14 de agosto de 2015

Escolha Perfeita 2, A

Pitch Perfect 2, EUA, 2015. Direção: Elizabeth Banks. Roteiro: Kay Cannon. Elenco: Anna Kendrick, Rebel Wilson, Hailee Steinfeld, Brittany Snow, Skylar Astin, Adam DeVine, Katey Sagal, Ben Platt, Anna Camp, Alexis Knapp, Birgitte Hjort Sorensen, Flula Borg, John Michael Higgins, Elizabeth Banks. Duração: 115 minutos.

Fugindo ligeiramente da temática de séries e filmes como Glee e High School Music, A Escolha Perfeita 2, que estreia nesta quinta-feira, 13, preocupa-se com a maturidade de sua narrativa. Após apresentar as Bellas e como o seu domínio mundial começou, o filme de Elizabeth Banks explora as consequências do sucesso, as expectativas e, claro, o amadurecimento do grupo. A princípio, tudo é maior, mais exagerado e explosivo; algo que se espera de uma continuação. Entretanto, isto é evidenciado apenas para, aos poucos, percebemos que a fragilidade, ingenuidade e simplicidade eram exatamente as vocações do filme original, que sugeria a primeira conversa entre Beca (Anna Kendrick) e Chloe (Brittany Snow) em um chuveiro, num desnude das intenções de ambas, por exemplo.

Na continuação, a personagem de Kendrick continua como o elo de ligação entre a realidade das Belas e a do mundo. A sobrecarga da personagem é cada vez mais explícita, entre sua tentativa de embarcar no mundo dos produtores e seus mashups colegiais. Ela detém a maturidade do longa-metragem, ao passo que (a ótima atriz) Hailee Steinfeld surge como a novidade. As meninas e seus interesses futuros são donos de nossa atenção. Os personagens masculinos do original ficam como coadjuvantes. Não à toa, a música final das Belas apontam para o fato: as mulheres dominam. Suas inseguranças, seus desejos, tudo é eficientemente dirigido por Banks, que parece cada vez mais confortável em lidar com resoluções da juventude. Não nos distancia por completo do primeiro filme, como nos mostra a batalha entre acapellas, mas aprofunda o medo de lidar com o amanhã. Algo que as garotas perceberam ser inevitável. 

*Originalmente publicada no Diário Catarinense

3 de agosto de 2015

A Forca

The Gallows, EUA, 2015. Direção: Travis Cluff e Chris Lofing. Roteiro: Travis Cluff e Chris Lofing. Elenco: Reese Mishler, Pfeifer Brown, Ryan Shoos e Cassidy Gifford. Duração: 81 min.

Ao falar de A Forca, o crítico Márcio Sallem, do Em Cartaz, levantou uma questão que interessa o espectador, discorrendo acerca dos subgêneros que o filme se encaixa. Mockumentary ou Found Footage? Slasher? A princípio, a teoria do maranhense é a de que por envolver um assassino serial de jovens estúpidos que mata aleatoriamente e num ambiente que capta sua angústia (como Elm Street, no caso de Freddy; Crystal Lake, no de Jason; a pacata  Woodsboro, em Pânico), a peça teatral, os assassinatos dos alunos do famoso colégio que marcou o acidente de Charlie estariam implícitos numa conhecida estrutura. Mas a teoria do slasher não se adapta ao sobrenatural, em sua totalidade, como algumas cenas demarcam. Você pode ter um monstro que lhe ataca nos sonhos ou imortal ou invencível, mas eles não usarão adventos sobrenaturais para matar as pessoas que querem; sim, contarão com a estupidez para levá-las até o lugar em que eles necessitam que elas estejam. E, com esta filosofia, algumas cenas desvinculam o filme do subgênero: a chegada dos policiais na residência de uma garota (que, ironicamente, é a melhor do filme), a falta da final girl e, claro, as mortes.

Isto, infelizmente, é o único debate que um filme como A Forca poderá suscitar, já que, embora provenha de uma jogada de marketing incrível, a estrutura do found footage careça de boas ideias. Elas existem, mas são poucas. Nesta perspectiva, por mais embaraçoso que seja o roteiro de Travis Cluff e Chris Lofing, quando ambos conseguem usar o susto ao seu favor e não apenas como um artifício gratuito de roteiro, o filme consegue sair do chão. Se o momento genuinamente assustador é a sugestiva cena final, não dá para deixar de aplaudir as quebras de expectativas em cenas como a da estática da televisão num quarto do teatro. É uma pena, portanto, que os diretores insistam na teoria de que o horror provém do número de sustos: assim, a cena em que um jovem deixa sua câmera filmando apenas para assustar o espectador é vergonhosamente explícita.

Igualmente, a montagem concebida não consegue se encaixar perfeitamente no subgênero do found footage, o qual supostamente estaria inserido. E basta observar o tom linear, a troca simultânea de câmeras e a linguagem que tenta traduzir esse curto espaço de tempo entre as ações. Nada seria produzido; frutos da ação. Os dizeres "fitas encontradas" não se encaixariam em perspectiva alguma: policial ou não. Da mesma forma, é hilário aceitar as decisões da trupe que invade o colégio ou que depois de passar anos e mais anos por uma foto fúnebre, só agora, um garoto perceba a presença do pai. Sem deixar de citar os maravilhosos momentos de convivência com Ryan, que julgo ser um dos protagonistas mais abomináveis que o subgênero já tenha presenciado: machista, homofóbico, manipulador, estúpido, controlador e praticante de crimes de ódio, ou seja, uma figura perfeita para criarmos empatia. Não!?

Contrariando aspectos mais básicos de estrutura (como a mulher que só senta num lugar do teatro, mas bate palmas noutro lugar, pois era preciso valorizar a sua presença), o máximo que A Forca consegue expor é o quão importa um mínimo de desenvolvimento humano para superar qualquer desgaste. Ainda provando que os mais pontuais sustos não equivalem ao puro terror. 

17 de junho de 2015

Poltergeist: O Fenômeno

Poltergeist, Canadá /EUA, 2015. Diretor: Gil Kenan. Roteiro: David Lindsay-Abaire, baseado na história desenvolvida por Steven Spielberg. Elenco: Sam Rockwell, Rosemarie DeWitt, Kennedi Clements, Saxon Sharbino, Kyle Catlett, Jane Adams, Susan Heyward, Jared Harris. Duração: 93 minutos.   
 
O fenômeno de Poltergeist na década de 80, com o perdão do trocadilho, explica-se pela difusão de grande parte da temática "macabramente açucarada" dos anos 80. Afinal, não há muitas novidades no filme de Tobe “Spielberg” Hooper (e não há como não brincar com a mão pesada do produtor, neste caso). As inovações são escassas porque a época em que o original está inserido não é de inovação, mas de popularização. Não é surpreendente, portanto, que seu remake não tenha grandes novidades, pois não é o que se espera, certamente; o problema é sua total falta de comprometimento com a trama ou "autenticidade" dramática, algo que faz com que a obra se torne extremamente pedestre e gratuita.
Se a família Freeling era legítima por nos inserir de forma tão genuína na trama, onde podíamos sentir cada novo ato de repressão contra seus personagens - desde um brinquedo infantil atormentando uma criança até as "assustadoras" vibrações das árvores e sons de trovão -; aqui, no remake, a atenção superficial que o diretor possui com seus personagens fica escancarado: a adolescente rebelde, cujo papel na trama é quase inexistente, o menino assustado que despertará dúvidas quanto ao seu julgamento do que é ilusão ou não, além dos pais inexpressivos. Sam Rockwell, por exemplo, difere do pai criado por Craig T. Nelson que foi envolvido numa conspiração que desconhecia e faz tudo para proteger sua família. Eric Bowen é um desempregado que faz de tudo para conseguir voltar a se sustentar, e por consequência ser o pai e marido que sua família espera dele. O seu jeito brincalhão não funciona, contrariando-o e fazendo com que soe exatamente como alguém desesperado por atenção.
E isso não é algo bem sucedido por ator ou roteiro. Rockwell parece (pela primeira vez num papel, pelo que me lembre) desconfortável. Entra no piloto automático que o filme estabelece. O mesmo pode se dizer de Jared Harris, que, ao contrário da personagem Beatrice Straight, soa como um charlatão de quinta categoria - não fugindo nada do estereótipo tão ironizado por David Tennant no remake do regular A Hora do Espanto, o filme que Poltergeist mais parece se inspirar. Em compensação, criando sequências diabólicas risíveis (como aquela em que as árvores entram no quarto do garoto), o filme carece da graça, encanto ou tensão do original. Observe, por exemplo, o primeiro contato dos paranormais com a família: o roteiro tenta jogar uma desconfiança que nunca é aprofundada (se aquilo é ou não é uma fraude) e uma cadeira voando num quarto não possui o mesmo impacto do quarto magnético anterior.
Na verdade, Poltergeist não funcionaria nem como um exemplar de gênero "scary housed", já que ele se autoironiza quando deveria ser dramático: e não dá para defender a sequência "espirituosa" da família fugindo ao entrar noutra casa parecida. É um produto arbitrário feito para lucrar com um nome conhecido. Ausente de qualquer emoção ou tensão, é um filme que certamente assombrará Gil Kenan pelos próximos meses. Mas pelos motivos errados.

 

22 de maio de 2015

Mapa para as Estrelas



Maps to the Stars, Canadá/Alemanha/França/EUA, 2014. Diretor: David Cronenberg. Roteiro: Bruce Wagner. Elenco: Mia Wasikowska, Juliane Moore, John Cusack, Evan Bird, Olivia Williams, Sarah Gadon, Robert Pattinson. Duração: 111 minutos.  

A insanidade gerada pela fama, não é novidade no cinema. Sem contar exemplos mais óbvios, como a obra-prima Crepúsculo dos Deuses, o próprio Cronenberg já flertou com o tema quando fez seu interessante Cosmópolis, onde buscou mais a crise econômica e a impassibilidade daquele mundo. Em Mapa para as Estrelas, a frieza regressa, mas premeditando outras sequelas; a análise escapa da sociedade e recai sobre uma família disfuncional, que nos guia pelo mundo das falsas aparências.

Porque não há nada mais problemático do que a família Weiss, na obra de Cronenberg: o astro mirim de 13 anos que acaba de sair de uma clínica de reabilitação, o pai instável e brutal que escreve livros de autoajuda, a mãe inerte que tenta construir uma carreira sólida para o filho e lidar com o pai e a filha, a jovem que incendiou a sua antiga casa e faz com que a família tenha que recomeçar do "zero". É o mundo dos Weiss que sintetiza a Hollywood que o cineasta quer evidenciar - a da ganância, a ilusional, a violenta e a dissimulada. Um dos planos de Cronenberg, não à toa, ressalta o choro de uma massoterapia reichiana para o riso do cinema na televisão da sala: a realidade contra a ficção.

Juliane Moore, como Havana, destaca-se por denotar essa dubiedade tão brilhantemente, pois sempre com sua expressão cansada e de tristeza, mas que ainda busca uma esperança enraizada no passado familiar, a atriz segura um prêmio de melhor atriz como se precisasse saber que aquilo estivesse ali, no seu presente, e não fosse uma ilusão. Afinal, assobrada pelos seus próprios fantasmas, Havana é uma dependente patológica (cada um dos personagens é, ao seu modo): no seu caso, pela fama e o vício por poder. É o domínio que ela passa a reconstruir que, por exemplo, faz com que ela lide com o personagem de Robert Pattinson de forma tão reveladora - da mulher que se submetia à orgias sexuais, onde ela era coadjuvante, à renovação do controle, que faz com que ela se torna a protagonista.

Tudo passa pela liberdade: física e psicológica. A menina que fala sobre a liberdade romântica, observe, é quem se separou daquele mundo; cobriu-o com o fogo e destruiu sua inércia. Na ótica de Cronenberg, a violência física é fruto da violência temperamental, da desestabilidade e de como tudo pode desmoronar em fração de segundos. Seja pelo que antes trazia conforto (um prêmio) ou que trazia medo (entorpecentes), é um lugar em que a morte pode ser a liberdade final, estabelecendo o desejo supremo: serem eternos e inesquecíveis.


Observação com spoilers: há dois simbolismos lindos no filme: a personagem de Juliane Moore ser assassinada com o que sempre serviu de apoio e boa memória para ela: seu próprio troféu, que aqui denuncia o risco do holofote e da fama, morta pelo que lhe deu status; a outra, a mãe inerte, cuja função é sacrificar sua vida para cuidar de seus filhos, mostra-se impassível e, veja só, inerte enquanto o pai bate na filha. Os dois pais entorpecidos, ao fim, é apenas a realidade arregalando seus olhos para um mundo que eles não estão preparados.
 
 

19 de maio de 2015

No Auge da Fama

Top Five, EUA, 2014. Direção: Chris Rock. Roteiro: Chris Rock. Elenco: Chris Rock, Rosario Dawson, Gabrielle Union, J. B. Smoove, Romany Malco, Tracy Morgan, Kevin Hart. Duração: 102 min.

Uma das coisas que mais aprecio em seriados televisivos como Louie, que diante do tempo de duração de suas temporadas servem quase como plataforma de terapia para seus autores, é a autoexposição gerada pela entrega absoluta do ator/escritor/personagem aos sentimentos que estes vivem. No seriado do comediante, por exemplo, o apelo cômico das primeiras temporadas foi se perdendo a medida que as histórias avançavam, criando uma obra ambígua e que pontuava situações românticas, dramáticas e engraçadas sem que isso requeresse um grande esforço. Eram sintomas naturais do amadurecimento gradual do seu autor. Em No Auge da Fama (uma tradução horrorosa, diga-se de passagem), Chris Rock também autoexpõe seus fracassos, sua crise e suas paranoias, conseguindo transitar num terreno que muito pode lembrar a própria carreira.

Assim, é mais crível toda a trajetória do protagonista, que conhecemos durante um simples passeio conversando sobre coisas aleatórias, e que serve muitíssimo bem para traçar sua personalidade: desiludido, cínico e engraçado - Andre Allen faz jus ao sobrenome. Seus monólogos começam aos poucos a definir seu caráter; o desprezo pela crítica pessoal, a sociedade em geral e suas imposições, tudo é fruto de análise durante sua entrevista com a ótima Rosario Dawson. Mas não só isso, ainda que seus diálogos ácidos sejam brilhantes (especialmente os raciocínios sobre a cor de Obama influenciar o pensamento americano e a paranoia quanto ao Planeta dos Macacos), a sua quebra de expectativa também é certeira - observe as cenas em que pede um taxi em Nova York, o sexo no hotel com a foto de Bush no quarto ou a resolução final.

O preço pela fama igualmente é bem explorado na pele de Gabrielle Union, cuja personagem rende um dos arcos mais complexos de Rock, que é influenciada pela própria visão masculina de Allen; todavia, isso não impede um pronunciamento bem revelador acerca de seus próprios problemas, sem que soe a mesquinha que era tratada poucos minutos antes: analise a personagem indo de "se não é na frente das câmeras, não existe" para a indicação que, pela primeira vez, ela conseguiu o que sempre quis e as pessoas sabiam quem era ela. Ao passo que a vida conturbada de Allen, que se aproxima cada vez mais de uma versão cômica de Riggan, em Birdman, torna-se uma repetição de aparições públicas que só o relembram de um passado frustrante e um futuro nada promissor. De tal modo, a trama aponta para um "road-movie" de um dia, em que o nosso personagem finalmente se dá conta da rua sem saída que entrou. Não à toa, Rock escolhe extrair a graça do drama.

E é quase triste cenas tão irreverentes quanto aquela em que Allen se pergunta como um homem que bebe no bar consegue beber só metade de uma bebida ou a que tenta consolar Chelsea, após esta ter descoberto que o namorado é homossexual. Sem deixar de citar as inúmeras interferências de transeuntes perguntando sobre o famoso urso ou que assimilam que ele sabe sempre do que elas estão falando (a cena do rádio). 

Se Allen não se sente mais engraçado, como sempre destaca, o mesmo não pode se dizer das brincadeiras com os Yankes, Dancing With the Stars ("esse é seu nível de popularidade") e sua reflexão existencial ("Trinta anos é a idade em que você finalmente percebe: 'ei, eu realmente posso virar um sem-teto!'."). O pessimismo, portanto, rende grandes momentos: o melhor é sem dúvida o pensamento sobre TuPac - "(...) é claro que ele poderia ser um líder político, mas ele também poderia estar atualmente num filme do Tyler Perry. Não dá pra saber".

Afinal, No Auge da Fama carrega consigo uma honestidade preciosa. Quando Chris Rock finalmente encara o microfone novamente, numa cena belíssima, e retorna às origens, é um atestado de reencontro com sua própria personalidade. É o lugar onde sempre deveria estar e finalmente conseguiu regressar. Não só o personagem, mas o ator. "Abaixem suas expectativas", ele diz. Agora, não dará mais, Rock. Bem-vindo ao palco, novamente. O microfone é seu.