de Santa Catarina. Um encantamento que não soa tão
rebelde quanto parece querer ser, mas que tampouco é infrutífero.
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