Seu final pode destoar do semblante que nos envolve, trazendo uma perigosa mensagem, porém é bastante incômodo ao sublinha um panorama verossímil socialmente, onde fanáticos usam as palavras de uma "força suprema" para espalhar seu ódio e apreço por chacinas.
FYC: Três fundamentalistas recebem o chamado: é hora.
66.
Starry Eyes, de Kevin Kölsch e Dennis Widmyer
(Bélgica,
2014)
O extremo da exploração artística, da vaidade e da ambição levados literalmente ao mundo de uma atriz amadora espelham na narrativa um medo claustrofóbico e individual proeminente.
FYC: Ao tentar se contratada como atriz, os flashes da máquina fotográfica nos imergem num mundo de sofrimento físico.
65.
A
Pele
que Habito, de
Pedro Almodóvar
(La
piel que habito.
Espanha, 2011)
O
terror de Almodóvar é o fascínio pelo corpo, pela identidade
sexual e o comportamento. Nesta perspectiva, a principal revelação
acerca da condição com que divide a cama com o médico
interpretado por Antonio Banderas se torna importantíssima e
assustadora.
FYC:
O grande flashback que demonstra a origem de Vera.
64.
Honeymoon, de Leigh Janiak
(EUA,
2014)
Com
uma rara abordagem feminina acerca do receio de não saber com quem
estar dividindo a mesma cama, Honeymoon
é naturalmente tenso e expõe a agressividade de sua trama na
loucura/paranoia crescentes e sintomáticas.
FYC:
Bea é encontrada no banheiro tirando algo de dentro de si.
63.
Mártires,
de
Pascal Laugier
(Martyrs.
França, 2008)
Uma
das promessas de sua geração, o diretor Pascal Laugier surgiu
definitivamente no cenário comercial em 2008 com o triste Mártires,
cujo principal foco só é revelado no segundo ato. Até lá, a obra
parece convencional: uma família tem a casa invadida por estranhos
que começam a aterrorizar todos e deixam uma pessoa viva para a
tortura. O motivo disso tudo, é que estabelece o longa-metragem
como um dos grandes terrores da França da última década.
FYC:
Após saber a resposta para suas dúvidas, uma senhora decide não
compartilhar o segredo com mais ninguém.
62.
Zumbilândia, de Ruben Fleischer
(EUA,
2010)
Assim
como Guia do Mochileiro de Galáxias, Zumbilândia parte da
concepção de que o espectador já aceita a natureza absurda desse
tipo de narrativa, deixando com que as brincadeiras metalinguísticas
e a sátira da própria obra a transforme em algo imprevisível.
FYC:
Bill Murray como zumbi.
61.
Um Lugar na Inglaterra, de
Ben Wheatley
(A
Field in England. Reino
Unido, 2013)
Ben
Wheatley continua seu passeio pelos gêneros, que cada vez mais
intensifica o vasto poder narrativo. Aqui, é a exposição da
loucura - de uma forma única, surrealista e com um timing cômico
impiedoso.
FYC:
Os diálogos cínicos de Wheatley caem como uma luva no cenário
abstrato que seus personagens vivem.
60.
Cloverfield, de Matt Reeves
(EUA,
2008)
Na
maré proveniente dos found footages, Cloverfield encontrou a emoção
que a intimidade das fitas encontradas podem proporcionar ao
espectador. Assim, a tentativa desesperada de Jason achar Lily numa
Nova York sitiada é, ao mesmo tempo, lindo e carregado.
FYC:
No prédio de Lily, as mãos do casal se procuram.
59.
The Void, de Jeremy Gillespie e Steven Kostanski
(Canadá,
2016)
Uma
equipe fica presa num hospital rural, após ser cercada por um grupo
encapuzado. Um pesadelo violento e fascinante.
FYC:
O ato final.
58.
Chamado, de
Gore Verbinski
(The
Ring. EUA, 2002)
Remake
do japonês Ringu,
O Chamado
é um dos melhores filmes
do camaleão Gore Verbinski. Priorizando mais os sustos do que a
obra oriental, ainda que equilibre o suspense psicológico, a
história aborda a relação entre uma repórter que investiga a
morte de uma pessoa que assistiu a famosa fita e seu filho.
FYC:
O calafrio provocado pela voz ao telefone.
57.
Possuída, de
John Fawcett
(Ginger
Snaps. Canadá, 2000)
A
associação da afloração da sexualidade feminina com a
transformação licantrópica origina um dos melhores exemplares do
subgênero.
FYC:
Ginger não aceita o bullying num jogo de hockey na grama.
56.
Berberian
Sound Studio, de
Peter Strickland
(Reino
Unido,
2012)
Muito
mais original que o declínio psicológico de alguém que se
encontra em uma posição desconfortável, Peter Strickland realiza
um fabuloso retrato daquilo que nos deixa tão apreensivos quanto
empolgados: as sensações provocadas por um filme de horror. Ao
mesmo tempo em que organiza quase uma homenagem ao trabalho de um
dos mais subestimados realizadores: o compositor.
FYC:
Dentro do estúdio, o grito cada vez mais alto e retumbante.
55.
Housebound, de Gerard Johnstone
(Nova
Zelândia, 2014)
O
filme que Tobe Hooper (Poltergeist)
tentou fazer em toda a sua carreira.
FYC:
Nunca um toque de celular assustou tanto.
54.
Bliss, de Joe Begos
(EUA,
2019)
Algo
incomodativo e profano ronda cada plano do filme protagonizado por
uma espetacular Dora Madison, Bliss. A heresia não está apenas na
pintura, mas na posição crucificada e anestesiante com que Dezzy
aparece em sua cama, próxima da pintura infernal que toma seus
dias. Seu desejo por sangue não é só literal, como também é
metafórico. Ao dar o dela pela arte, ela pede algo humano em troca.
O grito atormentado por ajuda é ensurdecedor. Surpreendente,
no mínimo.
FYC:
Aos
poucos, o quadro evidencia o grotesco que ronda a personagem.
53.
Culpa, de
Riley Stearns
(Faults.
EUA, 2014)
Traços
de Martha Marcy Marlene e Borgman numa trama sombria e insana, mas
palpável e agoniante, onde a aleatoriedade das situações que
incidem e a tentação de usufruir do controle sobre o outro
demarcam o território da narrativa.
FYC:
Durante uma espécie de pesadelo real, Ansel observa Claire fazendo
sexo com os pais.
52.
Fitas de Poughkeepsie, de John Erick Dowdle
(EUA,
2007)
Da
mesma forma que A Tortura do Medo nos insere na mente e vida do
protagonista, As Fitas de Poughkeepsie nos joga no submundo caótico
e depravado de um serial killer, onde uma investigação nos guia de
maneira inata e assustadora.
FYC:
Nossa impotência diante dos assassinatos.
51.
Convidado, de
Adam Wingard
(The
Guest. Reino
Unido, 2014)
Num
ambiente familiar corrompido pela ausência, a influência da
esperança e proteção, na figura de um jovem misterioso, inclina
aqueles personagens à passividade. Adam Wingard se torna aqui um
dos maiores cineastas de sua geração.
FYC:
Após criar uma empatia com o pequeno Luke, David se mete em uma
"briga" de bar.
50.
A Estranha
Cor das Lágrimas de seu Corpo, de
Hélène Cattet e Bruno Forzani
(L'étrange
couleur des larmes de ton corps.
Bélgica, 2013)
Caso buscássemos na fonte do giallo, o modelo mais incisivo cultivado pelos cineastas do gênero, eu assumo que a resposta seria o olhar. Muito antes do uso abundante das cores para definir a cenografia, a procura de diretores como Mario Bava, Dario Argento, Lucio Fulci era pavimentada pelo padrão da experiência ocular. O espetáculo visual do giallo nascia da exposição gráfica do assassinato, da sexualidade e do fascínio pelo crime. A importância do olhar era crucial tanto na investigação decorrente do enredo quanto da percepção exclusiva a quem se contava a história. No entanto, em A Estranha Cor das Lágrimas do seu Corpo, além da busca pelo olhar, que chega a seu auge numa cena de confronto entre o detetive e o marido à procura da esposa, o padrão narrativo é a inconsciência. A subjetividade da mente é a resposta que a dupla Hélène Cattet e Bruno Forzani almeja ao trabalhar a paranoia, a alucinação e o crime que intercede à vida de Dan. A metáfora do crime, do prazer e da paranoia. O nosso corpo e nosso inconsciente servem como base para um desnude psicológico. No neo-giallo de Cattet e Forzani, o olhar é fruto uma simetria dantesca.
FYC:
Um split-screen aponta Dan e o detetive com a mesma intenção,
apesar das perspectivas e semblantes diferentes.
49.
Farol,
de Robert
Eggers
(Canadá,
2019)
A
primeira imagem do novo filme de Robert Eggers, do aclamado A
Bruxa, é um grandioso farol, em uma
ilha afastada, que direciona os dois pescadores Thomas Wake (Williem
Dafoe) e Ephraim Winslow (Robert Pattinson) até seu acesso. A
metáfora do norte-americano sobre a vida e a morte é encaminhada
neste princípio: o que nos traz e o que nos leva? O que está entre
o início e o fim? A luz. Que, veja só, pode ser compreendida de
diferentes formas, como esperança, vida, morte, fé, Deus ou,
simplesmente, o fim da linha. É ela que, igualmente, rege o mundo
daqueles dois pescadores, os quais vivem seus dias na esperança de
chegar o momento de ir embora ou ter contato com a tão sonhada luz.
FYC:
What? What?
48.
The Devil's Candy,
de Sean
Byrne
(EUA,
2015)
Um
pintor é possuído e embarca numa
crescente paranoia, após se mudar para uma casa na zona rural do
Texas.
FYC:
As
pinturas de Jesse.
47.
Mar
Negro, de
Rodrigo Aragão
(Brasil,
2013)
Fechando
a trilogia claramente influenciada por Raimi, Rodrigo Aragão
deposita no uso excessivo do gore sua adrenalina, culminando num dos
maiores exemplares brasileiros do gênero.
FYC:
Personagem começa a metralhar todos os zumbis da casa.
46.
The Wailling,
de
Na Hong-jin
(Coréia
do Sul,
2016)
Várias
histórias parecem acontecer ao mesmo tempo neste doce e
aterrorizante filme de Na Hong-jin sobre a chegada de um estranho
numa vila, que culmina em estranhos acontecimentos.
FYC:
O
exorcismo.
45.
Behind
the Mask: The Rise of Leslie Vernon, de
Scott Glosserman
(EUA,
2006)
Intercalando
tom documental com slasher, o enfoque surreal nos assassinos ao
invés das vítimas é um sopro de criatividade invejável, algo que
rende acréscimos metalinguísticos excepcionais e inteligentes -
transformando um convencional "final
girl movie"
em um intrigante exemplar sobre o terror.
FYC:
Taylor indica a história do slasher na cena inicial com uma
abordagem de entrevista curiosa.
44.
Convite,
de Karyn Kusama
(EUA,
2015)
Tenso
e intrigante, um jantar entre amigos se transforma numa coisa muito
mais sombria. Na mesma linha de End of the Line.
FYC:
Ao
sair da casa, percebe-se que aquilo era muito maior do que se
imaginava.
43.
Demônio
de Neon,
de Nicolas
Winding Refn
(Dinamarca,
2016)
Ao tratar o vício estético como uma devassidão sintomática que se alastra pela nossa mente em ondas cerebrais que teriam a missão de proteger nosso autocontrole, no livro Monstros Invisíveis, Chuck Palahniuk brinca com a desfiguração, considerando-a uma epítome do espetáculo: quanto vocês pagariam para ver isso? Se para outro autor americano celebrado, David Foster Wallace, as cicatrizes representavam a crueza do pensamento humano individual, para Palahniuk, elas expõem nossos ecos sociais. É a principal intenção de Nicolas Winding Refn se aventurar por essa natureza: o consumo levado à última potência. Demônio de Neon não se restringe ao passeio pela estética; ele tenta racionalizá-la, na única forma que poderia: por meio da imagem.
FYC:
Jesse
está sentada no capô do carro, falando sobre a lua, enquanto
discorre sobre o satélite como um grande olho, sempre a observando.
42.
Trabalhar
Cansa, de
Marco Dutra e Juliana Rojas
(Brasil,
2011)
Utiliza
o terror da obra apenas para especificar o trauma de cada um de seus
personagens, como a dona de uma mercearia com o medo de ficar falida
ou ter colocado seu dinheiro em algo condenado, interessando-se
muito mais na profundidade dos protagonistas do que o sobrenatural
da história.
FYC:
Na sala, alguém faz o som de um morcego.
41.
Tucker & Dale Contra o Mal, de Eli Craig
(Canadá,
2010)
Desde
Pânico, uma autoparódia não conseguia ser tão brilhante quanto a
trama de dois estranhos homens que moram numa cabana e são
confundidos com assassinos por um grupo de jovens.
FYC:
Ao pular em direção de um dos irmãos, jovem acaba entrando numa
máquina de sovar madeira.
40.
Culto, de Justin Benson e Aaron Moorhead
(The
Endless. EUA, 2017)
"O
fim chegou", dizia o rabisco pestilencial. (...) O Dr. Torres
sabia, mas o choque o matou. Não pôde suportar o que teria de
fazer; tinha de me meter num lugar estranho e escuro, mas atentou à
minha carta e me fez voltar, com seus cuidados. Tinha de ser feito à
minha maneira, pois vês: eu morri naquela época, há dezoito
anos." [Ar Frio. Lovecraft, H.P.]. Arrisco dizer que The
Endless é uma das homenagens mais bonitas que o cinema já fez para
H.P. Lovecraft. É
muito maior que algo sobre um culto. É uma obra obra próxima da
perfeição a respeito do processo de criação e o nosso medo de
ficarmos nos repetindo.
FYC:
O
filme mais famoso dos cineastas é repetido numa sequência.
39.
Rastro de Maldade, de S. Craig Zahler
(Bone
Tomahawk. EUA, 2015)
Um
xerife junta força com outras pessoas para resgatar uma garota
sequestrada. O cinema de Craig Zahler na sua alta voltagem de
violência.
FYC:
Somos
jogados numa trama inesperada, na segunda parte do filme.
38.
Crimes
Temporais, de
Nacho Vigalondo
(Los
cronocrímenes.
Espanha, 2007)
Nacho
Vigalondo desponta como uma promessa como roteirista/diretor ao
gerir o mistério da sua trama ficcional até o clímax - sem nunca
soar prosaico ou banal em como lida com a viagem no tempo.
FYC:
A identidade do assassino.
37.
A
Dark Song, de Liam Gavin
(Irlanda,
2016)
Novamente,
uma mãe enlutada contrata um ocultista para contatar seu filho
morto. Ao longo dos dias, a trama vai ficando cada vez mais
assustadora.
FYC:
O
primeiro contato.
36.
Thelma,
de Joachim Trier
(Dinamarca,
2016)
Em
uma das cenas mais lindas do filme, Thelma experimenta o prazer numa
alucinação despertada não pela droga, mas pela manifestação
involuntária de tesão. A serpente que adentra seu corpo, como se o
pecado estivesse se estabelecendo ali, a afasta do que sempre a
reprimiu, a religiosidade. A descoberta de sua verdadeira identidade
proposta pelo cineasta vincula o sobrenatural, sim, mas os elementos
de horror da obra são cúmplices da natureza humana. Jamais
ilógicos. Se Carrie, do De Palma, fosse feito nos dias atuais, eu
também suspeito que ele seria algo similar a Thelma.
FYC:
Como
dito, a cena em que uma serpente entra no corpo da personagem-título.
35.
Orfanato, de
J. A. Bayona
(El
Orfanato. Espanha/México,
2007)
Até
onde você iria para resgatar seu filho? Laura é uma dessas mães
inesquecíveis, que nunca desiste de encontrar o pequeno Simón, de
7 anos, que desaparece do orfanato.
FYC:
Na cena final, Laura e seu instinto materno prevalecem a qualquer
coisa.
34.
Atividade Paranormal, de Oren Peli
(Paranormal
Activity. EUA,
2007)
Uma
das obras mais importantes do terror contemporâneo. Foi aqui que o
terror independente voltou a se evidenciar como algo rentabilíssimo.
FYC:
A
protagonista é puxada pelo pé de seu quarto.
33.
Hotel
da Morte, de
Ti West
(The
Innkeepers.
EUA, 2011)
Se
em outros longas, o proeminente Ti West já indicava seu apreço
pelos tons setentistas e oitentistas do terror, Hotel da Morte é
uma espécie de remake de O Iluminado, onde os dois últimos
funcionários de um hotel condenado tentam descobrir os segredos da
arquitetura.
FYC:
A sintonia de Sara Paxton e Pat Healy é inesquecível, como também
o uso do plano holandês e da grande angular no indecifrável
corredor do Yankee Pedlar Inn.
32.
Sobrenatural, de
James Wan
(Insidious.
EUA, 2013)
Onde
James Wan começa a colocar o pé na história do terror, em que
referências clássicas, a trilha sonora invasiva, o vermelho
acentuado, a fotografia ressaltando os cômodos de uma casa, tudo
parece ocorrer sem duvidar da inteligência de quem assiste ao
filme. Nosso primeiro belo contato com os Lambert, numa grandíssima
homenagem a Argento e Poltergeist.
FYC:
A família decide simplesmente abandonar a casa, quando julgam
estarem sendo mal assombrados. O problema é que o mal não estava na
casa, mas no inconsciente do filho. Algo que nos leva para as duas
melhores cenas: a primeira aparição na nova casa e o pai
ingressando no limbo.
31.
Cura, de Gore Verbinski
(Alemanha/EUA,
2016)
Jason
Isaacs personifica o diretor de
uma instituição
psiquiátrica
com uma riqueza de nuances admirável, onde se dá para perceber
diversas homenagens as múltiplas facetas de Vincent Price nos anos
60, com seus doutores dispostos a todos os tipos de sacrifícios –
e o exagero teatral característico dessas personas. Volmer é
Roderick Usher, é Nicholas Medina, é Erasmus Craven, é Robert
Morgan, é Prince Prospero. Um extremista que chegou até onde
muitos não chegaram: a descoberta da imortalidade. A cura da morte.
FYC:
Volmer
se mantém calmo, enquanto o protagonista perde o controle durante um
almoço.
30.
Borgman, de Alex van Warmerdam
(Holanda,
2013)
Dentro
de uma perspectiva de seita satânica e estabelecendo dicas pontuais
sobre o que estamos observando acontecer àquela família, Alex van
Warmerdam realiza uma das obras de suspense mais marcantes dos
últimos anos - criando algo sempre imprevisível e interessante.
FYC:
Indicando que algo está para acontecer e intercalando com mensagens
religiosas, conhecemos o lugar que Camiel Borgman habitava.
29.
Suspiria, de Luca Guadagnino
(Alemanha/Itália,
2018)
A
alegoria de Luca Guadagnino transita por libertação, paranoia e
ambiguidade, numa ótica lacaniana que pode ser debatida por horas.
É um filme um pouco mais intimista do que seu original, ainda que
carregue exatamente o que a obra-prima de Dário Argento trazia -
uma espécie de pesadelo pessoal ficcionalizada pelo seu realizador.
Enquanto Argento se preocupava com a estrutura, Luca se interessa
pela psique.
FYC:
A
dança ritualística do desejo, da carne e da entrega.
28.
Todo
Mundo Quase Morto, de
Edgar Wright
(Shaun
of the Dead.
Reino
Unido,
2004)
A
combinação cômica/ação de Edgar Wright é o ponto alto da trama
de jovens que não percebem, num primeiro momento, estarem em um
apocalipse zumbi.
FYC:
Shaun e Ed jogam discos contra um zumbi que caminha até eles.
27.
Halloween,
de
David Gordon Green
(EUA,
2018)
Certos
medos nunca morrem. Podemos enclausurar o terror, mantê-lo
encolhido no centro de um tabuleiro de um jogo de damas, cujo
objetivo é imobilizar a peça inimiga, mas o medo permanecerá lá,
mesmo inaudível, esperando o momento certo para ressurgir. Podem-se
passar anos, a memória de um trauma jamais apagará. Priorizar-se-á
outras coisas, ocultando uma determinada informação por um período
de tempo, porém ela jamais morrerá. É o que nos evidencia desde o
início o novo Halloween, de David Gordon Green, que está
exatamente preocupado em falar sobre como podemos reagir ao episódio
traumático.
FYC:
Os
pacientes dentro de um manicômio começam a gritar ao redor de
Michael, o único calado e no centro do quadro.
26.
Amizade Desfeita, de
Levan Gabriadze
(Unfriended.
EUA/Rússia, 2014)
Arrisco
dizer que é o filme definitivo que lida com o sobrenatural no mundo
cibernético. Amizade Desfeita acaba não só entrando na vida de
jovens sensíveis com a morte de uma antiga amiga, mas também
navegando por coisas tão banais, simples e possíveis de acontecer
- o que só aumenta a verossimilhança e o medo.
FYC:
O carregamento de um download se torna algo extremamente tenso.
25.
Anticristo, de
Lars von Trier
(Dinamarca/Alemanha,
2009)
Após
a morte do filho de um casal, a mulher entra numa depressão
profunda que faz com que ambos tirem umas "férias" numa
cabana isolada. Tudo não passa de uma justificativa para Lars von
Trier analisar a psique humana diante da tragédia e nossas
dificuldades em lidar com nossos traumas exteriores e interiores.
FYC:
A sequência inicial em slow motion, com a queda da criança.
24.
Ilha do Medo, de
Martin Scorsese
(Shutter
Island. EUA, 2010)
Dois
detetives chegam até um hospital isolado de Boston, em que os
médicos realizam experiências radicais com os pacientes. Ilha do
Medo é um estudo de personagem fascinante, onde Scorsese encontra
em Teddy um retrato tênue entre insanidade e fragilidade.
FYC:
Após tudo ser esclarecido, um entristecido Mark Ruffalo dá o sinal
de negativo com a cabeça para um dos médicos da instituição.
23.
Labirinto
do Fauno, de
Guillermo del Toro
(El
laberinto del fauno.
Espanha/México, 2006)
A
fábula assustadora de Guillermo del Toro não se restringe ao
fantástico. Carregada por sua mensagem antiguerra no longínquo ano
de 1944, onde uma criança é atormentada pelo mundo vulgar,
sanguinário e perverso dos adultos; os passeios pelo labirinto de
fantasias são uma fagulha de esperança para uma jovem que cresceu
rápido demais.
FYC:
O primeiro contato de Ofélia com o labirinto.
22.
Último Sacramento, de
Ti West
(The
Sacrament. EUA, 2013)
Ao
finalmente abraçar o contemporâneo, Ti West expõe o assustador
fanatismo religioso de uma sociedade, que não por acaso lembra a
história de Charles Manson (aqui, Charles Anderson Reed).
FYC:
Esperando pela entrevista exclusiva, a chegada d'O Pai.
21.
Pânico
4, Wes
Craven
(Scream
4.
EUA, 2011)
Modernizando
sua estrutura, Wes Craven encerra a sua carreira se reinventando
pela última vez, dialogando no percurso com a própria franquia e a
popularização dos remakes. O canto de cisne de um mestre.
FYC:
A sequência inicial metalinguística.
20.
Resolution, de Justin Benson e Aaron Moordead
(EUA,
2012)
Entrelaçando
o drama psicológico com o terror, o resultado do primeiro longa de
Justin Benson e Aaron Scott Moorhead é uma obra sobre caminhos,
escolhas e consequências, numa ótica enlouquecedora e genuinamente
intimidante.
FYC:
Os protagonistas assistem as suas mortes.
19.
Amantes
Eternos
, de
Jim Jarmusch
(Only
Lovers Left Alive.
Alemanha, 2013)

Há
uma natureza romântica, poética e grunge na mitologia do
vampirismo que é instigante. É proveniente dos grandes autores,
tais como Bram Stoker, Anne Rice, que celebram esse misticismo com
pitadas de humor gótico transcendentes e apaixonantes. A maneira
como visualizamos os vampiros através dos tempos foi, portanto,
mais apaixonada e calorosa, algo que rendeu inúmeros
romances teens que
discorriam sobre o amor proibido. Uma tragédia shakespeariana com
mortos-vivos. Mas como seria a ótica vampírica acerca dos humanos?
Como ele veriam nossa raça? Com empatia, compaixão, inveja ou
profundo desprezo? A melancolia de Amantes Eternos, obra-prima de
Jim Jarmusch, percorre essas dúvidas com uma profundidade
fantástica, que reproduz um tom sinistro, intenso e constantemente
suicida. Como se a imortalidade fosse um intragável fardo, Adam se
arrasta pelo cenário com a dor que só alguém que já viveu muito
poderia carregar. A idade não está na aparência, mas nas ações,
semblante e experiência de cada um deles.
FYC:
A dor de não estar vivo, mas ainda andar nas associações de Adam
e Eve com suas fotos/músicas/poemas.
18.
Segredo
da Cabana,
Drew
Goddard
(The
Cabin in the Woods.
EUA, 2011)
Escrito
por Whedon e Goddard, e dirigido pelo último, a história mostra
paralelamente dois ambientes: no primeiro, um grupo de amigos
embarca numa viagem com destino a uma cabana isolada, que é situada
no meio da floresta; no outro, acompanhamos dois personagens que
parecem ser algum tipo de cientistas que observam cada passo dado
pelo primeiro grupo. Embora as brincadeiras com o gênero sejam
recorrentes, O Segredo da Cabana acaba se tornando aquilo que
achava não existir mais: uma grandíssima surpresa.
FYC:
O elevador.
17.
Corrente do Mal, de
David Robert Mitchell
(It
Follows. EUA, 2014)
No
segundo ato de Corrente do Mal, a personagem interpretada por Maika
Monroe afirma que Hugh teria a contaminado e que ela deveria escolher
se passaria o vírus adiante ou não; de qualquer forma, ela
carregaria aquilo até seus últimos dias. É assim que a narrativa
de David Robert Mitchell se assume como uma interligação clara
entre o conhecido slasher dos anos 70 e a conscientização sexual
dos anos 2000. Não deixando claro a época que o filme se passa,
algo que ressalta ainda mais as inseparáveis barreiras entre década
e subgênero, o cineasta retorna ao espectro da revolução sexual da
década de 60, quando a chegada da pílula anticoncepcional
potencializou o sexo como um dos fundamentos mais básicos do terror.
Se você transasse, as chances de sobreviver eram nulas. Mas é
levantando sempre novas hipóteses, tensões a cada passo e o
afastamento do moralismo que David Robert Mitchell deixa seu nome na
história.
FYC:
O significado das cores na narrativa.
16.
Deixe
Ela Entrar, de
Tomas Alfredson /
Deixe-me Entrar, de
Matt Reeves
(Lát
den rätte komma in/Let Me In.
Suécia/EUA, 2008/2010)
O
relacionamento de duas pessoas tratadas como diferentes em uma
sociedade e o amor que transcende barreiras manifestadas por um
ingênuo desejo. No original sueco, a adaptação é exibida através
do drama de um menino insuportavelmente infeliz e atormentado; no
americano, o suspense romântico que se torna referência. Ambos,
entretanto, chegam à mesma excelência.
FYC:
As personagens deitam nuas ao lado dos garotos (como se finalmente se
entregassem por completo, sem limites) com o sangue escorrendo pelos
lábios, enquanto eles as pedem em namoro.
15.
Os
Outros,
de
Alejandro Amenábar
(The
Others.
Espanha/EUA, 2001)
Diretor
de um dos filmes de terror mais importantes da década de 90, Morte
ao Vivo, Alejandro Amenábar
retornou em 2001 ao gênero que o impulsionou em primeiro lugar para
dar outra célebre contribuição. Os
Outros contava a história de uma
mãe e seus dois filhos que ainda vivem a espera do marido
combatente de guerra. Na solidão de seu isolamento, a família
passa a ser repetidamente assombrada por forças que só
compreenderão ao fim.
FYC:
Poucas sequências são tão inesquecíveis quanto aquela em que a
família descobre sua verdadeira natureza.
14.
Babadook,
de
Jennifer Kent
(Australia,
2014)
Numa
família em que a falecida figura do pai é presente em sua rotina,
um conto de fadas assustador ganhar forma pode ser uma consequência.
Jennifer Kent surge ao mundo como uma das maiores promessas do
cinema contemporâneo ao analisar o espectro da ausência na rotina
de uma família e a fragilidade do lar, ao mesmo tempo em que uma
figura opressora aparece.
FYC:
Baba-dook-dook.
13.
A Bruxa,
de
Robert Eggers
(Reino
Unido,
2015)
Uma
visão feminista e intrigante sobre a bruxaria no século XVII. Um
dos filmes mais importante da A24.
FYC:
O
exorcismo no menino.
12.
Em Minha Pele, Marina
de Van
(Dans
ma peau. França, 2002)
O filme da brilhante Marina de Van é uma obra que fala sobre os sete pecados capitais, mesmo que isso não seja expositivo. Estão ali: a gula, a luxúria, a cobiça, a inveja. Na melhor amiga que passa a odiar o tratamento recebido pela colega que colocou lá e agora passa a ocupar o lugar que sempre quis. Numa piscina fica claro a inveja que sente, quando torce para todos observarem o quanto Esther é repulsiva. O quanto aquela srta. Perfeita se desfigura. E ela realmente se desfigura. Mas porque deseja sentir algo. Numa crítica ao social-consumo e a elite, de Van permite que seja exposta. Desnuda-se em frente às câmeras para se mutilar. Ter algo que a lembre de que algo nela é feio. A cena do restaurante é a mais icônica do longa-metragem, quando a instabilidade chega ao ápice e carnes são naturalmente cortadas.
FYC:
Esther não sente mais seu braço, no restaurante.
11.
Amer, de Helene Cattet e Bruno Forzani
(Bélgica/França,
2009)
Movendo-se
muito mais por ostentações de sentidos e prazeres estéticos do
que propriamente da substância da história, embora esteja lá; é
na exploração de suas cores, sua fotografia e cenários, os
maiores artifícios do cinema de Forzani e Cattet. No caso de Amer,
todo esse cuidado na forma como a narrativa é construída nasce tão
impactante e detalhista que arrisco dizer que o próprio Argento –
a principal inspiração – deve ter ficado orgulhoso. Ambos não
almejam o susto fácil, mas a subjetividade que as cores possuem.
Qual é o significado de cada plano e a combinação entre eles. As
perguntas acabam sendo outras.
FYC:
O balé de cores no decorrer da narrativa.
10.
Pesadelo
Mortal, de
John Carpenter
(John
Carpenter's Cigarette Burns.
EUA, 2005)
Em
2005, um dos projetos mais audaciosos do gênero era lançado,
chamado de Mestres de Horror. A proposta era simples: diretores
tidos como "gênios do terror" seriam convidados para
realizar telefilmes. Não foi um grande sucesso ou um catálogo
muito expressivo, principalmente levando em conta tanta liberdade
criativa; entretanto, foi de lá que saiu a última obra-prima de
John Carpenter, a qual foi traduzida no Brasil como Pesadelo Mortal.
Na trama, um antigo colecionador contrata um homem falido para
recuperar a cópia rara de um filme.
FYC:
Um homem acorrentado é tido como relíquia para o colecionador.
9.
Corra,
de
Jordan Peele
(Get
Out.
EUA, 2017)
O
terror racial jamais havia sido explorado como neste clássico
instantâneo. Iniciando com uma cena espetacular de um homem negro
num bairro de classe média assustado com a presença de um carro
luxuoso, Jordan Peele é inteligentíssimo na construção de sua
atmosfera ao deixar com que cada aspecto aterrorizante seja
sintomático e jamais gratuito.
FYC:
A
tensão sobre quem sairá da viatura da polícia e como procederá.
8.
mãe!,
de
Darren Aronofsky
(mother!,
EUA,
2017)

Cinema não é só aquilo que se diz. Não é só o que é mostrado em tela. A arte não é evidência. É subjetiva, metafórica, aflitiva. A nova obra-prima de Aronofsky, mãe!, não fala sobre milhares de desconhecidos entrando numa casa com o aval de um homem controlador. Não. Ele utiliza essa metáfora para mergulharmos numa trama paranoica, antirreligião e, acima de tudo, ambientalista. Afinal, um título mais claro que mãe! seria possível apenas se ele viesse acompanhado por … natureza. É sobre ela que Aronofsky se debruça, julgando nosso caráter como civilização – já que somos forasteiros, que se sentem em casa, sem ligar se interferimos ou não no design imaginado para aquela casa, para aquele mundo. Assim, a figura de uma mulher para representar fisicamente a natureza é uma das melhores decisões possíveis que o diretor podia tomar, já que consegue evidenciar ainda mais a relação entre domínio/submissão e a misoginia presente nas mais diversas camadas sociais. Um dos filmes mais controversos dos últimos 20 anos.
FYC:
As
pessoas comem o corpo do filho do anfitrião.
7.
Pontypool,
de
Bruce McDonald
(Canadá,
2008)
É
como se ouvíssemos algo como a transmissão de Orson Welles sobre
Guerra dos Mundos pela primeira vez. Numa perspectiva radiofônica,
Bruce McDonald faz um dos filmes mais tensos dos últimos quinze
anos.
FYC:
A propagação do vírus pela fala.
6.
Midsommar
– O Mal Não Espera A Noite,
de
Ari
Aster
(Suécia,
2019)
O
novo filme de Ari Aster, Midsommar, basicamente sintetiza o horror
moderno como uma ode ao estranhamento. É uma obra complexa sobre a
nossa concepção da morte e do confronto numa viagem contra o que
julgamos errado ou desconhecido. Uma obra-prima.
FYC:
O
sexo
ritualístico.
5.
Kill
List, de
Ben Wheatley
(Reino
Unido,
2011)
Depois
de uma série de filmes para a televisão, o promissor Ben Wheatley
lançava o seu segundo longa-metragem, em 2011. A narrativa continha
traços do que se tornaria a assinatura do diretor: o drama intenso,
o desenvolvimento que culmina no terror e o cinismo pontual. Afinal,
Wheatley não é um diretor de gênero. É um cineasta completo, que
passeia por diferentes vertentes, experimentando em todas elas. Em
Kill List, a história recai sobre um veterano de guerra que começa
a trabalhar como assassino de aluguel, acompanhando um antigo
parceiro, devido a falta de oportunidades de trabalhos para alguém
como ele. Seu passado no campo de guerra acaba exercendo influencia
no seu cotidiano cada vez mais, contudo.
FYC:
O memorável terceiro ato.
4.
Triângulo do Medo, de
Christopher Smith
(Triangle.
Reino Unido,
2009)
Existe
uma passagem na peça A Trágica História do Doutor Fausto,
adaptada por Christopher Marlowe, que descreve exatamente a ruptura
do ser, quando o personagem questiona o valor da vida, e ocasiona
uma renegação ao divino. É o que podemos descrever como o exato
instante em que Jess é confrontada por um navio que emerge do vazio
trazendo seu nêmeses: ela mesma. Obra-prima.
FYC:
Jess é levada pelo intermediário da morte, na figura de um taxi,
para uma despedida final, a qual, tal como Prometeu, será eterna -
pela sua tentativa desesperada de renegar o fim.
3.
Hereditário, de Ari Aster
(Hereditary.
EUA,
2018)