6 de março de 2015

Sniper Americano

American Sniper, EUA, 2014. Direção: Clint Eastwood. Roteiro: Jason Hall, baseado no livro de Chris Kyle, Scott McEwen e Jim Delefice. Elenco: Bradley Cooper, Sienna Miller, Kyle Gallner, Ben Reed, Keir O'Donnell. Duração: 132 min.

Há uma cena de Sniper Americano que basicamente resume toda a mensagem ideológica de Clint Eastwood: clamando para um menino não pegar uma arma no chão, Kyle hesita antes de dar o tiro fatal. A incômoda sequência serve muito mais do que um raciocínio sobre fatalidades da guerra, mas indica como o uso da câmera pode ser assustadoramente cuidadoso para fabricar sensações – neste caso, o que achamos do soldado prestes a matar uma criança. O diretor semeia uma sutileza impressionante, que nos faz refletir sobre nosso papel como espectador, já que, na perspectiva de Chris Kyle, passamos a ser cúmplices de assassinato. Ao mesmo tempo, a técnica utilizada nessa “simples” combinação de moral e imersão transforma-se num fascinante estudo ético que evidencia a inegável habilidade de Clint Eastwood para contar uma história. E até onde ele pode ir. 

Porque, além de tudo, a introdução da pessoa que acompanharemos pelas próximas horas está atrelada ao disparo que ela dá. Impulsionada a chegar até aquele momento. E é exatamente por isso, que, mesmo que ironicamente sua mensagem fuja um pouco de suas intenções, o cineasta termina nos indicando uma mensagem “anti-american-way-life”, fazendo a transição da mira de uma arma no exército para o gatilho que mata um animal numa cidade do interior dos EUA, onde a cultura patriarcal ainda reina. Nela, a figura do pai é o incentivador da agressão como forma válida de defesa, além de claramente ser adepto da cultura da palmada – e, neste sentido, a conversa que os filhos têm com ele na mesa sobre violência é bastante pertinente para ações futuras do filho. Kyle se torna vítima/refém da cultura perpetuada por seu pai, portanto; não pela de Bush. Ainda que ambas não sejam excludentes, frutos de uma “cultura do medo”. Mas sua natureza é reveladora e o uso de transição perfeito para ilustrar o primeiro contato que Kyle tem com a violência: na juventude, em seu período de formação. 

Quando usa como forma de incentivo, assim sendo, durante um encontro com o irmão, anos depois, que o pai deles estaria orgulhoso – a sua referência é essa. Ele apenas está fazendo o que seu pai esperaria dele: agindo em defesa ao seu irmão, sua família e seu país. E é inegável o controle que Eastwood tem em formalizar essas camadas de personalidade de Kyle, inclusive que para isso tenha que ocultar informações relevantes sobre chacinas americanas cometidas em países inimigos, como funcionava a queima de arquivo em terras estrangeiras, etc; pelo contrário, ele aponta os “vilões” como bárbaros que usam crianças e freiras para proteção, para esquecermos que “do nosso lado” temos um assassino de mais de 160 pessoas. Desta forma, sem querer, incentiva a maior indagação que Sniper Americano pode levantar: o papel moral da câmera. Quando observamos o primeiro ato passivos quanto a misoginia, racismo e xenofobia empregada no “treinamento” dos combatentes, o nosso papel é julgar ou absorver o ponto de vista narrativo de nosso protagonista? É uma forma de isenção moral?

Pois, por mais que tenhamos graves problemas com Eastwood usar o cinema como instrumento para mensagens preconceituosas ou tratar pessoas condenáveis como heróis, a narrativa proposta pelo seu diretor é digna de aplausos. Tudo é fabricado com consciência. O uso do irmão é um belíssimo exemplo. Perceba que, após uma declaração infeliz do irmão, sob o ponto de vista de Kyle, ele é rapidamente descartado pelo roteiro. Como se, para o personagem de Cooper, o irmão não existisse mais, a partir daquele momento. Igualmente, é interessantíssima a forma como o stress pós-traumático é evidenciado: e a cena em que Kyle encontra um soldado numa loja é fabulosa por justamente ser extremamente cínica – enquanto este fala sobre como muitos voltaram abalados, aquele não consegue afastar sua cabeça da guerra (e a edição de som merece todos os prêmios possíveis ao ressaltar essa insanidade gradativa do protagonista).

E para trilhar o selvagem caminho de Chris Kyle com um mínimo de simpatia, a escolha de Bradley Cooper é certeira. Conseguindo transmitir nuances de sua performance na constante entrega ao que de pior o patriotismo poderia resultar, Cooper é eficiente em evidenciar a fraqueza moral de seu protagonista e seu apego à figura paternal – além da citada cena em que não consegue assimilar o que seu irmão está falando sobre a guerra ser ruim, a tentativa de esconder seu sintomático desequilíbrio mental ocasionado pela necessidade da batalha, a transmissão do “legado” de violência ao filho, e sua falta de controle sobre suas necessidades, o ator transita entre refém/predador de forma bem sutil e inteligente, o que resulta numa icônica cena, onde, quando perguntado sobre o porquê estar em guerra, a sua convicção em responder que é por os EUA ser o melhor lugar do mundo e é necessário defendê-lo, algo que não faz o menor sentido, é excepcional por conseguir resumir que: primeiro, ele não consegue expor o que passa em sua mente; segundo, ele apenas reforça o discurso que seu país/pai dá. E é curioso que mesmo que não tenhamos acesso à sua mente, percebemos que ele realmente crê naquilo.

É interessante a discussão que um filme tão moralmente corrompido como é Sniper Americano consegue resultar, portanto. Numa época em que A Hora Mais Escura e Argo conseguiram trazer um pouco de ambiguidade para o retrato de guerra nonsense contra inimigos invisíveis, o filme de Clint Eastwood é certamente um desserviço para o contexto; mas, como retrato biográfico a respeito de um homem e narrativa cinematográfica, é um inegável acréscimo.
 

Um comentário:

sofia martínez disse...

Foi uma boa história, mas eu acho que o patriotismo como exagerado. Foi amplamente divulgado o trailer do “Filme American Sniper”, de Clint Eastwood e estrelado por Bradley Cooper. O longa é baseado no livro de Chris Kyle, homem que foi atirador de elite do exército americano. O objetivo do filme é mostrar como ele, apesar do aparente sucesso profissional, teve tantos problemas pessoais. Francamente, eu esperava muito mais de American Sniper. Não apenas porque ele é dirigido pelo veterano Clint Eastwood. Que esse sim entende de cinema. Mas porque acho que desde The Hurt Locker a guerra não deveria mais ser vista da forma tradicional. Aqui, infelizmente, ela é. E isso é frustrante. Para este filme de Clint, existe claramente um lado bom, um lado justo e que faz sentido, enquanto o outro lado não tem voz e nem argumento. Visão simplista, mais uma vez. Uma pena. Minha nota, se fosse outro diretor por trás de American Sniper, seria ainda menor. Mas respeito demais o Clint para dar-lhe menos que 7. De qualquer forma, para mim, este filme está longe de ser um dos melhores de 2014. Bem feito, verdade. Mas tantos outros filmes vazios são bem feitos… Dá para dispensá-lo sem culpa.