6 de fevereiro de 2013

Os Miseráveis

Les Misérables, Inglaterra, 2012. Direção: Tom Hooper. Roteiro: William Nicholson, baseado no musical idealizado por Alain Boublil e Claude-Michel Schönberg, que se fundamentaram no romance de Victor Hugo. Elenco: Hugh Jackman, Russell Crowe, Anne Hathaway, Amanda Seyfried, Eddie Redmayne, Samantha Barks, Sacha Baron Cohen, Helena Bonham Carter, Aaron Tveit, Daniel Huttlestone. Duração: 158 min.

Existe uma predisposição a odiar cada nova obra de Tom Hooper desde que este ganhou o Oscar de David Fincher no ano de 2011. Já se criam suposições sobre o longa-metragem antes mesmo dele chegar as telas de cinema e procura-se erros por antecipação. Em seu novo filme, Hooper certamente é responsável por grande parte dos erros, mas também pelas irretocáveis decisões narrativas que confirmam Os Miseráveis como uma obra que funciona tanto como homenagem ao famoso musical quanto como algo belissimamente atuado e concebido.

Escrito pelo roteirista William Nicholson (Gladiador), que se baseou no musical idealizado por Alain Boublil e Claude-Michel Schönberg, fundamentados no romance de Victor Hugo, a história é basicamente dividida em duas tramas diferentes: na primeira, acompanhamos Jean Valjean recém-saído da prisão que era comandada pelo inspetor Javert e a de Fantine, que para sustentar sua filha se sujeita a todos os tipos de humilhações para ganhar alguns trocados; na segunda, a tentativa de uma revolução francesa.

Criando previamente duas decisões narrativas que auxiliam a história e as atuações (que transformam os sentimentos e emoções em algo muito mais crível), Hooper é inteligentíssimo a filmar seus personagens basicamente em closes constantes – assim, tornando-nos mais íntimos das suas vidas e sofrimentos. Além disso, com a determinação de alcançar uma honestidade nas interpretações das canções do musical, o diretor opta acertadamente a não interferir na trama gravando as vozes dos atores em estúdio – algo que, ao mesmo tempo em que prejudica alguns atores a atingir as notas (Russell Crowe em Stars), transforma as reflexões cantadas em algo muito mais intenso e humano.

Da mesma forma, suas elipses oferecem uma elegância que a maioria de seus outros enquadramentos não parece ter – neste cenário, aliás, analise como Hooper parece não ter ideia de quais tipos de planos irá utilizar, criando-se, assim, o ponto mais falho do longa-metragem. Continuando nesta linha de raciocínio, o diretor assemelha-se a um garoto emergente do colegial que viu um amontoado de enquadramentos e planos que considerou bonitinho e quis utilizar tudo isso em um filme seu, mesmo que eles sejam completamente inadequados para o que se sucede na trama. Por outro lado, mesmo com esses percalços estéticos, Os Miseráveis conta com uma excelente produção – desde o design arquitetado por Eve Stewart e Anna Lynch-Robinson (a cena na prisão é belíssima) até a mixagem de som.

Ofuscando quase tudo que poderia ser enquadrado como algo vergonhoso, o elenco ainda cria seres humanos com particularidades dúbias e que criam uma emoção que talvez o roteiro de Nicholson não apresentasse por si só. Hugh Jackman, assim sendo, faz uma das melhores atuações de sua carreira ao compor na figura de Jean Valjean alguém em constante conflito e que encontra seu ápice na comovente reflexão sobre si mesmo em uma capela ou na inclassificável interpretação de “Who Am I”, que – como se não bastasse – se repete no decorrer da narrativa. Da mesma forma, assistimos a sua frustração e genuinidade quando se depara pela primeira vez com o jovem Marius, culminando em mais uma tocante canção.

E se o filme perde um pouco o ritmo nesta segunda parte, graças às incursões deslocadas de Cohen e Carter, Samantha Barks quase rouba a cena com uma personagem extremamente ambígua e interessante – mesmo que ande sempre as sombras do seu amor, seu maior momento é na cumplicidade com Marius quando está à beira da morte. Russell Crowe também é comprometido com seu Javert e, mesmo que o roteiro não arranje tempo para aprofundar um pouco mais em seu caráter (soando superficial algumas vezes), através de seus olhares, ao decorrer do longa-metragem, consegue se estabelecer como um sujeito instigante. Mas é Anne Hathaway, mesmo com pouco tempo de cena, que deslumbra em seu impecável desempenho. Criando uma moça com a complicadíssima tarefa de mostrar toda a sua transformação em escassas cenas, a atriz deixa toda a amargura, rancor e frustração com a vida para uma performance impressionante em "I Dreamed A Dream". Neste caso, observe a raiva com que ela articula cada frase que profere ou os olhares suplicantes de atenção para que algo maior se manifeste ao seu favor.

Por fim, nada consegue afastar dos meus pensamentos que se Hooper fosse apenas um consultor narrativo ou mais equilibrado na direção, certamente, o filme seria mais abraçado do que está sendo. Afinal, ele é um diretor que já proporcionou obras televisivas excepcionais, como Longford ou a minissérie John Addams, mas que clama para que a mesma excelência e moderação apareçam nos cinemas. Quem sabe, algum dia, seja Hooper o nome inquestionável das premiações.

                                         

4 de fevereiro de 2013

Lado Bom da Vida, O

Silver Linings Playbook, EUA, 2012. Direção: David O. Russell. Roteiro: David O. Russell, baseado no livro de Matthew Quick. Elenco: Bradley Cooper, Jennifer Lawrence, Robert De Niro, Jacki Weaver, Chris Tucker, John Ortiz, Julia Stiles, Anupam Kher, Brea Bee, Shea Whigham. Duração: 122 min.

Boa parcela dos indicados ao Oscar de 2013 são filmes que abordam temas relevantes e que nas mãos certas renderiam narrativas ambiciosas e marcantes. Só que ao mesmo tempo em que temos obras como O Mestre (do diretor Paul Thomas Anderson), também somos “presenteados” com obras infantis e inoportunas, como o novo filme de Spielberg, Lincoln. O Lado Bom da Vida fica na linha tênue entre os dois – mostrando que pode versar com uma certa profundidade em momentos pontuais, mas que também se rende ao óbvio em outros tantos.

Escrito e dirigido pelo eficiente diretor David O. Russell (O Vencedor), baseado no livro de Matthew Quick, o filme conta a história de Pat (Cooper), que foi internado numa instituição psiquiátrica, após encontrar sua esposa com o amante no chuveiro de sua casa, e tenta se reestabilizar na vida. Explosivo, inconsequente e com diversos problemas familiares, Pat ainda está apaixonado pela esposa e precisa entregar uma carta pedindo o seu perdão e evidenciando sua melhora. Assim, encontra na figura da igualmente problemática Tiffany (Lawrence) sua principal “ferramenta” de ajuda para todos os seus problemas.

Mas é não permitindo seu público a pensar por si mesmo e abraçar a história crível que está visualizando na tela que O. Russell encontra o seu maior problema. Indicando cada situação como se fosse um dicionário explicando palavra por palavra para o leitor, o diretor investe em diálogos expositivos e momentos óbvios que soariam muito melhor se fossem apenas sugeridos. Em um determinado instante, por exemplo, a personagem de Lawrence, depois de confessar toda uma ocasião dramática intensa, chega a exclamar: “Isso é um sentimento”. Além disso, emprega com deselegância travellings circulares sem nenhum sentido a todo o momento (desde uma simples conversa até passagens ao redor do rosto de Cooper, algo que ocorre dezenas de vezes no longa) e utiliza simbolismos evidentes com frequência (Pat vestindo-se com um saco de lixo é o mais tolo deles). Como se não bastasse, ainda, joga suas subtramas para escanteio quando acha cômodo – um ótimo exemplo é o completo esquecimento das sessões de terapia com o psiquiatra ou a questão dos remédios afetarem o seu comportamento. 

Em contrapartida, O. Russell encontra mais uma vez substância no entrosamento de seu elenco e na naturalidade com que extrai esses momentos. Nesta perspectiva, opera de forma sábia o timing das cenas e as posições de cada personagem na narrativa (observe o momento em que De Niro está apostando algo com Randy e Pat e Tiffanny brigam fortemente atrás). Do mesmo modo, a cena, em que Lawrence se arrepende de ter se fingido de vítima quando as pessoas e a polícia abordam Cooper, é hábil em provar o conflito que Pat está vivendo dentro de si mesmo. 

E é contando com uma química fortíssima entre os dois protagonistas que o filme transmite alguma excelência. A decisão de colocar Bradley Cooper, neste panorama, como um jovem problemático e que se vê como um fardo para a família/sociedade soa apropriadíssima. O ator consegue transmitir com sensibilidade cada aspecto frágil e culpado de seu personagem, mesmo que O. Russell às vezes tente sabotar isso. (Até agora tento entender a necessidade de focar a aliança de Pat numa das sessões – sendo que ela já havia sido visitada outras vezes –, algo que é mostrado muito mais natural depois, quando ela não está mais lá no clímax final).

Jennifer Lawrence, da mesma forma, constrói uma personagem bastante imaginável e com problemas verossímeis: suas explosões são sempre correspondentes ao caso vivido e demonstra fragilidade pela primeira vez no momento que percebe estar apaixonada. Aliás, a cena da dança – em que apenas com um olhar e tremer de lábios imprime a sensação de excitação com aquele momento – talvez seja minha favorita com os dois. E se a indicação de Jacki Weaver ao Oscar é incompreensível e absurda (a não ser que atuar seja apenas aparecer chorando trêmula a cada cena), Robert De Niro extrai o melhor de um pai que tenta uma reaproximação com seu filho. Comunicando-se por metáforas para não sublinhar de forma clara os seus sentimentos, uma das cenas mais fortes é aquela em que admite ao filho, com os olhos marejados, o período em que estão vivendo. 

Ainda que pareça disposto a escancarar cada aspecto de seu filme sem deixar no ar qualquer tipo de aprofundamento, a verdade é que O. Russell tenta nos mostrar uma obra que foge do cinismo tradicional dos atuais filmes do gênero e almeja algo com apenas um final feliz, sem duplas interpretações. E isso acaba sendo o maior acerto e falha de seu novo filme.

                              

29 de janeiro de 2013

Lincoln

Idem, EUA, 2012. Direção: Steven Spielberg. Roteiro: Tony Kushner, baseado no livro de Doris Kearns Goodwin. Elenco: Daniel Day-Lewis, Sally Field, David Strathairn, Joseph Gordon-Levitt, James Spader, Hal Holbrook, Tommy Lee Jones, John Hawkes, Jackie Earle Haley, Bruce McGill, Tim Blake Nelson, Jared Harris, Lee Pace, Peter McRobbie, Gulliver McGrath, Gloria Reuben, David Costabile. Duração: 150 min.

Sou um dos principais defensores de Cavalo de Guerra. Acredito que a visão infantil de Spielberg para a guerra é explorada de forma competente e adequada, além de nos oferecer cenas magníficas neste ponto de vista – onde podemos destacar a corrida de Joey na terra de ninguém ou o período em que a paz reina por alguns minutos porque dois lados divergentes acabam buscando o mesmo ideal: salvar alguém. Todavia, é com extremo pesar que vi o diretor ambicionando o mesmo caráter ingênuo e utópico de Cavalo de Guerra, que nunca, repito, nunca se encaixaria na história de um homem que teve que se render a uma rede de troca de favores para chegar ao fim da escravidão.

Escrito por Tony Kushner (do excepcional Munique), que se sai muitíssimo bem na adaptação do livro de Doris Kearns por transmitir de forma legível leis e pensamentos jurídicos da época, a história gira em torno do 16º Presidente dos Estados Unidos da América, Abraham Lincoln. Em meio a uma época sangrenta sob a guerra da recessão, no meio de uma nação dividida, o presidente busca unir o país, terminar a guerra e abolir a escravidão de uma só vez – com sua 13ª Emenda. Porém, acaba enfrentando suas limitações como chefe de Estado e precisa vencer na votação de um congresso que não está completamente a seu favor.

Sofrendo gravemente de problemas de ritmo, apresentando muitas sequências de forma muito rápida (a batalha inicial, por exemplo, serve apenas para demonstrar um clima sujo em que pessoas estão pisoteando outras), Spielberg tenta a todo o segundo mostrar como o período em que estamos inseridos é algo cruel e desumano. Dentro dessa proposta, ele cria enquadramentos como aquele em que vemos o choro de Elizabeth Keckley, após ser chamada de anormal no congresso americano ou nas vaias histéricas quando apenas são citadas as emancipações racial e feminina. Além disso, contando com uma trilha infantil de John Williams, que se limita a pontuar os instantes emocionais e os “engraçadinhos” sempre de forma excessiva, o filme ainda muda drasticamente de ritmo em momentos pesados. Neste caso, observe como a tensa votação é trocada por uma correria deslocada até o presidente ou quando um sujeito tenta atirar em alguém recolhendo os papéis no chão ou na criança com o uniforme.

Spielberg, além disso, faz-nos esquecer de por que o chamávamos de gênio nas ocasiões em que decide apenas fazer um trabalho burocrático: tanto nos planos centrais que vão nos aproximando dos personagens enquanto discursam quanto nos cortes durantes as conversas. Do mesmo modo, o estima por enquadramentos de perfil só não é maior que Lincoln andando por corredores, sem querer dizer absolutamente nada. Para não falar nas aparições súbitas e deselegantes de personagens tão importantes (aqui vale ressaltar a primeira vez em que Jones é mostrado ou até mesmo a cena inicial com Lincoln). Em contrapartida, Spielberg consegue ser elegante na maneira como expõe a troca de favores, como se fosse algo natural, rotineira – visualize isso no primeiro acordo que é indicado no longa-metragem (“Diga que é uma necessidade militar”). Ou quando exibe Lincoln lendo para seu filho na hora em que a votação acontece – como se ensinasse uma nova geração a ser mais crítica e madura. Da mesma forma, conta com um filme esteticamente impecável, seja na direção de arte, onde vemos o clima desorganizado da Casa Branca, sem a formalidade presidencial atual (manuscritos, documentos e mesas desarrumadas em reuniões, muitos na sala que falam juntos); seja na fotografia de Janusz Kaminski, que mantém um contraste cinzento, quase sem vida, evidenciando a era de preconceitos e de espaços precários.

E se Spielberg ainda tenta mistificar a figura de Lincoln com seus enquadramentos, só não consegue por uma atuação impressionante de Daniel Day-Lewis. Passando em sua curvatura um aspecto quase frágil, mantendo uma voz cansada, arrastada, proferida quase em sussurros, o ator é impecável na construção das particularidades de seu personagem e em soar bastante humano em determinadas ocasiões. Observe, por exemplo, como o seu olhar (sempre tímido e cabisbaixo) parece buscar uma aprovação para suas histórias e ideais ou na maneira como sustenta suas mãos entrelaçadas – quase como um sinal de apoio ao próximo. Quando se sente ansioso, por outro lado, Day-Lewis procura apontar para mãos mais inquietas e nervosas, quase numa espécie de tique. Além do mais, analise a raiva contida do personagem quando ouve o chamarem de ditador.

Mesmo prejudicado pelo roteiro, Gordon-Levitt também consegue transmitir sua busca para fugir do estigma de filho do presidente. É tocante, aliás, a cena em que se reencontra com o pai: seu olhar surpreso e triste quando Lincoln apenas aperta sua mão e pede para ele se retirar da sala. Tommy Lee Jones, ainda, torna-se bastante feliz na composição de seu Thaddeus Stevens. Transmitindo seus valores inquestionáveis, mesmo que, mais uma vez, o roteiro não permita tanto, o ator parece confortável em como assume o papel de uma pessoa de temperamento forte, mas que se ajusta a um belíssimo autocontrole em um ponto chave da trama, que só é prejudicado por um diálogo expositivo em seguida.

Entretanto, Sally Field parece estar disposta a ganhar de qualquer maneira o seu terceiro Oscar – mesmo que para isso soe dramaticamente patética. Assim, a atriz treme e faz cara de choro a cada aparição (“Ele está aqui, está aqui”), não aprofundando em nada sua Mary Todd e, pior, soando deselegante e grosseira na maioria de suas cenas (“Você nunca será amado como ele. O que isso lhe faz sentir?”).

Não tendo coragem nem de mostrar o destino final de Lincoln, mostrando que sua audácia se perdeu há muito tempo, Spielberg mexe com temas “delicados” de um jeito acriançado e inoportuno. E o que poderia render um filme que escancarasse discriminações, mostrasse a nossa sociedade opressora que é, além de terminar com uma desilusão devastadora, acaba sendo vítima de um diretor que cada vez mais perde a ousadia e genialidade que já foram utilizadas para descrevê-lo.
                              

25 de janeiro de 2013

João e Maria: Caçadores de Bruxas

Hansel & Gretel: Witch Hunters, EUA/Alemanha, 2013. Direção: Tommy Wirkola. Roteiro: Tommy Wirkola e Dante Harper. Elenco: Jeremy Renner, Gemma Arterton, Famke Janssen, Pihla Viitala, Ingrid Bolso Berdal, Peter Stormare, Rainer Bock, Thomas Mann e Derek Mears. Duração: 88 min.

Nos últimos anos, a quantidade de filmes que tentaram adaptar contos de fadas para um clima soturno foi assustadora. A qualidade, idem. Obras catastróficas como Espelho, Espelho Meu, Branca de Neve e o Caçador, A Garota da Capa Vermelha, Alice e tanta outras tomaram as telas de assalto; sim, roubando nosso dinheiro e paciência para tramas grotescas e absurdas. Assim, todo ano que surge uma nova, como o caso deste João e Maria: Caçadores de Bruxas, uma nova apreensão se instala. Tommy Wirkola até não é dono de sequências tão bisonhas quanto as de seus companheiros de gênero, mas também nunca se mostra inspirado ou tenta fugir do convencional.

Escrito por Tommy Wirkola e Dante Harper, quinze anos depois de um traumático evento ocorrido em uma casa feita de doces que era controlado por uma bruxa má, dois irmãos (que se chamam Hansel e Gretel no conto original) tornaram-se caçadores de bruxas que viajam pelo mundo identificando e matando os tais seres. Neste percurso, ambos chegam a uma pequena cidade onde já desapareceram quase doze crianças e se veem inseridos em uma trama (para não variar!) que não estão acostumados.

Não sabendo se investirá em uma trama mais madura e assustadora ou apenas tratará de evidenciar diálogos que já conhecemos há séculos (“Aqui só há morte”, “Bruxa boa é bruxa morta”, “Só pode ser brincadeira”, “Atire no que se mover”), Wirkola transparece bastante sua indecisão já em sua primeira cena. Desta forma, captamos bem o ambiente assustador em que os dois irmãos chegam – uma casa de doces envolta em uma escuridão intimidante e que só chama a atenção pela fome em que eles se encontram –, mas deprimimos, quando notamos as piadinhas deslocadas e tolas que começam a entrar na narrativa (“Está quente agora?”). Seguindo a lógica, também não fica difícil de adivinhar cada passo que será tomado e observar que cada um (tristemente) terá seu interesse romântico para atrasar mais ainda uma trama que poderia ser contada em um curta-metragem.

Ao mesmo tempo, o diretor parece entender que cenas de ação só apontam para cortes rápidos e inúmeras metralhadoras, além de não saber nem situar adequadamente seus personagens em cena durante as batalhas (note a posição de Ben, por exemplo). Do mesmo modo, o 3D, aparentemente, apenas serve para jogar objetos em direção da plateia. Em contrapartida, Wirkola sobra em eficiência na elipse ocorrida nos créditos iniciais ou na boa sequência em que um ogro esmaga uma cabeça com as mãos e pisa noutra com os pés. Ou até mesmo na história dos pais ao calor do fogo.

E se Famke Janssen está risível no papel de antagonista, Renner e Arterton inauguram uma nova categoria neste tipo de obra: protagonistas menos carismáticos e competentes que um ogro – pois, visivelmente, é o único personagem que possui algum conflito interno.

João e Maria: Caçadores de Bruxas até tenta fugir um pouco do tom disforme e embarcar numa atmosfera que não se leva a sério (afinal, um toca discos e metralhadoras automáticas surgem na trama!), mas o máximo que acaba soando é como algo que Zeca Pires faria se tivesse um grande orçamento.
                                 

24 de janeiro de 2013

Django Livre

Django Unchained, EUA, 2012. Direção: Quentin Tarantino. Roteiro: Quentin Tarantino. Elenco: Jamie Foxx, Christoph Waltz, Leonardo DiCaprio, Kerry Washington, Samuel L. Jackson, James Remar, Walton Goggins, Dennis Christopher, Don Johnson, Nichole Galicia. Duração: 165 min.

Pulp Fiction, Bastardos Inglórios, Cães de Aluguel, Kill Bill, À Prova de Morte, Taratino sempre foi respeitado e admirado pela quantidade de sangue jorrando em tela e por inúmeras gags que criava a partir de temas incomuns e irreverentes. Fez seu nome em chacinas sisudas que, se nunca soavam absurdas demais, era justamente pela natureza estranha do próprio. Em Django Livre, o diretor até busca evidenciar as qualidades que seus fãs sempre procuram, mas acaba saindo algo muito mais infantilóide e grotesco do que o sarcasmo brilhante de antigamente.

Escrito e dirigido por Quentin Tarantino, a história acompanha um caçador de recompensas alemão, Dr. King Schultz (Waltz), que está em busca de três irmãos assassinos e conta com a ajuda de um escravo, Django (Foxx), para reconhecê-los. O doutor promete a libertação de Django se este ajudá-lo, além de uma parte do prêmio. Logo, ambos viram parceiros e vivem  matando os criminosos mais perigosos do sul dos EUA. Ao mesmo tempo, os dois procuram o paradeiro da mulher de Django, o que os leva até a fazenda de Calvin Candie (DiCaprio)...

... que é o lugar onde ocorrerá a “ação” desenfreada. Claro que neste meio tempo iremos ver situações surreais e gracejos espalhados pela narrativa, mas geralmente acaba soando como se estivéssemos vendo um remake de A Vida de Brian. Note, por exemplo, a cena da conversa entre os homens encapuzados (que aparece como uma espécie de Ku Klux Klan), onde os “assassinos” param a ação por se sentirem sufocados pelos capuzes. Da mesma forma, Tarantino só parece interessado no choque: seja no figurino destoante de Foxx em determinada cena, nas mortes (como não citar a dos cachorros?) ou nos zooms de aproximação.

E se noutros filmes Sally Menke conseguia esclarecer a visão de Tarantino de uma forma curiosa e orgânica, o mesmo não pode se dizer de Fred Raskin – responsável por um dos fatores mais críticos do longa-metragem. Neste caso, observe a forma como somos introduzidos ao passado dos personagens (quase sempre após alguém ser visto pensando sobre o acontecimento) ou como soa completamente desconexo a maneira como “Hilde” apresenta-se. Aliás, provavelmente, o único momento em que Raskin acerta é no momento em que DiCaprio discorre sobre negros excepcionais, intercalando com ações de Django.

Em contrapartida, Tarantino mostra elegância na maneira como o sangue atinge as flores ou no modo em que ele confirma seu protagonista como uma espécie de salvador – a cena do chicote é um belo símbolo. Porém, ao mesmo tempo, sai-se extremamente nonsense nas aparições de Broomhilda durante o percurso. Todavia, se o diretor parece perdido em como almeja guiar seu filme, o elenco praticamente afasta qualquer dúvida que o longa forneça.

E se Jamie Foxx não possui expressão alguma na pele de Django, DiCaprio e Jackson são bastante eficientes como antagonistas. Desde o gestual físico até a mentalidade social, ambos mostram suas desumanidades de forma certeira. Vale ressaltar aqui o rosto inerte e interessado de DiCaprio durante uma morte ou a explosão durante a negociação dos escravos. Gostaria também de dar um adendo, se me permitirem, a uma decisão narrativa de Tarantino: por que mostrar a conversa entre DiCaprio e Jackson em vez de deixar o espectador tão inseguro e tenso quanto Foxx e Waltz? Falando nele, é Waltz que é o grande destaque do filme e carrega boa parte dele nas costas. Criando uma figura com um timing genial (“Não consegui resistir!”, “Está meio tenso lá fora!” ou “Agora é a hora de chamar o capitão!”), o ator parece se divertir a cada frase que pronuncia. Não só em momentos espirituosos, mas, em cenas dramáticas, também é hábil – aqui, analise o olhar doloroso e assustado de Waltz quando este vê uma morte bastante bárbara.

No fim, chega a ser conveniente, muito mais que a aparição de Tarantino na sequência final, quando Jamie Foxx indaga Waltz: “Espera aí, você ganha prêmios por matar pessoas?”. Pois, assim como em Bastardos Inglórios – no qual o personagem de Pitt serviu como um alter ego do diretor -, ecoa como uma sentença bem pertinente à carreira de Quentin Tarantino. Mesmo que em seu caso não sejam pessoas, mas personagens.