26 de outubro de 2015

Sicário: Terra de Ninguém

Sicario, EUA, 2015. Direção: Denis Villeneuve. Roteiro: Taylor Sheridan. Elenco: Emily Blunt, Benício Del Toro, Josh Brolin, Daniel Kaluuya,  Jon Bernthal, Victor Garber. Duração: 121 min. 

É um cinema de extremos, o de Denis Villeneuve: o controle da mente, em Homem Duplicado; os horrores da guerra, em Incêndios; os atos violentos cultivados pelo desespero, em Suspeitos. Em Sicário, outra vez, o diretor canadense oferece seu niilismo perverso como fruto de compreensão - quais ações levaram os personagens a chegarem até aquele ponto: basicamente o que movimenta sua filmografia.

Assim, Villeneuve procura desculpas para seu sadismo ao demonstrar uma verdadeira zona de guerra nos EUA, fazendo com que a forte líder de operações do FBI, Macy (Emily Blunt), padeça diante dos horrores e da hostilidade que observa no seu cotidiano. É a rua contra a burocracia, em Sicário. Entretanto, numa visão unilateral. 

Se de um lado o talento de Villeneuve é destacado ao quebrar expectativas ou construir uma tensão sintomática, como a vulnerabilidade do policial mexicano (de costas, na cama) demonstra em sua primeira cena, ou nos corpos mutilados expostos, o cinismo com que encara os personagens de Blunt e Daniel Kaluuya afasta. Principalmente, após a brutalidade e a submissão deles, quando o canadense arrisca criar uma humanidade que não existe mais, vide a cena em que os olhos aterrorizados dos dois são os destaques no túnel.

No fim, o registro de um jogo de futebol sendo pontuado por sons de tiros se torna tão incômodo quanto nossa convivência com os personagens de Del Toro e Brolin. Mas não por intenção do diretor. 


*Crítica originalmente produzida para o Diário Catarinense

22 de outubro de 2015

Beasts of no Nation


Idem, EUA, 2015. Direção: Cary Joji Fukunaga. Roteiro: Cary Joji Fukunaga, baseado no livro de Uzodinma Iweala. Elenco: Abraham Attah, Idris Elba, Emmanuel Affadzi, Ama Abebrese, Francis Weddey, Emmanuel Nii Adom Quaye. Duração: 137 minutos.

Numa das cenas mais emblemáticas de Beasts of no Nation, o Comandante inicia um cântico com seu combatentes para durante a dança pré-guerra poder ouvir o coração deles batendo, esperando pelo momento da batalha.  Na guerra física e mental proposta por Cary Joji Fukunaga, as crianças e a juventude são as principais baixas dentro da realidade mortal que elas passaram a fazer parte.

A figura escolhida para dar vida à trajetória de uma criança da ingenuidade para a vingança é Agu, que vivia em uma comunidade dizimada pela guerra civil. É a voz do filme, literalmente - aliás, talvez o único problema, ao criar um conflito entre a brutalidade evidenciada e a filosofia existencialista da narração. A narração de Agu está lá para protegê-lo, não fazer com que o espectador o julgue. Ele procura entender o que está fazendo, quais as ramificações e o que ela está perdendo neste percurso. Soa prejudicial, já que compreendemos os limites que a criança chega ou a abordagem que ela toma.

Desta forma, quando Fukunaga é mais sutil, o filme igualmente ganha uma solidez muito maior. Um dos melhores enfoques do diretor, por exemplo, é a liderança d'O Comandante e seu relacionamento com Agu e Strika. Afinal, o personagem é a figura perdida na vida daquelas crianças, o pai que elas não possuem mais. É o elo de ligação delas entre a guerra e a vingança. Quem os ensina a ser como são.

Nesta perspectiva, a voz do imenso Idris Elba intercala entre simpatia e austeridade, fazendo com que o choque seja muito maior na cena em que se aproveita da fragilidade de Agu, fazendo com que, antes, este acredite que só quer o seu bem e que guarde segredo. Na mesma linha, a voz do Comandante sendo constante no primeiro assassinato de Agu ("Eles mataram seu pai") é reveladora, pois evidencia a extrema influência da figura paterna naquele crime que assistimos.


De tal modo, quando nos deparamos com mísseis tomando os céus, aos olhos daquelas crianças de vigia, compreendemos que no mundo delas, não importa o que aconteça, não há mais estrelas cadentes ou fogos de artifício. Apenas guerra.  

19 de outubro de 2015

Colina Escarlate, A

Não fui, na infância, como os outros
e nunca vi como outros viam.
Minhas paixões eu não podia
tirar de fonte igual à deles;
e era outra a origem da tristeza,
e era outro o canto, que acordava
o coração para a alegria.
Tudo o que amei, amei só.
Assim, na minha infância, na alba
da tormentosa vida, ergueu-se,
no bem, no mal, de cada abismo,
a encadear-me, o meu mistério...
Edgar Allan Poe, Só.

Crimson Peak, EUA, 2015. Direção: Guillermo del Toro. Roteiro: Guillermo del Toro, Matthew Robbins. Elenco: Mia Wasikowska, Jessica Chastain, Tom Hiddleston, Charlie Hunnam, Jim Beaver. Duração: 119 min.

"Duas pequenas borboletas pousam numa lamparina, que aos poucos perde sua intensa luz natural e parece ser sugada por elas". O trecho anterior poderia ser o princípio de uma história trágica de Edgar Allan Poe, mas não o é. É o início de uma bela metáfora cultivada por Guillermo del Toro em sua narrativa, A Colina Escarlate, onde o espectro mais vital de uma família, vinculado à radiante forma de Mia Wasikowska, torna-se atormentado por dois imagos (se nos permitirmos continuar na metáfora), os quais passam a se alimentar de sua juventude, "pureza virgem", dinheiro e solidão.

Na figura de Thomas Sharpe, o novo, o atraente, o mistério que chega na vida de Edith, tal como um poema de Poe, Hiddleston transforma-se na figura gótica sedutora de um estrangeiro que ludibria uma pequena cidadezinha e o tesouro de uma das principais famílias da região. É o Christopher Lee de Guillermo del Toro, cuja dualidade no olhar denota um constante conflito entre franqueza e parcimônia. Suas tentativas desesperadas de consolar uma cada vez mais vítima, Edith, tornam-se uma tentativa de rendição que não já é mais possível. Thomas, afinal, também é uma vítima.

Desta forma, num cruzamento incrível entre Hammer e Hitchcock, del Toro usa o "prometido" ao seu favor. Criando uma obra de pistas/recompensas que é sábia não só em administrar cada individualidade, como também guarda o inesperado em seus personagens. E se os fantasmas surgem como lembranças ou mensageiros, o cineasta brinca com o terror que eles produzem em nós, não importando a natureza da mensagem. Observe a maneira com que os enquadramentos no corredor são feitos pelo mexicano e como ele nunca deixa de entregar o que ele quer - neste sentido, caso um fantasma seja avistado, ele irá aparecer; não importa se isso servirá ou não como susto na trama.

Igualmente, caso del Toro buscasse homenagens impassíveis ao terror clássico, Dr. Alan McMichael nasceria com o único intuito de servir como âncora para a frágil Edith Cushing (Cushing!), que seria salva no último minuto pelo seu cavalheiro sem armadura; correto? Errado. E é aí que a narrativa do mexicano se torna ímpar. Ao começar pela natureza feminista de sua obra, que já é denunciada na maneira dispare como Edith Cushing é vista na sociedade, quase independente, algo que inclusive irá despertar a atenção e amor de Thomas, que acaba se lembrando da própria irmã. Em poucos minutos, Edith é renegada por um livro "masculinizado" para a época, é tratada com desdém pelas mulheres por seu estilo inusitado de não estar à procura de um marido e nunca se deixa influenciar pelo charme do doutor Alan. Ela constrói seu próprio caminho para chegar até a mansão da Colina.

Lucille, interpretada soberbamente por Jessica Chastain, é a única que percebe a força de Edith. A luta final entre as duas não serve apenas como um clímax esperado, mas como um duelo entre antagonistas, paradoxos de uma mesma figura. Cushing x Lee, de outra época. As mulheres são a força de del Toro e é com elas que chegamos às revelações do castelo. Da estrada de sangue que nos conduz até ele - analise, aliás, as marcas no chão que a carruagem passa.

Não à toa, a única nudez permitida no filme é a de Thomas. Uma figura que se rendeu pra sexualidade há muito tempo. E vive por ela. Assim como morrerá. 


20 de agosto de 2015

Retorno a Ítaca, O

Retour à Ithaque, França/Bélgica, 2014. Direção: Laurent Cantet. Roteiro: Laurent Cantet, Leonardo Padura, Lucia Lopez Coll. Elenco: Isabel Santos, Jorge Perugorría, Fernando Hechevarria, Néstor Jiménez, Pedro Júlio Diaz Ferran. Duração: 95 minutos.

É difícil não se sentir fisgado pela proposta narrativa do interessante Laurent Cantet, em O Retorno a Ítaca. Conferindo uma pessoalidade tão forte aos seus personagens que as discussões acaloradas parecem como aquelas em que sentimos amigos se exaltar em mesa de bar, os amigos dançam, divertem-se, refletem, criticam e amam – sem ordem pré-estabelecida. Claro que o cineasta sintetiza a evolução da conversa numa linha crescente, mostrando que da chegada de Amadeo em Havana até o sol nascer muito se desenvolve em dissabores e amarguras, mas sem que para isso deixe a sensibilidade de lado.
E é sempre muito bem humorada e inteligente, a forma como Cantet discute família, sociedade, casa e amizades. A própria inserção de Eddie, como o alívio cômico que tenta mudar os assuntos para evitar grandes conflitos, mas que também traz o seu, indica essa natureza. Sendo honesto com sua proposta, afinal, sem se interessar em grandes pontos de virada, a leveza do filme acaba influenciando ao seu favor, e faz com que nos importemos com o teor das conversas entre Amadeo, Eddie, Tanía, Rafa, Aldo.
Cantet é um diretor que extrai muito do pouco. E aqui prova mais uma vez este talento.

18 de agosto de 2015

Obra

Idem, Brasil, 2014. Direção: Gregório Graziosi. Roteiro: Gregório Graziosi e Paolo Gregori. Elenco: Irandhir Santos, Júlio Andrade, Lola Peploe. Duração: 80 minutos. 

Concentrando todas as suas atenções num homem atormentado pelos pecados do avô, Obra é um longa-metragem instável que simula uma sensibilidade apenas pelo comprometimento físico e narrativo do talentosíssimo Irandhir Santos. Ofuscando uma dramaturgia pobre, onde os personagens se acusam como se estivessem numa novela das 9 (“como você dorme durante a noite?”), o filme de Graziosi apenas se sustenta na luta de João Carlos quanto ao seu corpo e consciência. E é interessantíssimo como os dois se interligam aos poucos na trama, como indica o começo da manhã do protagonista em três oportunidades: a primeira, após uma transa com duas mulheres; a segunda, acordando para um alongamento em casa, com o corpo já dolorido; a terceira, a demora angustiante ao colocar a roupa para o trabalho.


O paralelo entre vida profissional e pessoal, assim sendo, é suficientemente competente pelo drama vivido por um inspirado Irandhir Santos, noutra grande atuação. Avalie, igualmente, que podemos notar grandes problemas na família sem precisar adivinhar: o casal falando outra língua um com o outro ou a falta de respostas. Da mesma forma, o arquiteto fala em legado às vésperas do nascimento do filho como se levasse o mundo nas costas, uma simbologia bacana, mas que escorrega no ritmo proposto.

É um filme superficial, afinal, onde os prédios se sobrepondo a figura humana carrega um reflexo para a linha narrativa.