27 de abril de 2011

A Antropóloga

A moda da exaltação cultural
Assim como Rio: o filme A Antropóloga, do diretor Zeca Pires, apesar de indiretamente, também tem como objetivo celebrar a cultura, neste caso catarinense – desde seus costumes (bruxas, misticismos, cantos) até cartões postais (Ponte Hercílio Luz, natureza e mares). É comum, portanto, que observemos durante toda a narrativa os moradores da ilha cantando músicas nativas, passeios de barco ou escuna pelos mares, pessoas querendo ganhar dinheiro de turistas e entrevistas com pessoas ligadas à cultura do local. O grande problema de Pires é tentar transformar todo o misticismo e a cultura fantasiosa da ilha em um longa-metragem de suspense, algo que não ocorre em nenhum momento e ainda proporciona risos involuntários do espectador.

Escrito por Tânia Lamarca e Sandra Nebelung, o filme conta a história de Malu (a linda Larissa Bracher) que chega à Costa da Lagoa, reduto açoriano na ilha de Santa Catarina, para realizar sua pesquisa de doutorado na área de etnobotânica. Por meio de entrevistas e relatos, ela aprende a cultura mística dos descendentes açorianos. Ao acompanhar o tratamento com ervas aplicado em Carolina (Rafaela Rocha de Barcelos), Malu subitamente começa a ter contato com o sobrenatural e passa a enfrentar as mesmas lendas que a trouxeram até ali.

Juntando vídeos e imagens de arquivos com algumas entrevistas que Malu vai realizando no decorrer da narrativa, a montagem do geralmente competente Giba Assis Brasil se mostra extremamente desconcertante e indecisa a nunca saber qual será o tratamento que o filme vai levar. Além de sermos apresentados a vídeos curtos que mostram Franklin Cascaes ou fotografias antigas de algumas das lendas da região, soma-se uma deselegância incrível do montador, o qual ganha contornos piores ao se juntar a incompetência de Pires que, ao ter assistido filmes de terror demais nos anos 60, explora apenas cortes secos de desenhos místicos, contando ainda com uma igualmente precária trilha sonora.

Aliás, a trilha sonora é um dos verdadeiros desastres do longa-metragem. O trabalho de Silvia Beraldo até começa burocrático e sem muita inspiração ao trazer sons comuns para o gênero, mas do 2º ato em diante vira um completo equívoco – aumentando sua trilha sonora a todo o momento sem finalidade alguma ou apenas para passar uma sensação de insegurança e desconforto (algo que é atingido, mas pelos motivos errados). Além de situações risíveis, como no momento em que para demonstrar um machucado a trilha dá um baque ensurdecedor para frisar que algo naquele local está errado.

Infelizmente, não é só Beraldo que mantém uma qualidade terrível durante a narrativa. Zeca Pires consegue transformar o longa em um completo desconforto. Indeciso, assim como a montagem, Pires realiza enquadramentos completamente nonsenses ao fazer planos plongée e contra-plongée sem finalidade alguma e trazer a câmera subjetiva para ressaltar os matagais e o exterior daquelas moradas com ares de perseguição. Como se não fosse o bastante, os enquadramentos surgem sempre extremamente deslocados tanto nos planos de perseguição quanto nos planos comuns – basta notar a cena em que o diretor mostra um imenso céu estrelado e, logo depois, os protagonistas olhando para o mar e conversando sem o céu sendo visto.

Em contrapartida, a montagem possui lampejos de qualidade ao mostrar como a evolução de Malu vai se desenvolvendo, principalmente, nas ótimas cenas em que Malu entrevista os moradores da ilha sobre como chegaram ali, sua cultura e a quanto tempo moram naquela região. Observe como as entrevistas vão mudando para cenas em que Malu passa a perguntar sobre curas, os mitos dos nativos e, claro, sobre bruxaria e misticismo. As seqüências são eficientes por, justamente, trazer o que ainda não havia sido feito até então: formar o caráter da personagem e fazer com que o espectador acompanhe e compreenda as ações que Malu passará a tomar.

E é criando Malu como uma personagem audaz e com um ar notável de curiosidade que Larissa Bracher é um achado ao surgir sempre fazendo anotações e olhando fixamente para seu entrevistado com um honesto interesse e entusiasmo. A atriz apenas peca em seu exagero em algumas cenas, como em sua visita a benzedeira, onde surge tocando e cheirando as plantas do local ou em outra cena terrível (claro, auxiliada pelo roteiro) em que exclama “Tenho azar com homens, vivo só para o trabalho”. Como se isso já fosse suficiente para formar uma particularidade de sua personagem.


Encerrando com um 3º ato tão vergonhoso que deveria ser proibido por algum tipo de lei cultural, Pires consegue a proeza de compilar todos os erros e clichês que um filme de terror pode oferecer. Portanto, cenas como gatos pretos passando pelos personagens para causar sustos, subidas de trilha que tentam provocar tensão ou falas estúpidas como “Você precisa acreditar para enxergar” e “Ele morreu tem mais de 30 anos” são recorrentes na narrativa e chegam a ser ofensivas. Temos: câncer, bruxas, maldições, lobisomens que voam e tradições culturais. Que maneira para dizer: sejam bem-vindos ao cinema catarinense!

 
(1 estrela em 5)

20 de abril de 2011

A Garota da Capa Vermelha (2011)


Não, essa floresta não aparece no filme!

Em sua crítica de Crepúsculo, o crítico Pablo Villaça foi inteligentíssimo ao expor a analogia que Meyer fazia nos livros ao exaltar o sexo e romancear uma história de ficção. Se Villaça descreve que em Crepúsculo vemos o vampiro Edward que tem um anseio de fincar suas presas na jovem Bella e que não sabe o quanto conseguirá segurar-se; em Crepúsculo 2.0, ops, “A Garota da Capa Vermelha”, vemos aparentemente a mesma situação quando um dos dois personagens apaixonados pela mocinha a pega no colo e diz que quer comê-la. Ora, faz sentido que a diretora Catherine Hardwicke queira manter a sua fórmula de uma mocinha que é disputada pelos dois gostosões da cidade, envolvida por monstros e lendas, mantêm diálogos que seriam encaixados em qualquer filme de comédia com o mesmo timing e exalte o sexo. Porém, Hardwicke passa a considerar o seu público ainda mais incapacitado e nos apresenta com “A Garota da Capa Vermelha” um filme não apenas estúpido, mas algo que mantém uma necedade impressionante durante 1h30min.




Escrito por David Johnson (A Órfã), a história gira em torno de Valerie (Amanda Seyfried) que é uma jovem que vive em um vilarejo aterrorizado por um lobisomem. Ela é apaixonada por Peter (Shiloh Fernandes), mas seus pais querem que se case com Henry (Max Irons), um homem rico. Diante da situação, Valerie e Peter planejam fugir. Só que os planos do casal vão por água abaixo quando a irmã mais velha de Valerie é assassinada pelo lobisomem que ronda a região e o povo do vilarejo parte em busca de vingança atrás do animal.



Demonstrando sua falta de qualidade como diretora desde o começo do longa-metragem, Hardwicke faz um trabalho quase hilário ao dar movimento na sua câmera em cenas que os personagens olham para os lados em tons acusatórios e duvidando de tudo e todos; ou focalizar momentos, como a cena em que Oldman é apresentado e surge um enquadramento de dentro da carruagem focalizando a cruz com o padre no meio; ou dar closes nas reações de seus personagens a cada olhar desafiador. Algo que não serve nem como um exercício técnico para a diretora.



Outro grave problema é que nem a diretora sabe o que quer e isso prejudica não só a narrativa, mas também parece que o filme inteiro foi feito às pressas (algo que parece ser comprovado também na péssima direção de arte). Somos apresentados a cenas em que Hardwicke usa a câmera subjetiva para dar ares de perseguição à personagem, algo que além de nunca acrescentar em nada a trama – principalmente por seu mau uso –, é completamente esquecido pela diretora.



Infelizmente, a direção surge até como hilária, em um conjunto inacreditável de erros e que realmente assustam. Ao começar pela edição de som que faz um trabalho tenebroso ao dar alusão a deslizes de personagens entre sombras e burburinhos quando alguma revelação é feita. A trilha sonora de Alex Heffes e Brian Reitzell também faz um trabalho completamente absurdo ao evocar tons aventureiros em cenas de terror ou romancear cenas que deveriam ser importantes; o único acerto dos dois compositores surge na patética cena da festa em formas de uivos, algo interessantíssimo, mas pontual.



Também apoiando as idéias patéticas da diretora, o elenco parece saber exatamente o que fazer ao encarnar personagens para adolescentes histéricas e o que vemos a seguir é uma repetição das atuações de Stewart e Pattinson no primeiro exemplar da “saga dos vampiros”. Fernandes parece querer demonstrar nervosismo quando engole seco, ou mostra os lábios tremendos, ou vira de lado ao exclamar algo, ou até o jeito de andar de seu personagem. Sua construção patética é ainda acentuada pelo figurino que usa – desde o corte de cabelo até a roupa com um decote em v para acentuar seu físico de galã.



Construindo sua personagem de forma igualmente estúpida, Seyfried é ainda mais terrível ao proporcionar cenas como a péssima cena da festa em que aparece para impressionar Peter insinuando uma espécie de lesbianismo para deixar o outro mais ouriçado, ou a cada respiração ofegante da personagem, com frases como “Eu não acredito em você” ou “O amor é mais forte”.



Aliás, o roteiro sempre colabora para as péssimas atuações do longa, o que acaba também sobrando para o geralmente competente Gary Oldman, que acaba oferecendo uma das piores atuações de sua carreira. Criando seu personagem como um padre lunático e que faria de tudo para matar aquele monstro, a apresentação de seu personagem é ainda mais grotesca ao retratar suas duas filhas saindo da carruagem para ir ao seu encontro e apenas exclamar: “esse é o mesmo monstro que matou nossa mãe”!?




Igualmente patética é a fotografia de Mandy Walker. Um dos grandes exemplos é a floresta que nunca surge com contornos mais escuros ou assustadores, muito pelo contrário, a floresta sempre conta com uma iluminação comum e muito mais segura que a própria vila. Outro exemplo é quando Walker investe num tom azulado para representar a noite em que o lobo ataca a irmã de Valerie, ou a cena em que a câmera mostra um clima ensolarado na direita, a igreja no centro e tons azuis na esquerda. Constrangedor!



Não satisfeita em ridicularizar os contos vampirescos, Hardwicke parece ter prazer em chacotear a mitologia dos lobisomens e brincar com aspectos da história da Chapeuzinho Vermelho. Somos surpreendidos por cenas não só como “que olhos grandes que você tem vovó” – juro que não sei como Seyfried não riu nessa cena -, mas por cenas que podem gerar grandes gargalhadas ao demonstrar o lobisomem falando com a personagem título e a personagem exclamando: “Meu deus!! Você fala...”. Logo, é interessante ressaltar uma das cenas hilárias da patética festa no segundo ato em que vemos uma dança incomum em que Seyfried e sua amiga dançam batendo palmas, numa espécie de “dança de ciranda”. Oras, é a melhor analogia do filme. Remete a mesma maturidade dos envolvidos nessa produção, pessoas com complexo infantil e que acreditam que todos os cidadãos do planeta são iguais: imaturos, irresponsáveis e tolos.




(1 estrela em 5)


Hop - Rebeldes sem Páscoa (2011)


'Hop, Rebelde sem Páscoa' talvez seja um dos novos exemplos de como usar alguns clichês com sabedoria pelos envolvidos de sua produção, ao contrário de 'Zé Colméia', o filme usa de forma divertida os clichês e seu surrealismo. O timing das piadas do longa são boas, aceitável técnicamente e seu personagem principal é cativante. É talvez um dos sinônimos daquela famosa frase usada por muitos de “um filme para toda a família”. Infelizmente, as sequências boas não apagam os erros. Não que o filme surja desastroso, mas a falta de inspiração do roteiro em alguns momentos é inaceitável e bastante deselegante.




Escrito por Ken Daurio e Cinco Paul (do péssimo Meu Malvado Favorito), Júnior (Russell Brand) é um coelho que adora tocar bateria e quer conhecer o mundo, mas seu pai (Hugh Laurie) deseja que ele dê continuidade à tradição de tornar-se o Coelho da Páscoa, seguida a quatro mil anos. Júnior passa a embarcar em uma aventura para fugir de sua responsabilidade, mas um dia, em Hollywood, é atropelado por Fred (James Marsden) e sua vida muda. No meio de gente famosa, seu sonho de ser um astro de rock'n roll vem à tona novamente e agora ele vai ter que se virar para driblar da família e não voltar para suas outras responsabilidades.



Conseguindo utilizar os clichês de forma interessante em algumas cenas do longa-metragem, o diretor é certeiro e cria sacadas ótimas – em que Júnior vai para a mansão playboy com o objetivo de entrar na “casa das coelhinhas”, ou noutra cena hilária em que Júnior reclama de suas acomodações em uma garagem. Além disso, o diretor acerta perfeitamente nas cenas envolvendo David Hasselhoff com frases como “Um coelho que fala? Eu já tive um carro que fala” (numa convencional, mas boa citação ao Super Máquina).



Aliás, o clima de diversão é geralmente proporcionado pelo cativante personagem principal, Júnior, algo perfeito para esse tipo de longa que tem como objetivo agradar as crianças e não deixá-las perderem o interesse – bem estabelecido pelo diretor Tim Hill (também responsável por Alvin e os Esquilos). O grande problema que o diretor passa a enfrentar a partir do final do segundo ato são os inconclusivos arcos narrativos. A aceitação do filho rebelde ao final do longa-metragem é um dos pontos mais risíveis (no péssimo sentido) para a trama. O que traz a impressão de que o diretor tinha um tempo pré-estabelecido e que teve que interromper de maneira brusca suas outras aspirações dentro da trama. Júnior não possui em nenhum momento o pensamento de ser o coelho da Páscoa, o que também torna seu final terrível dentro do que acontece.



Por outro lado, a direção de arte de Charles Daboub Jr. surge convencional, porém competente em mostrar traços da rebeldia de Júnior em um quarto completamente bagunçado e orientado por uma bateria ou na bela fábrica do Coelho da Páscoa – parecidíssima com a fábrica de Willy Wonka e suas cachoeiras de chocolate.



O filme também conta com uma escolha musical excelente em que traz desde jazz até ‘Every rose has its thorn’ da banda Poison, mas com uma trilha sonora que em momentos parece ser tirada de comerciais como “Natal Coca-cola”. O que de certa forma acaba revelando-se uma bela representação do longa – algo que num mesmo fator (música e trilha) pode gerar algo tremendamente irregular. Ainda que tenha seus grandes problemas e seja limitado, “Hop” se torna uma boa opção do gênero em meio a inegáveis filmes piores que também irão estrear nessa semana. Se a opção é uma garota de capa vermelha ou um coelho de chocolate? Sempre irei para o lado do doce, principalmente na Páscoa!



(3 estrelas em 5)

22 de março de 2011

Prêmio Kino Brasil (Melhor Filme)

O Prêmio Kino Brasil foi criado por Armando B. Martins que escreve no Listas de 10 e Vítor Stefano que escreve no Sessões. A premiação visa espelhar a opinião da geração de blogueiros brasileiros sobre o cinema nacional, fazendo uma espécie de colegiado de blogueiros, que vota em categorias para escolher os melhores filmes nacionais do ano. Os primeiros indicados a premiação já foram escolhidos e eu – um dos votantes – consegui emplacar alguns dos melhores nomes em longa-metragem nacional.


Farei uma rápida análise sobre cada um dos indicados ao Melhor Filme Nacional com breves comentários:



Os Famosos e os Duendes da Morte de Esmir Filho


Um dos meus filmes favoritos de 2010 e o segundo melhor filme nacional do ano. O filme é muito bem explorado por Esmir Filho que consegue criar um retrato de melancolia e completa solidão não só através de seus planos bem construídos, mas principalmente pela ótima fotografia e direção de arte. A cena inicial reflete muito bem isso, mostrando o personagem, interpretado intensamente por Henrique Larré, sentado no escuro de seu quarto acendendo/apagando um abajur e mostrando através da escuridão que ele seria apenas um ponto iluminado num completo vazio. A obra de Esmir Filho consegue ser intimista no ponto certo e muitos adolescentes podem se identificar com o personagem de Larré – simplesmente pela natureza depressiva do garoto e seu escape pelo mundo da música e seu “eu virtual”.

* O filme também é indicado em Melhor Roteiro e Direção


Os Inquilinos de Sérgio Bianchi


Bianchi é um dos melhores nomes do nosso cinema, mas é um dos menos conhecidos. O diretor faz o seu sexto longa-metragem e não perde a postura fazendo um dos melhores filmes brasileiros lançados em 2010. Conhecido por suas temáticas que tentam causar reflexões sobre algum tipo de caos social ou longas-metragens que poderiam virar reportagens jornalísticas – pelo tema e resultado de algumas de suas obras mais pertinentes –, Bianchi explora em Os Inquilinos uma trama mais simples, porém com o mesmo discurso social visto em seus filmes. O tópico da vez é a segurança ou a falta de. Se pegarmos apenas a sinopse do brilhante filme de Bianchi temos:Ele não tem uma arma, tem uma filha e um filho pequeno, fica fora o dia inteiro, não vê o que se passa na rua, ouve o que a mulher diz, o que a rua diz, ouve o barulho da música e das risadas dos inquilinos de madrugada. E não consegue dormir.” É isso que o diretor traça: o quanto a insegurança pode ter influência em suas decisões e suas conseqüências. Valter é interpretado muito bem por Marat Descartes que consegue justamente mostrar esse lado, o sutil modo de ser “mandado” ou “domesticado” pela violência e suas vertentes. A famosa insegurança que não atinge só seus personagens, mas o espectador.

* O filme também é indicado em Melhor Roteiro e atriz coadjuvante


As Melhores Coisas do Mundo de Laís Bodansky



O único filme que vi da diretora foi o ótimo “Bicho de Sete Cabeças” – fascinante principalmente por suas atuações. Aqui, Bodanzky revela-se uma boa escolha para uma história basicamente simples, mas que mais uma vez busca o algo a mais nas atuações dos envolvidos, talvez evidenciando o bom trabalho de atores feito pela diretora. O grande erro do longa é a saída mais fácil buscada no terceiro ato. A diretora se acovarda em dar um destino final justo e mais impactante para um dos personagens e faz um clima amistoso demais para o que o resto do longa-metragem havia proposto – quase um banho de água fria no espectador. Porém, o lado adolescente retratado pela diretora nos dois primeiros atos do filme são sublimes. As brincadeiras de colégio, a paixão pela guria mais linda do colégio e que nunca lhe dará bola, as amizades importantes, os falsos amigos, o poder dos rumores, etc. Tudo é muito bem planificado por Laís que dá enquadramentos precisos em mostrar cada aspecto emocional que o personagem sente no momento. Note, por exemplo, a cena em que “Mano” olha para “Valéria” pela primeira vez no colégio. A cena mostra uma feição diferente proporcionada por Miguez e logo depois a diretora faz quase que um contra-plongée para mostrar um sonho distante do personagem. Além disso, a arte (tanto o teatro, como a música) é a grande atenção da narrativa, servindo de escape de um mundo difícil e turbulento para o uso das palavras e emoção. Os personagens de Miguez e Fiuk (ambos brilhantes, principalmente o 2º) mostram muitas de suas emoções por ali: em uma peça ou em uma música. É chegando nesse patamar altíssimo que a obra se entrega a uma trama covarde e reverencia o caminho mais fácil, menos perigoso, em um final que tinha tudo para atingir algo marcante. Uma pena!

* O filme também é indicado em Melhor Roteiro, Direção, Atriz Coadjuvante e Ator


Tropa de Elite 2 de José Padilha 



José Padilha é o diretor mais promissor da nova leva de cineastas brasileiros. Cada cena da seqüência do ótimo e polêmico primeiro filme é administrada de forma muito mais pertinente por seus realizadores, cada plano e cada seqüência causa tensão. Desde um confronto mínimo contra jornalistas curiosos demais até as “brincadeiras” que Rezende faz de forma sublime com a montagem do longa – acabando com o espectador já na cena inicial, onde deixa o público temeroso quanto ao destino do personagem de Moura, encurralado. O longa funciona quase como que uma orquestra, onde cada instrumento tem que tocar em sintonia e nesse quesito Padilha sai-se admiravelmente bem ao conduzir os melhores instrumentistas do país (Rezende, Carvalho, Kopke, etc.) e dar toques singulares a uma obra que atinge o patamar de um dos melhores filmes nacionais já feitos. Padilha é tremendamente competente ao conduzir planos seqüência geniais, como o que Nascimento pega uma gravação que incriminaria uma boa parte dos políticos brasileiros, passa por portas de segurança em posse da gravação e pelo secretário que acaba sendo automaticamente seguido por Padilha, passando pelas mesmas portas de segurança e descobrindo o destino da fita. Um dos melhores planos seqüências que vejo em muito tempo. É interessante também o contraste com a realidade que o roteiro escrito por Padilha faz – algo que se revela um duro “soco no estomago” do público, ao mostrar situações em que nosso cotidiano é retratado na tela em sublinhas. Contando com atuações brilhantes e uma composição mais que genial de Wagner Moura, Tropa de Elite 2 é um achado do cinema nacional que pode finalmente fazer muitos brasileiros voltarem suas atenções ao cinema nacional e principalmente a perfeição que esse novo cinema pode atingir. Perfeito!

* O filme mais indicado da premiação. Indicado em Melhor Roteiro, Direção, Ator e Ator Coadjuvante (2 vezes).



Obs. Não listei o filme “Viajo Porque Preciso, Volto porque Te Amo” por não tê-lo visto e não seria justo com o longa que está indicado em outras 2 categorias – o que provavelmente já o torna bom, mas não opinarei.

Ah sim, todos os indicados estão nesse link: http://www.kinobrasil.com.br/p/os-indicados.html

14 de março de 2011

Analisando o Oscar: Melhor Diretor

Na categoria de direção fomos pegos de surpresa por uma vitória quase que absurda de Hooper. Foi a categorias com mais diferenças entre os realizadores: um diretor que priorizou o convencionalismo, outro que produziu um retrato de uma geração, dois que melhoraram algo que já era ótimo, outro que tem uma volta triunfante em um filme que tem suas singularidades em um gênero que já tentou de tudo e um diretor que já nos havia oferecido quatro filmes primorosos e agora chega a perfeição.

Minha rápida análise dos indicados a melhor direção:



5 – Tom Hooper por O Discurso do Rei


"Não deveria estar aqui".


Tom Hooper é um diretor com muito potencial, porém foi premiado no momento errado de sua carreira – algo que trouxe muita raiva para sua pessoa e futura filmografia. O que se mostra uma pena, levando em conta que O Discurso do Rei é um filme no mínimo interessante, tanto do ponto de vista técnico quanto do narrativo. Desde seu filme “Maldito Futebol Clube”, Hooper prioriza uma vertente narrativa, a qual trará o poderoso clímax final, mas nem por isso se priva de mostrar outras vertentes ou outros transtornos durantes seus longas. Hooper se mostra um diretor centrado no óbvio e no convencional, mas que exerce a função de forma extremamente precisa. Além de claro, mostrar-se um excelente preparador de elenco ao nos proporcionar atuações singulares de seus atores. Michael Sheen, Colin Firth e Geoffrey Rush são exemplos escancarados de que o diretor sabe preparar um elenco vencedor, mas que não se permite fugir muito da idéia central. Em O Discurso do Rei, o trabalho de câmera de Hooper não chama atenção em muitas cenas, contando mais com o trabalho do diretor de fotografia Danny Cohen nas cenas em que focaliza com precisão o microfone em que o rei fará os discursos, mostrando justamente que a história se passará em função de um único objeto. Na cena seguinte quando o personagem de Firth irá fazer um discurso para centenas de pessoas, mais uma vez a câmera focaliza o microfone deixando o público desfocado, algo que reforça a sensação de náusea do protagonista em discursar para a multidão. Hooper não é um charlatão, muito menos um diretor que será esquecido daqui a alguns anos, não, ele é apenas um diretor que se beneficiou pela forte campanha da companhia Weinstein, algo que poderia favorecer qualquer outro.



4 – David Fincher por A Rede Social

Quando me darão o Oscar?


David Fincher é o diretor de Alien 3, Se7en, Vidas em Jogo, Clube da Luta, O Quarto do Pânico, Zodíaco, O Curioso Caso de Benjamin Button e agora Rede Social. Só por ter dirigido Clube da Luta, Fincher deveria receber menção honrosa em todas as premiações do globo, incluindo Miss Universo. Fincher é um diretor com um estilo de abordagem singular e que prioriza um roteiro que por muito foge do convencional. É exatamente o motivo de “A Rede Social” funcionar. O diretor consegue criar um fluxo narrativo invejável ao mostrar cada dialogo ou cada aspecto emocional do protagonista e das pessoas que fizeram parte desse projeto que trouxe a maior rede social da internet e a mais rentável do mundo. A passagem de câmera de Fincher funciona perfeitamente com os diálogos rápidos e pertinentes de Sorkin e também com a brilhante montagem de Kirk Baxter e Angus Wall. Em Rede Social, o diretor acerta mais uma vez, criando um paralelo entre poder e solidão – mostrado na devastadora cena final em que o criador da maior rede social do mundo espera a confirmação de uma única pessoa. Fincher conseguiu mais uma vez!



3 – Ethan Coen e Joel Coen por Bravura Indômita

"Já ganhamos isso aí."


Bravura Indômita é apenas a prova irrefutável do talento dos Coen em construção de diálogos e condução de histórias. É interessante quando levamos à nossa mente imagens, diálogos e cenas que foram passadas em qualquer filme dos irmãos Coen. Sempre bem construídos, os diálogos conseguem ter o tempo correto em cada cena passada em tela, o que acaba ajudando o timing dos atores e a construção de seus personagens. Veja, por exemplo, a magnífica cena do interrogatório. A cena começa com a personagem entrando no ambiente meio receosa do que irá ver e começa a fazer uma aproximação devagar até ver por completo o personagem de Bridges. A câmera, nessa cena, começa mostrando a parte de trás das vestes formais das pessoas presentes no interrogatório, mostrando sinais de que o personagem de Cogburn estaria sendo cercado por essas pessoas. Bridges só vai ganhando forma aos poucos, conforme a personagem de Steinfeld vai se aproximando. Todas as cenas que os Coen proporcionam são sutis, plásticas e com uma genial sátira de seu ambiente ou de seus próprios personagens. Guiar o espectador apenas do olhar da personagem de Steinfeld é de uma genialidade assombrosa. Todas as cenas têm algum significado que se não for mostrado de imediato, será mostrado ao final. E é quando a nossa linda protagonista pergunta para Cogburn “Você não vai enterrar ele?” e o personagem de Bridges responde que “O chão está congelado. Se quiser um enterro digno tem que morrer no verão”, aí que sabemos: vimos um filme dos Coen em que uma única frase pode revelar tudo.



2 – David O´Russel por O Vencedor

"Estarei de volta nos próximos anos"


O’russel tem o pior trabalho dos cinco diretores, construir algo único de um tema abordado inúmeras vezes e é exatamente isso que o diretor consegue e é exatamente esse o porquê de estar em segundo lugar da minha lista dos melhores indicados ao Oscar. O diretor simplesmente investe no tema família e tudo que essa “instituição” pode causar em um único esporte, desde os momentos de glória aos momentos desastrosos de um lutador. O que gera um negócio familiar? Essas respostas são as que O’russel quer demonstrar para o espectador no decorrer do longa, para isso o diretor aborda sua narrativa sempre de forma circular e próxima de seus personagens, com o intuito de demonstrar o clima íntimo e familiar dos envolvidos. E se o personagem de Whalbergh está sempre deslocado de seus familiares essa é uma decisão acertada não só de seu ator, mas do diretor que é preciso em mostrar esses momentos. O’Russel também prioriza sua maravilhosa trilha sonora e investe nas músicas cantadas pelo seu maravilhoso elenco. Músicas que entram em total sintonia com o momento que os protagonistas estão passando. Se Bale canta para sua mãe no carro “I Started a Joke”, evidenciando seus erros e que os dois entendem a situação em que se encontram, a mesma análise pode ser feita da entrada para a última luta de Micky e na música “Here I Go Again”, mostrando que mais uma vez aquela família está lá desacreditada e contra tudo e todos. O’russel é inteligente e cumpre bem sua proposta. O Vencedor é uma aula de cinema.



1 – Darren Aronofsky por Cisne Negro

Perfeito!


Darren Aronofsky é um diretor que consegue nos colocar em um ambiente claustrofóbico, inseguro, inquietante e perversamente assustador em todas as suas obras. Todos os seus desfechos são intrigantes e conseguem mexer com cada milímetro de nossa extensão cerebral. Talvez pudéssemos julgar o diretor e o próprio estúdio ao entregar o filme logo em sua sinopse já permitindo o espectador saber o que a protagonista tem de errado e se aquilo tudo é real ou não passa de um transtorno psicótico. Poderíamos culpar se não fosse mostrado o que vimos na tela. Aronofsky começa a fazer um jogo dos sete erros com o espectador e consegue criar algo singular. Em cada aumento de nota do genial Clint Mansell nossas inseguranças e medos aumentam, conseguindo dar ainda mais tensão à obra. Começando o longa com a câmera na mão, Aronofsky investe num clima quase que de perseguição à sua protagonista. Em todo o lugar, a personagem parece ser perseguida por algo e a tensa respiração que ouvimos ou o batimento cardíaco (note que é da própria protagonista) só faz aumentar mais os nossos medos. A genialidade de Aronofsky vai desde o visual único como na perfeição que é a cena final até cada enquadramento ou “brincadeira” que o diretor proporciona em tela para descobrirmos quem é quem. Veja, por exemplo, a cena da balada onde, através de uma fotografia avermelhada, conseguimos visualizar uma das faces de Nina querendo desprender-se de seu corpo. Aliás, o cisne negro também é visualizado nessa cena e por último uma face assustada e presa é vista de relance num enquadramento final – mostrando um fundo todo preto (vazio) e sua face avermelhada e densa. Outro retrato impactante é o “desprendimento” de Lily quando Nina chega a casa no final do segundo ato e para na metade do espelho. O mesmo espelho que serve para mostrar Nina separada (note a divisória do espelho) acaba mostrando Lily se desprendendo do corpo de Nina e dirigindo-se ao quarto. Da mesma forma é quando vemos Nina indo para sua cena final e sua imagem não reflete no espelho em que ela passa. Todas as cenas são cuidadosamente planejadas e o “jogo” de Aronofsky funciona de forma perfeita chegando ao limite cinematográfico na melhor cena que já assisti nas telas de um cinema ao mostrar Nina se transformando em Cisne Negro. E se Tarantino, através do personagem de Brad Pitt, brinca ao final de Bastardos Inglórios dizendo que havia criado sua obra-prima; Aronofsky também brinca com seu longa-metragem ao final, em um dos diálogos mais simples e absolutos que o cinema já presenciou: “Foi perfeito, eu cheguei à perfeição!”