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Idem. EUA, 2015. Direção: Adam Salky. Roteiro: Paige Dylan, Amy Koppelman. Elenco: Sarah Silverman, Josh Charles, Shayne Coleman, Mia Barron, Thomas Sadoski. Duração: 85 minutos.
Um
dos aspectos mais fascinantes de uma condição depressiva é a possibilidade de
dissimular seus problemas internos com um simples sorriso ou gracejo com
familiares e amigos. Sorria de volta. E responda que tudo vai bem. Essa fuga da
realidade é exatamente a escolhida pela personagem de Sarah Silverman para
lidar com a sua bipolaridade. É na tentativa de flertar com o guarda para
deixar o carro estacionado em vaga imprópria, na tentativa de ser engraçada com
os filhos – algo que ainda arranca o vislumbre de um sorriso do seu marido; os
problemas de Laney são sintomáticos.
Percebendo
na figura de Silverman todas as nuances de sua protagonista, o diretor Adam
Salky centraliza toda a atenção na face emblemática da atriz, que parece
carregar todo o peso do mundo consigo. Em close constante, observamos Laney
sucumbindo em todas suas personalidades: de entusiasta e complacente para
trágica. Há ao menos quatro grandes momentos que retratam o afastamento dela e
sua família, por exemplo: no primeiro frame, a personagem está afastada de sua
família, analisando a felicidade do marido e filhos de longe, enquanto cheira
cocaína; no segundo, ela bebe na cozinha, novamente deixando o marido e as
crianças na mesa em que não se sente mais à vontade; no terceiro, o afastamento
é confirmado quando as crianças a flagram no banheiro com uma nova dose; até,
finalmente, fragilizada, com marcas no rosto, a única pessoa que a julga é seu
marido, do alto da escada. (Aqui, aliás, um parênteses pode ser aberto, que
contém spoilers do filme, é claro. Caso não queira saber o que ocorre, pule
para o próximo parágrafo. O destino de Laney pode resultar numa dubiedade
curiosa: mesmo que ela volte para a casa apenas para um último adeus, a
experiência pode não ser tão literal, já que a edição de som firma a batida da
cabeça dela na parede e sugere na própria leveza da personagem que ela não
sente mais nada por estar próxima da morte.)
Essas
nuances e o passo a passo da desestabilidade de Laney, entretanto, é fruto de
um trabalho primoroso de Sarah Silverman, na atuação de sua carreira.
Sublinhando as sutilezas do vício (a garrafa escondida no armário, o pirulito
que permanece a única constante em sua vida e lhe dá ares juvenis, etc.)
combinado com a bipolaridade e a falta de medicação, a atriz denuncia fagulhas
de irritação conforme vai reprimindo mais seus sentimentos e conforme a mudança
de rotina se dá em sua vida: no colégio das crianças ou no amante que fala que
a ama. Da mesma forma, a nítida expressão de descaso com o que se sucede é
brilhante, como se estivesse já esperando que tudo fosse dar errado em algum
momento. E o próprio encurralamento que começa a sentir: analise o semblante
quando ela se vê entre a esposa de Donny perguntando sobre o paradeiro do
marido e o guarda que não lhe permite mais a ter suas facilidade.
A
realidade vira o maior terror de Laney. Na condição que os prazeres de sua vida
adulta duram segundos, como suas transas, ela tenta transparecer uma
infantilidade em suas ações, por medo de sua condição. E é exatamente por isso
que duas propostas do filme acabam sendo tão fortes em sua vida: a primeira
delas, a masturbação com um ursinho faz com que ela perda a linha tênue que a
equilibrava; e, claro, o filho, que a faz lembrar de si mesma. Não à toa, o
choro na apresentação é de alívio. Um sentimento de que ambos ainda podem
produzir algo. Mas que, ainda assim, ela não estava pronta.
Até
porque, ultrapassando sinais vermelhos e esperando o momento derradeiro, Laney
passa a não existir mais. Torna-se um espectro de seus tormentos e orgasmos
rápidos. Uma morta-viva. Que apenas continuará andando. Até o fim.