19 de outubro de 2015

Colina Escarlate, A

Não fui, na infância, como os outros
e nunca vi como outros viam.
Minhas paixões eu não podia
tirar de fonte igual à deles;
e era outra a origem da tristeza,
e era outro o canto, que acordava
o coração para a alegria.
Tudo o que amei, amei só.
Assim, na minha infância, na alba
da tormentosa vida, ergueu-se,
no bem, no mal, de cada abismo,
a encadear-me, o meu mistério...
Edgar Allan Poe, Só.

Crimson Peak, EUA, 2015. Direção: Guillermo del Toro. Roteiro: Guillermo del Toro, Matthew Robbins. Elenco: Mia Wasikowska, Jessica Chastain, Tom Hiddleston, Charlie Hunnam, Jim Beaver. Duração: 119 min.

"Duas pequenas borboletas pousam numa lamparina, que aos poucos perde sua intensa luz natural e parece ser sugada por elas". O trecho anterior poderia ser o princípio de uma história trágica de Edgar Allan Poe, mas não o é. É o início de uma bela metáfora cultivada por Guillermo del Toro em sua narrativa, A Colina Escarlate, onde o espectro mais vital de uma família, vinculado à radiante forma de Mia Wasikowska, torna-se atormentado por dois imagos (se nos permitirmos continuar na metáfora), os quais passam a se alimentar de sua juventude, "pureza virgem", dinheiro e solidão.

Na figura de Thomas Sharpe, o novo, o atraente, o mistério que chega na vida de Edith, tal como um poema de Poe, Hiddleston transforma-se na figura gótica sedutora de um estrangeiro que ludibria uma pequena cidadezinha e o tesouro de uma das principais famílias da região. É o Christopher Lee de Guillermo del Toro, cuja dualidade no olhar denota um constante conflito entre franqueza e parcimônia. Suas tentativas desesperadas de consolar uma cada vez mais vítima, Edith, tornam-se uma tentativa de rendição que não já é mais possível. Thomas, afinal, também é uma vítima.

Desta forma, num cruzamento incrível entre Hammer e Hitchcock, del Toro usa o "prometido" ao seu favor. Criando uma obra de pistas/recompensas que é sábia não só em administrar cada individualidade, como também guarda o inesperado em seus personagens. E se os fantasmas surgem como lembranças ou mensageiros, o cineasta brinca com o terror que eles produzem em nós, não importando a natureza da mensagem. Observe a maneira com que os enquadramentos no corredor são feitos pelo mexicano e como ele nunca deixa de entregar o que ele quer - neste sentido, caso um fantasma seja avistado, ele irá aparecer; não importa se isso servirá ou não como susto na trama.

Igualmente, caso del Toro buscasse homenagens impassíveis ao terror clássico, Dr. Alan McMichael nasceria com o único intuito de servir como âncora para a frágil Edith Cushing (Cushing!), que seria salva no último minuto pelo seu cavalheiro sem armadura; correto? Errado. E é aí que a narrativa do mexicano se torna ímpar. Ao começar pela natureza feminista de sua obra, que já é denunciada na maneira dispare como Edith Cushing é vista na sociedade, quase independente, algo que inclusive irá despertar a atenção e amor de Thomas, que acaba se lembrando da própria irmã. Em poucos minutos, Edith é renegada por um livro "masculinizado" para a época, é tratada com desdém pelas mulheres por seu estilo inusitado de não estar à procura de um marido e nunca se deixa influenciar pelo charme do doutor Alan. Ela constrói seu próprio caminho para chegar até a mansão da Colina.

Lucille, interpretada soberbamente por Jessica Chastain, é a única que percebe a força de Edith. A luta final entre as duas não serve apenas como um clímax esperado, mas como um duelo entre antagonistas, paradoxos de uma mesma figura. Cushing x Lee, de outra época. As mulheres são a força de del Toro e é com elas que chegamos às revelações do castelo. Da estrada de sangue que nos conduz até ele - analise, aliás, as marcas no chão que a carruagem passa.

Não à toa, a única nudez permitida no filme é a de Thomas. Uma figura que se rendeu pra sexualidade há muito tempo. E vive por ela. Assim como morrerá. 


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